Suprema Corte do Canadá não aceitou ação judicial contra a OMS por crimes contra a humanidade

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Publicações compartilhadas nas redes sociais milhares de vezes, em vários idiomas, desde o início de dezembro de 2021, garantem que a Suprema Corte do Canadá aceitou um “processo global” promovido pelo advogado alemão Reiner Fuellmich contra a Organização Mundial de Saúde pela gestão da pandemia de covid-19. Mas a afirmação é falsa: a Suprema Corte canadense confirmou à AFP que esse caso não foi apresentado à entidade, e o próprio Fuellmich negou a informação.

“INICIADO E ACEITO PELO TSJ DO CANADÁ, PROCESSO POR CRIMES CONTRA A HUMANIDADE”, alegam publicações no Facebook (1, 2, 3) e no Twitter (1, 2).

As mensagens acrescentam: “Uma equipe de mais de 1.000 advogados e mais de 10.000 especialistas médicos liderados pelo alemão Reiner Fuellmich, um dos advogados mais poderosos da Europa, abriu o maior processo da história chamado ‘Nuremberg 2’, contra a OMS (Organização Mundial da Saúde) e o Grupo Davos (Mundial Fórum Econômico liderado por Klaus Schwab, mais de 80 anos) por crimes contra a humanidade”.

A informação também foi publicada em um artigo na internet, compartilhado mais de 600 vezes, segundo a ferramenta de medição de audiências CrowdTangle.

O conteúdo também foi compartilhado em espanhol, francês, inglês, alemão e polonês.

Captura de tela feita em 28 de dezembro de 2021 de uma publicação no Facebook ( . / )

Quem é Reiner Fuellmich?

Fuellmich é um advogado alemão com um escritório de advocacia na cidade de Göttingen. Desde 2020, ele promove uma “Demanda de indenização por danos relacionados ao coronavírus” contra a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o virologista alemão Christian Drosten, cujo protocolo para detectar SARS-CoV-2 por meio de testes PCR vem orientando os laboratórios do mundo durante a pandemia.

Quem quiser entrar na ação coletiva deve pagar a Fuellmich e sua equipe uma "taxa fixa" de 800 euros mais um Imposto sobre Valor Agregado (IVA) e, depois, 10% do valor eventualmente ganho com a ação, conforme se lê na seção "Perguntas frequentes" da iniciativa.

Além disso, o advogado pretende processar o governo alemão pela gestão da pandemia de covid-19 e é cofundador do chamado Comitê Corona. Segundo o grupo, eles também buscam responsáveis pelo chamado “dano colateral” que teria sido causado pelas ações tomadas para prevenir a disseminação do coronavírus.

No entanto, não há registro de que nenhum desses casos tenha chegado aos tribunais, nem há menção a isso no canal de Telegram do advogado.

Nada na Suprema Corte do Canadá

No último 13 de dezembro, a AFP contatou a Suprema Corte do Canadá.

Por e-mail, um porta-voz do tribunal pontuou que os casos atuais ou históricos perante a Corte podem ser rastreados no site da instituição, e que as informações são mantidas atualizadas.

“Em outras palavras, se a sua busca não der resultado, você saberá que o caso em questão não foi apresentado à Suprema Corte ou, pelo menos, não foi apresentado naquela data”, acrescentou.

Até 30 de dezembro de 2021, a pesquisa não produziu nenhum resultado sobre Reiner Fuellmich ou sobre casos de crimes “contra a humanidade” contra a OMS pela gestão da pandemia.

Fuellmich também nega a alegação

Em 16 de dezembro, o advogado alemão negou em seu canal no Telegram a informação viral.

"Mais uma vez, circulam informações falsas segundo as quais o Dr. Reiner Fuellmich estaria liderando centenas de advogados e profissionais de saúde e teria iniciado um Nuremberg 2.0 no Canadá", diz a mensagem, que se refere a uma desinformação semelhante que viralizou em maio de 2021 e foi verificada pela equipe de checagem da AFP.

No Telegram, Fuellmich detalha que o “Comitê Corona” e uma equipe de advogados estão planejando um “Tribunal de Opinião Pública”: uma espécie de audiência probatória que ocorrerá em 2022 para reunir evidências sobre os “crimes contra a humanidade” cometidos no contexto da gestão da pandemia, bem como “declarações das vítimas da vacina”.

Não é a primeira vez que o advogado tem que desmentir que chegaram aos tribunais suas ações coletivas contra a OMS ou o governo alemão e os supostos julgamentos de “Nuremberg 2.0”. Por exemplo, em uma entrevista em junho passado com o ex-conselheiro de Donald Trump e executivo de mídia Steve Bannon, Fuellmich disse que, para realizar os “julgamentos de Nuremberg 2.0”, seria necessária a formação de um “Tribunal Internacional do Coronavírus”, sem especificar quando seria criado e com que garantias. À época, o próprio advogado admitiu que não estavam “prontos para isso ainda”.

Testes e imunizantes

Algumas publicações afirmam ainda que há "milhares de evidências científicas que apoiam a total falta de confiabilidade dos testes de PCR", mas isso não é verdade. Como já explicado pela AFP em outras verificações (1, 2, 3), os testes PCR são projetados especificamente para detectar o vírus SARS-CoV-2.

“Estimamos que a especificidade dos RT-PCR seja da ordem de 99%”, informou Cédric Carbonneil, chefe do serviço de avaliação dos atos profissionais da Alta Autoridade de Saúde francesa (HAS), em outubro de 2020 à AFP.

As publicações também afirmam que os imunizantes “fazem parte de experimentos genéticos”. Embora cheguem ao núcleo da célula muscular, as vacinas não são capazes de afetar o genoma, como explicaram especialistas em outras oportunidades (1, 2).

Ainda segundo as mesmas publicações, as vacinas violam “todos os 10 códigos de Nuremberg”. No entanto, especialistas em ética e saúde já destacaram à AFP que o Código de Nuremberg trata de experimentos em humanos, e não de vacinas, e que não há incompatibilidade alguma entre elas e o Código.

A equipe de checagem da AFP já verificou várias declarações falsas de Reiner Fuellmich sobre a pandemia, vacinas contra a covid-19 e o coronavírus (1, 2).

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