Atendentes de uma loja Chanel usam máscaras para dar as boas-vindas aos clientes nas Galeries Lafayette, em Paris, no primeiro dia de reabertura dos grandes estabelecimentos, em 30 de maio de 2020 (Alain Jocard / AFP)

Fechamentos na Zara, demissões na Nike e falência da Victoria’s Secret: nem todos estes dados são verdadeiros

Copyright © AFP 2017-2020. Todos os direitos reservados.

Publicações que circulam ao menos desde meados de julho nas redes sociais asseguram que as marcas Victoria's Secret e Cirque du Soleil declararam falência, que a Zara fechou mais de 1.000 lojas, e que Chanel, Rolex e Hermès interromperam as suas produções. A maioria destas alegações, contudo, é enganosa.

“A Victoria's Secret declarou falência. Assim como o Cirque du Solei. A Zara fechou 1.200 lojas. Chanel, Hermes e Rolex interromperam a produção. A Nike prepara-se para a segunda etapa de demissões”, indica a mensagem divulgada e compartilhada milhares de vezes desde o último dia 15 de julho no Facebook (1, 2, 3), Instagram (1, 2, 3) e Twitter (1, 2, 3).

O texto acrescenta que a Starbucks fechará 400 lojas e que “o fundador do AirBnb disse que, devido à pandemia, 12 anos de esforços foram destruídos em 6 semanas [sic].

Este mesmo conteúdo circulou em inglês e espanhol.

Captura de tela feita em 6 de agosto de 2020 de uma publicação no Facebook

A equipe de checagem da AFP verificou cada uma destas afirmações e nem todas são verdadeiras:

1 - “Victoria’s Secret declarou falência”: Enganoso

O texto da publicação começa dizendo que a marca de lingerie e outros produtos de beleza femininos Victoria’s Secret declarou falência.

De acordo com a revista Forbes, a marca norte-americana anunciou em maio de 2020 o fechamento de 250 lojas nos Estados Unidos e no Canadá devido à queda abrupta das vendas pela crise do novo coronavírus.

A equipe de checagem da AFP entrou em contato com o diretor financeiro da L Brands - grupo proprietário de Victoria’s Secret, Bath & Body Works e PINK - e CEO interino da Victoria’s Secret, Stuart Burgdoerfer, que explicou que, de fato, um processo de falência está em curso, mas que se limita à sucursal do Reino Unido.

Entre as medidas que foram tomadas devido à pandemia de COVID-19, Burgdoerfer assinalou: “Estamos tratando as perdas de nossas 25 lojas no Reino Unido nomeando a Deloitte para que trabalhe com a Victoria’s Secret na administração”.

Segundo o último relatório financeiro publicado pela L Brands em seu site em maio deste ano, no primeiro quadrimestre de 2020 as perdas líquidas foram de 275,2 milhões de dólares. No mesmo período, mas de 2019, registraram lucro de 40,3 milhões de dólares.

No último dia 28 de julho, o grupo também informou que cortará cerca de 15% dos seus postos de trabalho.

Ao observar o valor da L Brands na Bolsa no último ano, por sua vez, pode-se notar uma forte queda entre março e julho. De acordo com os registros da Forbes, em 4 de março de 2020 as ações valiam 24,35 US$, mas no dia 18 desse mesmo mês chegaram a atingir 9,79 US$. Meses depois, em 29 de julho, seu valor subiu para 25,88 US$.

A revista Forbes indica em seu artigo de maio, contudo, que a L Brands já estava enfrentando dificuldades financeiras desde antes da pandemia, quando o ex-diretor-executivo do grupo Les Wexne foi relacionado a Jeffrey Epstein, empresário acusado de abuso sexual e estupro que faleceu em agosto de 2019.

2 - Cirque du Soleil declarou falência: Enganoso

A companhia artística canadense retomou as suas atividades apesar do que significou para eles a crise decorrente da pandemia de COVID-19. Depois de ficarem três meses inativos, recentemente se apresentaram na Riviera Maya, no México, com o espetáculo “Joya”.

