O antiviral cubano Interferon Alfa 2B está sendo usado na China para tratar pacientes da COVID-19, mas não é uma vacina nem a cura

Desde o início de março circulam nas redes sociais publicações e artigos que afirmam que o antiviral Interferon Alfa 2B, um remédio cubano, está sendo usado na China para curar a COVID-19. Outras postagens asseguram que esta droga, na realidade, é uma vacina contra o novo coronavírus. Embora este medicamento produzido com tecnologia cubana tenha sido usado na China em pessoas infectadas com a doença, trata-se de um antiviral cujo impacto no tratamento ainda está sendo avaliado - não é uma cura nem uma vacina.

“Cuba anuncia que já fabricou a vacina contra o coronavírus HAVANA”, “Cuba anuncia que produz vacina contra o coronavírus que esta sendo usado na China e já curou 1.500 pessoas” e “Quer curar o Coronavírus? VAI PRA CUBA!”, são alguns dos títulos e das legendas que acompanham artigos (1) nas redes sociais, compartilhados mais de 26 mil vezes.

Captura de tela feita em 20 de março de 2020 no Facebook

Algumas publicações afirmam que o Interferon é uma vacina, enquanto outras dizem que se trata da cura para o novo coronavírus. Alegações semelhantes circularam igualmente em espanhol e francês.

No último dia 7 de fevereiro, o presidente de Cuba, Miguel Díaz Canel, tuitou que o Interferon Alfa 2B é “um medicamento cubano usado na China contra o coronavírus” juntamente com um link para um artigo do periódico oficial Granma, que assegura que esta droga teve “resultados palpáveis na cura de mais de 1.500 pacientes” de COVID-19.

O ex-candidato à Presidência pelo PSOL Guilherme Boulos chegou a publicar em sua conta no Twitter que uma “vacina contra o coronavírus utilizada na China foi produzida em Cuba. De tanto gritarem ‘vai pra Cuba’ acabarão indo todos..”. Posteriormente, fez uma correção, assinalando que “o medicamento cubano utilizado com êxito contra o coronavírus na China não é uma vacina, mas sim um antiviral, voltado para tratamento, não prevenção”.

Feito na China com tecnologia cubana?

Em 5 de fevereiro de 2020, a embaixada cubana na China tuitou que a fábrica sino-cubana Chang Heber estava produzindo o antiviral Interferon Alfa “usando tecnologia cubana” e que a Comissão chinesa de Saúde Nacional havia incluído este produto entre os usados para combater o novo coronavírus, detectado no final de 2019.

Esse medicamento também é produzido por laboratórios em outros países, mas, segundo uma explicou à AFP o especialista na indústria de Biotecnologia e Imunoterapia cubana e pesquisador da Universidade de Lausanne e da Escola de Estudos Superiores em Ciências Sociais na França, Nils Graber, o Interferon é “um medicamento ‘me too’ [de imitação] e é “muito provável” que a elaboração em Cuba torne-o menos custoso.

Segundo a OMS, o Centro de Engenharia Genética e Biotecnologia de Cuba (CIGB), criado na ilha em 1986, produz Interferon, entre outros produtos de biotecnologia para o setor de Saúde, e transfere à China e ao Brasil a tecnologia para esta produção.

Captura de tela feita em 18 de março de 2020 de um relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS)

O presidente do grupo industrial estatal BioCubaFarma, Eduardo Martínez, detalhou em um encontro com médicos cubanos no último dia 13 de março que, além de Cuba, o remédio também é fabricado por uma empresa mista na China, o que facilitou a sua disponibilidade para o tratamento.

Martínez assinalou que na China, “entre as propostas [para combater o novo coronavírus], o primeiro produto de ação antiviral recomendado é o Interferon”, dentre 30 opções, e explicou que “o Interferon é um produto terapêutico, não uma vacina”.

“O Interferon Alfa 2B, usado como tratamento experimental de pessoas infectadas pelo coronavírus, é produzido na China em uma empresa mista sino-cubana (Heber Chang) segundo os processos industriais desenvolvidos inicialmente em Cuba”, assegurou Nils Graber à AFP. “A produção de Interferon está no centro dos programas de pesquisa e desenvolvimento da indústria de Biotecnologia em Cuba”, acrescentou.

Embora existam pesquisas em curso para a produção de uma vacina contra o novo coronavírus, segundo as autoridades de Saúde não haverá nada pronto dentro de vários meses. Empresas farmacêuticas, por sua vez, se comprometeram a dispor de uma vacina contra a COVID-19 “em todo o mundo”, em um prazo de 12 a 18 meses.

De acordo com um artigo publicado na revista “Nature Medicine”, um grupo de pesquisadores da Austrália afirmou ter observado esta semana, pela primeira vez, a resposta imunológica do organismo ao novo coronavírus, o que pode significar um avanço na luta contra o vírus. 

Testes clínicos

O medicamento Interferon Alfa 2B é habitualmente usado para o tratamento de diferentes doenças virais, como a hepatite, e geradas pelo HIV e o vírus do papiloma humano, entre outras. Mas, atualmente, a China começou a aplicá-lo para tratar seus pacientes infectados com a COVID-19, gerando interesse de compra em 15 países, de acordo com especialistas médicos cubanos.

Marta Ayala, vice-presidente do CIGB, explicou que “os interferons são moléculas produzidas pelo próprio organismo diante dos ataques virais. É uma primeira defesa natural do sistema imunológico para combater a entrada do vírus e inibi-lo”. Mas o novo coronavírus, ao invés de induzir a produção de interferons, a diminui. “De alguma forma, administrar o Interferon de fora [para dentro] poderia ser uma aproximação correta em meio à gama de tratamentos que estão sendo utilizados”, detalhou.

O Interferon Alfa é um dos remédios recomendados para o tratamento da COVID-19 no guia publicado em 6 de fevereiro de 2020 por médicos chineses de Wuhan, onde a epidemia teve início em dezembro de 2019. Nesse documento, entretanto, explica-se que por enquanto não há evidências que permitam optar por um remédio específico para combater o novo coronavírus.

Um relatório da Universidade Nacional de Cingapura com data de 12 de março de 2020 assinala que atualmente estão em curso vários testes clínicos de tratamentos para a COVID-19 a fim de avaliar a sua efetividade. “A nebulização, ou a pulverização de Interferon (em particular o Interferon Alfa), demonstraram reduzir a carga viral na etapa precoce de infecção em condições como pneumonia viral, infecções do trato respiratório superior agudas, doenças de mãos, pés e bocas, e SARS”, detalha.

O documento acrescenta que o Interferon, em diferentes apresentações, tem sido usado por muitos clínicos para o tratamento da COVID-19, “mas a sua eficácia ainda precisa ser determinada”.

A OMS explica em seu site que, “por enquanto, não é recomendado nenhum  medicamento específico para prevenir, ou tratar, a infecção pelo novo coronavírus (2019-nCoV)”.

Em resumo, o Interferon Alfa é um antiviral, não uma vacina, que é produzido na China a partir de tecnologia cubana. Esta droga está sendo utilizada em tratamentos contra a COVID-19. A sua efetividade, contudo, ainda está sendo avaliada.

AFP Argentina
Nadia Nasanovsky
AFP Brasil