A foto em que um PM apreende produtos de uma ambulante é de 2016, sem relação com a pandemia

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Publicações que mostram uma vendedora ambulante tentando impedir que um policial militar apreenda o seu recipiente térmico somaram mais de 134,4 mil interações nas redes sociais desde o último dia 11 de março. Segundo os usuários, a ação fez parte das medidas adotadas por governadores e prefeitos para enfrentar a pandemia de covid-19. Mas a foto viralizada foi registrada em setembro de 2016, durante uma manifestação contra o então presidente Michel Temer.

“Se isso não te fazer repensar sobre as ‘medidas’ que governadores e prefeitos estão tomando não há nada que possa ser feito no Brasil”, diz o texto que acompanha a imagem, em postagens compartilhadas centenas de vezes no Facebook (1, 2, 3) e no Twitter (1).

No Instagram (1, 2, 3) este conteúdo ganhou ainda mais viralidade depois que foi publicado na conta do filho do presidente Jair Bolsonaro e vereador no Rio de Janeiro, Carlos Bolsonaro (Republicanos). 

Captura de tela feita em 16 de março de 2021 de uma publicação no Twitter

Uma busca reversa* pela fotografia, contudo, mostra que ela não tem qualquer relação com a pandemia de covid-19 ou com as medidas restritivas adotadas por prefeitos e governadores.

Usando o buscador Bing foi possível chegar a uma postagem feita na rede social Pinterest de um texto publicado no site da Folha de S.Paulo em 18 de setembro de 2016 intitulado: “Protesto anti-Temer chega ao fim com início da chuva e menos manifestantes”.

Na matéria é explicado que, durante a manifestação, houve um tumulto entre manifestantes e policiais militares depois que estes tentaram apreender os produtos de uma vendedora ambulante, que resistiu à ação.

Captura de tela feita em 16 de março de 2021 da matéria no site da Folha de S.Paulo com a data de publicação destacada

Uma pesquisa no Google pelas palavras-chave “tumulto vendedora ambulante protesto 18/09/2016” levou a outros artigos publicados pela imprensa sobre o mesmo caso (1, 2, 3), nos quais é possível conferir a cena a partir de outros ângulos.

Um dos envolvidos no tumulto foi o atual vereador Eduardo Suplicy (PT-SP), que tentou intervir quando viu a ação da Polícia Militar. Ao se aproximar, foi empurrado e afastado com spray de gás de pimenta, segundo o relato da imprensa.

Em vídeos publicados em sua página oficial no Facebook é possível ver o momento em que Suplicy intervém após os policiais retirarem a caixa de isopor da vendedora.

Ao subir novamente no carro de som durante o protesto, o político falou sobre o caso: “Afinal, o que eles [os policiais] estavam querendo? Uma mulher estava ali, deitada, e retiraram dela uma caixa com latas de cerveja. O trabalho dela”.

À imprensa (1, 2), a Polícia Militar do Estado de São Paulo declarou: “Eles foram fazer uma apreensão dos equipamentos de uma senhora. Se houve agressão, será apurado. Mas já orientei para cessarem essas ações porque é um ambiente de manifestação, é difícil”.

No dia do protesto, a PM de São Paulo indicou em sua conta no Twitter que realizava ações de combate ao comércio irregular e apreensões de mercadorias de ambulantes.

Na época, o governador do estado de São Paulo era Geraldo Alckmin (PSDB), que ocupou o cargo até 2018, quando foi sucedido por João Doria, do mesmo partido.

Em suas contas oficiais no Instagram e Facebook, a Polícia Militar do Estado de São Paulo desmentiu no último dia 12 de março a afirmação que circula nas publicações viralizadas atribuindo a imagem ao atual momento de pandemia. Novamente, indicaram que o registro foi feito “durante intervenção policial em Atividade Delegada para combate ao comércio irregular”.

Desde que o novo coronavírus chegou ao Brasil, São Paulo foi um dos primeiros estados a decretar medidas que limitam o funcionamento de estabelecimentos públicos. O governador João Doria e o presidente Jair Bolsonaro já tiveram embates (1, 2) devido à condução da pandemia.

Com o aumento dos casos e das mortes nos primeiros meses de 2021, várias localidades voltaram a decretar as medidas de restrição. O Brasil é o segundo país do mundo com mais óbitos e casos, ultrapassando a marca de 280 mil mortos, ficando atrás apenas dos Estados Unidos.

Um conteúdo semelhante também foi checado pelas equipes da Agência Lupa e do Aos Fatos.

*Uma vez instalada a extensão InVid-WeVerify no navegador Chrome, clica-se com o botão direito sobre a imagem e o menu que aparece oferece a possibilidade de pesquisa da mesma em vários buscadores.

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