Antes da retomada das suas apresentações, entretanto, o Cirque du Soleil demitiu 95% dos seus funcionários no último mês de março.

Depois, em junho, solicitaram proteção judicial para se reestruturarem economicamente.

O AFP Checamos entrou em contato com a diretora de relações públicas da companhia, que explicou por e-mail que nunca declararam falência, mas que esta solicitação judicial se deu “em virtude da Lei de Acordos de Credores de Empresas (‘CCAA’) no Canadá e do capítulo 15 do Código de Falência dos Estados Unidos para reestruturarem o seu capital e protegerem o futuro da empresa”.

De acordo com estes arquivos judiciais sobre as solicitações feitas pelo Cirque du Soleil no Canadá, a Divisão Comercial da Suprema Corte aprovou em 17 de julho deste ano o pedido para iniciar um processo de venda e investimentos.

Isto foi confirmado em um comunicado oficial da companhia artística, no qual explicam que foi assinado um acordo com credores que comprarão todos os ativos do circo. Com este investimento, indica o texto, poderão “ajudar os funcionários afetados e os terceirizados independentes. Também inclui compromissos de manter a sede das empresas e que o seu CEO tenha sede em Montreal, Quebec”.

3 - “Zara fechou 1.200 lojas”: Enganoso

Em 10 de junho, o grupo espanhol Inditex, proprietário de Zara, Pull & Bear, Massimo Dutti e outras quatro marcas, informou em seu site que em um prazo de dois anos fecharia entre 1.000 e 1.200 “lojas de menor tamanho, que representam entre 5% e 6% das vendas totais, e que têm uma menor capacidade de prestar os novos serviços ao cliente”. Isto é feito como parte de uma estratégia que busca fortalecer as vendas on-line.

Embora este comunicado do grupo Inditex tenha sido publicado durante a pandemia, em seus planos para 2022 não mencionam que isto se deva ao novo coronavírus. Tampouco indicam quais lojas seriam fechadas, nem especificam quais marcas do grupo serão afetadas.

O grupo também informou sobre o registro de uma perda de mais de 463 milhões de dólares no primeiro trimestre de 2020, período em que manteve 88% de suas lojas fechadas. Paralelamente, suas vendas on-line cresceram 50% no mesmo período.

De acordo com o último relatório financeiro do primeiro trimestre de 2020, as vendas somaram aproximadamente 3,3 milhões de euros, enquanto no mesmo período do ano anterior foram de 5,9 milhões de euros. No documento também assinalam que “nos mercados em que as lojas estavam plenamente abertas (54% das lojas totais) a venda diminuiu 16%”.

4 - Chanel, Hermès e Rolex interromperam a produção: Verdadeiro, mas…

Estas três marcas, de fato, interromperam a sua produção em meio à pandemia causada pelo novo coronavírus, quando este chegou à Europa no final de janeiro.

Em 18 de março, a marca de luxo Chanel decidiu frear a sua produção e fechar progressivamente as suas fábricas na França, Itália e Suíça por duas semanas. Segundo os meios de comunicação, “a Chanel tomou a decisão, de acordo com as últimas diretrizes governamentais, de fechar completamente os seus locais de produção”.

Alguns espaços de distribuição, no entanto, mantiveram uma presença mínima de funcionários, seguindo as medidas de proteção.

Até este momento, não há no site da marca os relatórios financeiros de 2020.

A Hermès, por sua vez, também interrompeu a sua produção em meados de março e fechou suas lojas na França até o final daquele mês.

A AFP informou no final de julho que, devido à pandemia, as vendas desta marca de luxo caíram 55%, a 335 milhões de euros no primeiro semestre de 2020, enquanto a sua rentabilidade caiu para 21%, diante dos 34,8% de 2019.

O presidente executivo da Hermès, Axel Dumas, assegurou aos meios de comunicação que as vendas começaram a aumentar em junho e que conseguiram abrir todos os pontos de venda na China.

Em seu site oficial foi publicado um relatório financeiro do primeiro semestre de 2020. Nele, informa que estes resultados “foram fortemente castigados pelo fechamento das lojas”, acrescentando que no final de junho a renda diminuiu 24%.

