Imagem de flamingos em Veneza é uma montagem, e não uma consequência da quarentena contra a COVID-19

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Uma imagem de dezenas de flamingos nadando em um canal de Veneza foi compartilhada milhares de vezes em redes sociais como se as aves tivessem ocupado a cidade italiana como consequência das medidas de isolamento decretadas para reduzir a propagação do novo coronavírus. Trata-se, no entanto, de uma montagem feita por uma artista russa a partir de uma foto de Veneza e de um registro de flamingos no Quênia.

“A chegada dos cisnes rosados em Veneza, coisa que não acontecia há muitos anos! A quarentena, sem gôndolas e outras embarcações, ofereceu esse esplendor de suavidade e de beleza, como se mãe natureza viesse saudar o início de uma nova era, um novo jeito de coexistir”, diz uma das publicações, compartilhada mais de 5.500 vezes no Facebook desde o último dia 2 de maio.

Postagens semelhantes se multiplicam no Facebook (1, 2, 3, 4) e Instagram (1, 2, 3), somando mais de 9 mil compartilhamentos. “A quarentena tem suas vantagens, comentou um usuário em uma das postagens. “Maravilhoso, a natureza sem a interferência do homem”, escreveu outro.

A alegação também circulou amplamente em francês, espanhol, inglês e italiano

Captura de tela feita em 11 de maio de 2020 mostra imagem publicada no Facebook

A imagem não mostra, contudo, a situação de Veneza em meio à pandemia de coronavírus.

Uma busca reversa* no Google pela foto viralizada localiza o mesmo registro publicado no site da fotógrafa russa Kristina Makeeva. Em sua página, é possível ver alguns de seus outros trabalhos, incluindo imagens fantasiosas, e acessar dicas do programa de edição digital de imagens Photoshop.

Uma busca em sua conta no Instagram localiza a mesma imagem de Veneza publicada em 24 de abril - mais de uma semana antes das primeiras postagens em português. Na legenda, Makeeva indica que a foto é uma montagem: “Arte 2020 / quando as pessoas ficam em casa a cidade é ocupada por outros moradores”.

Nos comentários, Makeeva também respondeu usuários que questionaram a veracidade da imagem. “Incrível, não posso acreditar que seja real”, escreveu um internauta, ao que a fotógrafa respondeu: “É arte”. “Isso é real?”, perguntou outro usuário. “Não”, respondeu Makeeva.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Art 2020 ▪️/ when people stay at home - city is filled with other residents / пока люди сидят по домам - город наполняется другими жителями.

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Contactada pela equipe de checagem da AFP, Makeeva confirmou que a imagem foi alterada digitalmente. “Eu sempre escrevo que é arte, mas muitas pessoas não lêem”, disse a artista russa. “Essa é apenas a minha visão artística, às vezes flamingos voam para a baía perto de Veneza, mas não em um número tão grande”, completou.

Ao AFP Checamos, Makeeva informou que a imagem viralizada foi produzida a partir de uma foto de Veneza e de um registro de flamingos no Quênia, ambos feitos por ela. De fato, em seu site, há diversas fotografias de aglomerações de flamingos, que migram em grandes quantidades ao país africano, como demonstram estas imagens da AFP (1, 2).

Em seu site, Makeeva publicou outra montagem de flamingos em Veneza, desta vez em frente à Basílica de São Marcos.

Apesar desta foto ser uma montagem, as medidas de isolamento implementadas para combater a COVID-19 realmente têm impactado a natureza em diversas partes do mundo. Em Veneza, a ausência de gôndolas e de turistas fez com as águas de seus canais ficassem muito mais limpas, tornando visíveis alguns elementos de sua fauna e flora que antes ficavam ocultos sob as águas turvas.

O AFP Checamos também já verificou outras imagens que supostamente mostravam o efeito da quarentena na natureza.

Até 12 de maio, foram registrados mais de 4,2 milhões de casos confirmados de coronavírus no mundo e 290 mil mortes.

Em resumo, a imagem viralizada não mostra a chegada de flamingos em Veneza como consequência das medidas de isolamento social decretadas para reduzir a propagação do novo coronavírus. A foto é uma montagem, feita a partir de uma fotografia da cidade italiana e de registros de flamingos no Quênia.

AFP Brasil
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