Não existe nenhum processo contra a OMS por pulverizar um químico que causa pneumonia

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Publicações compartilhadas milhares de vezes nas redes sociais desde dezembro do ano passado afirmam que a agência Reuters informou que três países europeus processaram a Organização Mundial da Saúde (OMS) por “infectar” o continente após pulverizar um químico “que causa pneumonia”. Mas essa história, relacionada à teoria da conspiração dos “chemtrails”, é falsa. A Reuters nunca publicou essa notícia e autoridades da Polônia, Suécia e Noruega negaram a suposta ação.

A suposta notícia do processo foi compartilhada mais de 1,1 mil vezes no Facebook (1, 2, 3), ao menos desde 27 de dezembro de 2020, e no Twitter

“Extraordinário! Polônia, Suécia e Noruega estão entrando com um processo contra a OMS por infectar a Europa. Isto é o que Reuters traiu. Pilotos detidos admitiram que pulverizaram um produto químico que causa pneumite químico!”, lê-se em algumas das publicações.

Captura de tela feita em 22 de janeiro de 2021 de uma publicação no Facebook

Versões semelhantes circularam em inglês, sérvio, espanhol e francês.

De acordo com o site austríaco de verificação Mimikama, o mesmo texto foi publicado em 13 de dezembro de 2020 em búlgaro. Muitas postagens parecem ser uma captura de tela dessa publicação com uma tradução automática do Facebook.

Captura de tela feita em 22 de janeiro de 2021 de uma publicação no Facebook

Processo inexistente

Uma pesquisa pela suposta notícia no site da agência de notícias Reuters não levou a nenhum resultado. Tampouco foi encontrado algo a respeito ao buscar no Google as palavras-chave em inglês “Reuters + lawsuit + WHO OR World Health Organization”

A única matéria sobre um processo contra a OMS se refere a três moradores do subúrbio do condado de Nova York que, em abril de 2020, acusaram a organização de não declarar uma pandemia suficientemente cedo e de “encobrir” a gravidade da enfermidade. Em março havia sido apresentada uma ação similar contra a China.

“Posso confirmar que a Reuters não publicou tal história”, indicou à AFP Joel Ivory-Harte, gerente de comunicações da Reuters, em e-mail enviado no último dia 14 de janeiro.

Autoridades dos países mencionados nas publicações viralizadas também negaram à AFP a existência do processo contra a OMS em e-mails enviados em 13 de janeiro de 2021.

“Não temos conhecimento de nenhuma dessas ações”, declarou Mie Skarpaas, assessora de comunicação do diretor da Procuradoria da Noruega. “Isso não tem nenhum fundamento na realidade e não é verdade”, confirmou Guri Solberg, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores desse país.

Robin Simonsson, porta-voz da Procuradoria sueca, disse ter conferido tanto a unidade ambiental como a unidade de crimes internacionais e que elas “não têm conhecimento de nenhum desses casos”.

“A Polônia não apresentou uma denúncia contra a OMS pelo suposto pulverizador de ar com agentes químicos nem nenhuma outra denúncia contra essa organização. A informação apresentada nas redes sociais sobre esse tema é completamente incorreta”, indicou à AFP um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores desse país.

Chemtrails

A menção aos “pilotos que confessaram ter pulverizado produtos químicos” e as várias fotos que acompanham as mensagens viralizadas revelam que a afirmação está relacionada à teoria da conspiração do “chemtrails”

Também conhecida como “poeira inteligente”, assegura que as esteiras de fumaça branca deixadas pelos aviões quando voam contêm agentes químicos tóxicos que são intencionalmente lançados com objetivos secretos: esterilização, controle mental, redução da população ou controle do clima. Algumas versões, inclusive, afirmam que a covid-19 foi propagada deliberadamente por meio desta técnica.

O Grupo Keith da Universidade de Harvard, dedicado à pesquisa em ciência, tecnologia climática e geoengenharia, publicou um artigo sobre essa teoria, concluindo que ela carece de fundamento e que a realização de um programa com essas características em grande escala não poderia ser escondido da opinião pública. 

A Revista Nuevo Hospital do Complexo Assistencial Zamora, na Espanha, também publicou em sua edição de junho de 2018 um estudo sobre essa teoria conspiratória.

Nele, admite que a aviação pode ter um impacto sobre o meio ambiente devido às emissões das turbinas, mas explica que as esteiras de fumaça deixadas pelos aviões são compostas por vapor d’água condensado e produtos de combustão. Também assinala que muitas das teorias têm a ver com uma compreensão equivocada de pesquisas meteorológicas realizadas em diferentes pontos da Espanha.

Assim como em outras postagens verificadas pela AFP em espanhol, e diferentemente do que asseguram as publicações viralizadas nas redes sociais, as imagens que as compõem  tampouco provam a existência de “chemtrails”

As fotos

A primeira fotografia - e a que mais se repete nas diferentes postagens - mostra um avião liberando uma substância branca a partir de uma escotilha na parte de baixo da fuselagem. Uma busca reversa revela que a foto foi publicada originalmente em 2006 no Airliners, um fórum global de imagem e notícias de aviação. Alguns dias depois ela também foi postada no site JetPhotos.com.

A foto mostra o supertanker Boeing 747-273C identificado com o libré (conjunto de gráficos e cores da fuselagem) da Evergreen International Airlines, uma companhia aérea norte-americana que interrompeu as suas operações em 2014. Durante os anos em atividade foi reconhecido como um dos maiores aviões de extinção de incêndios do mundo, com capacidade para carregar mais de 75 mil litros de água.

Em outra foto se vê um homem caminhando dentro do que parece ser uma aeronave que leva como carga vários tanques cilíndricos. Uma busca reversa mostra que a imagem foi registrada em setembro de 2009 por um fotógrafo da agência Getty e mostra um piloto andando dentro do avião de testes MSN1, um Airbus A380 Superjumbo, “cheio de equipamentos de testes e quilômetros de cabos”.

Outra imagem mostra alguns tanques similares aos da fotografia anterior, mas em um plano fechado. Ela foi publicada originalmente no site Airliners em julho de 2009 e o que se vê são tanques de contrapeso comumente usados durante voos de teste, como é explicado no site especializado Aero.de

“Esses ballasts [contrapesos] fixos permitem representar cargas típicas, cenários típicos que poderiam ser vistos nas operações das linhas aéreas”, explica um engenheiro de testes de voo do grupo canadense Bombardier Transportation a partir de 2 minutos e 30 segundos do vídeo.

“Durante os voos de teste, quando o avião está completamente vazio, é simulado o peso dos passageiros e dos assentos, substituindo-os por grandes tanques cheios de água”, assinalou à AFP Xavier Tytelman, consultor de segurança aérea.

As publicações viralizadas também incluem uma foto do interior de um avião DC-3, publicada em um blog em julho de 2011, no qual explica-se que os tanques vistos ali levam dispersantes usados sobre vazamentos de petróleo no mar

Em resumo, as publicações viralizadas são falsas: não existe nenhum processo contra a OMS por pulverizar no ar um químico que causa pneumonia, como foi confirmado pelas autoridades dos supostos países querelantes. Além disso, as fotos contidas nas postagens como prova da teoria da conspiração dos “chemtrails”, na verdade, foram tiradas de contexto e não respaldam a ideia de que as esteiras de fumaça deixadas pelos aviões são o rastro de produtos químicos dispersados deliberadamente.

Tradução e adaptação
AFP Brasil
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