Um agente de segurança revista os passes sanitários na entrada do mercado de Natal de Viena, em 15 de novembro de 2021 ( AFP / Joe Klamar)

O Exército e a Polícia não apoiaram oficialmente o protesto na Áustria contra o confinamento

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Publicações que asseguram que “a polícia e o exército” da Áustria planejavam se unir a uma grande manifestação contra o confinamento obrigatório devido à pandemia de covid-19 em 20 de novembro de 2021 em Viena foram compartilhadas mais de 1,5 mil vezes nas redes sociais desde o último 17 de novembro. As mensagens também afirmam que esses órgãos de segurança “recusam-se a controlar os passes de saúde” em meio a uma “ditadura da saúde”. Mas o Exército e a Polícia da Áustria não apoiaram o protesto, que foi respaldado por organizações e associações privadas que não representam essas instituições. O Exército, por sua vez, não controla os certificados sanitários, salvo raras exceções.

“ÁUSTRIA NEM ESTÁ PERDIDO! A REAÇÃO!” e “AH, POIS É!... E POR CÁ?!... COMO SERÁ, SE NÃO ‘ABRIRMOS OS OLHOS’...”, indicam as legendas de publicações que circularam no Facebook (1, 2, 3), no Twitter (1, 2), no Instagram (1) e em sites (1).

Captura de tela feita em 2 de dezembro de 2021 de uma publicação no Facebook ( . / )

Conteúdos semelhantes também foram compartilhados em inglês, espanhol e húngaro.

Essas mensagens começaram a circular dias antes de a Áustria se tornar o primeiro país europeu a impor a obrigatoriedade da vacinação a partir de 1º de fevereiro de 2022. Diante do aumento dos casos de covid-19, o chanceler Alexander Schallenberg também anunciou o confinamento geral para toda a população a partir de 22 de novembro, poucos dias depois de determinar o lockdown para pessoas não vacinadas.

Nas ruas de Viena, em 20 de novembro de 2021, milhares de pessoas se manifestaram contra o confinamento. A convocação surgiu, particularmente, por parte do Partido da Liberdade da Áustria (FPO, na sigla em alemão), de extrema direita.

Algumas publicações viralizadas compartilham a captura de tela de um artigo intitulado “Áustria se levanta contra ‘a ditadura da saúde’”. Uma busca no Google por essa manchete forneceu alguns resultados similares ao artigo viralizado. Além disso, foram encontradas versões em inglês e alemão citando outro artigo do meio de comunicação austríaco Wochenblick, que divulga reiteradamente alegações falsas ou enganosas sobre a pandemia de coronavírus, já verificadas pela AFP (1, 2).

Pessoas se manifestam contra as novas medidas para frear a covid-19 na Praça dos Heróis, em Viena, em 20 de novembro de 2021 ( AFP / Joe Klamar)

O Exército não apoiou os protestos

A manifestação em Viena, além de contar com o apoio do FPO, também foi respaldada pelo grupo Sindicato Livre da Áustria - União do Exército (FGO-BHG), que faz parte da organização União Livre da Áustria, que se apresenta como “uma associação de trabalhadores organizada democraticamente”.

A FGO-BHG não é legalmente reconhecida como um sindicato que representa os trabalhadores, e sim como uma associação privada, explicou o porta-voz do Ministério da Defesa austríaco, Michael Bauer, em um tuíte publicado em 15 de novembro de 2021. O órgão representativo legal dos militares no país é, por sua vez, o sindicato dos funcionários públicos GOD.

Em 17 de novembro de 2021, Bauer tuitou que eram enganosas as afirmações de que o Exército apoiava o ato de 20 de novembro: “Há 1 convocação para 1 protesto circulando no Twitter. Tenta-se estabelecer uma conexão com #Bundesheer [Forças Armadas da Áustria]. Isso é enganoso. Não apoiamos manifestações, não convocamos nem participamos de nenhuma. Não é permitida a participação de soldados uniformizados”.

A AFP entrou em contato com o presidente da FGO-BHG, Manfred Haidinger, em 18 de novembro de 2021, que disse apenas poder falar “em nome” de seus membros e “de mais ninguém”. “Isso também significa que não posso falar em nome dos militares”, acrescentou.

Haidinger se negou a especificar o total de inscritos no FGO e disse que “não tinha ideia” do número de soldados que iriam participar da manifestação de maneira não oficial.

Da mesma forma, tampouco é verdade que o Exército austríaco se recusa a verificar os passaportes sanitários, já que as forças militares não estão habilitadas para essa tarefa, com exceções muito específicas, confirmou Bauer à AFP. “Se o Exército fizesse isso, seria porque a Polícia nos pediu. Entretanto, não houve tal solicitação pela Polícia”, explicou.

O porta-voz elucidou que o Exército teve que verificar os certificados de vacinação em casos pontuais: “Por exemplo, nos aeroportos de Viena e Salzburgo, mas isso tem sido assim há semanas, meses”.

Seguranças revisam os certificados de vacinação dos visitantes que chegam ao mercado de Natal em Viena, em 15 de novembro de 2021 ( AFP / Joe Klamar)

A Polícia tampouco apoiou a mobilização

Barbara Gass, porta-voz da Polícia de Viena, confirmou à AFP em 18 de novembro de 2021 que a Polícia austríaca não apoiou a manifestação: “Nunca, como instituição, daríamos uma opinião política. Os internautas dizem que a Polícia disse em algum lugar que ‘é ótimo que [o protesto] esteja ocorrendo’, mas o Departamento de Polícia de Viena nunca disse isso”, explicou.

“Temos o dever legal de garantir que seja respeitada a liberdade de reunião durante qualquer manifestação que tenha sido registrada junto às autoridades”, advertiu, acrescentando que os policiais que desejam se manifestar podem fazê-lo, mas não estão permitidos a usar o uniforme.

Algumas publicações nas redes sociais (1) também mostram um vídeo de supostos policiais que teriam participado do protesto, segurando uma faixa que diz: “Chega! Estamos com vocês. Policiais pelos direitos e liberdades fundamentais”, segundo traduziu a equipe austríaca da AFP.

No entanto, meios de comunicação estatais assinalam que “provavelmente” se tratava de um grupo de cidadãos alemães e que a Polícia está investigando o incidente.

Portanto, embora seja possível que soldados e policiais à paisana tenham comparecido à manifestação, não há nenhum registro oficial disso. Segundo a mídia austríaca, 1.300 agentes estiveram presentes para proteger o ato de 20 de novembro de 2021.

Apesar das novas medidas restritivas, a liberdade de manifestação é protegida pela Constituição austríaca e, portanto, não pode ser impedida. Embora os manifestantes devessem ter usado máscaras já que a aglomeração ultrapassava 50 pessoas, as fotografias mostram que a medida não foi cumprida.

Manifestantes contra as medidas tomadas para frear a pandemia de covid-19 se reúnem na praça Maria Theresien em Viena, em 20 de novembro de 2021 ( AFP / Joe Klamar)

Também não é verdade, como asseguram as publicações virais, que a Polícia austríaca “se recusa a verificar os passes de saúde”: desde que as novas regras entraram em vigor, a polícia aumentou as patrulhas para verificar os certificados de saúde.

No entanto, alguns representantes da polícia sindical realmente expressaram sua preocupação em relação à sua capacidade para controlar o confinamento compulsório.

O Checamos já verificou outro conteúdo relacionado às manifestações na Áustria em meio à pandemia de covid-19.

Tradução e adaptação
VACINAS COVID-19