No mesmo documento a Hermès explica que a pandemia de COVID-19 afetou a parte financeira, levando a interromper a produção na França em meados de março durante quatro semanas a fim de proteger os funcionários, e que as atividades começaram a ser retomadas gradualmente. “Com exceção do local de Perfumes Hermès em Le Vaudreuil, que começou a produzir gel hidroalcoólico”, acrescenta.

Sobre a marca de relógios Rolex, meios de comunicação informaram que o CEO, Jean-Frédéric Dufour, enviou uma carta aos funcionários indicando que para frear a propagação do novo coronavírus, decidiram “fechar as instalações de produção em Genebra, Bienne e Crissier de 17 a 27 de março de 2020”.

A equipe de comunicação desta marca explicou em um e-mail enviado à AFP que apenas as fábricas na Suíça estavam fechadas e que, diferentemente da previsão inicial, as atividades foram retomadas em 4 de maio, mais de um mês depois do fechamento.

5 - Segunda onda de demissões na Nike: Enganoso

Em 22 de julho deste ano, a marca esportiva Nike anunciou em seu site novas nomeações na diretoria executiva e uma transformação em seu modelo de negócios.

Além disso, o comunicado indica que se espera uma “perda líquida de empregos em toda a companhia, o que resultará em custos de demissões de funcionários de uma única vez, antes dos impostos, de aproximadamente 200 a 250 milhões [de dólares].

Neste comunicado oficial, no entanto, a Nike não especifica se essas demissões se relacionam com o novo coronavírus, mas indica que são parte de um plano chamado “Aceleração direta do consumidor”, que busca fortalecer a fase digital da marca esportiva.

Um porta-voz da Nike assegurou à AFP: “Estamos construindo uma empresa mais ágil e transformando a Nike mais rápido para definir o mercado do futuro. Enquanto não fornecemos números, espera-se que as mudanças levem a uma perda líquida de empregos, o que é sempre difícil”.

Meios de comunicação (1, 2) informaram, por sua vez, que o CEO da marca, John Donahoe, anunciou as demissões aos funcionários por e-mail, explicando também que não se relacionam com o novo coronavírus.

Diferentemente do que afirmam as publicações viralizadas, ao revisar os comunicados anteriores, contudo, não foram encontrados anúncios relacionados a demissões prévias.

Homem passa em frente a uma loja Nike em Nova York em 22 de junho de 2020

De acordo com a sua última atualização financeira, a renda do último quadrimestre da marca esportiva foi de 6,3 bilhões de dólares, “diminuindo em relação ao ano passado como a maioria das lojas associadas e propriedade da Nike [...] que fecharam devido à pandemia de COVID-19”. As vendas on-line, acrescentam, subiram 75%.

No último dia 4 de agosto, as ações da Nike na Bolsa de Nova York fecharam em 97,33 dólares, uma cifra maior do que a de um ano atrás (78,97 dólares). Em 23 março, contudo, foi registrado um fechamento em 62,80 dólares, seu valor mais baixo no ano.

6 - Para Airbnb, “12 anos de esforços foram destruídos em 6 semanas”: Verdadeiro

Em 22 de junho, o CEO e fundador do Airbnb, Brian Chesky, declarou em entrevista à emissora CNBC: “Passamos 12 anos construindo o negócio do Airbnb e perdemos quase tudo em coisa de quatro, ou seis semanas”, acrescentando que as formas de viajar mudaram para sempre.

“As pessoas dizem que querem sair de casa, mas querem estar seguras. Não querem subir em um avião, não querem viajar a negócios, não querem ir às cidades nem cruzar fronteiras. O que estão dispostas a fazer é entrar em um carro, conduzir algumas centenas de milhas até uma pequena comunidade onde estão dispostas a ficar em uma casa”, continuou.

No fim de julho, a empresa anunciou que ficará com 25% de seus funcionários devido à crise desatada pelo novo coronavírus.

7 - “Starbucks anunciou o fechamento permanente de 400 lojas”: Verdadeiro, mas…

No site da Starbucks dedicado aos seus investidores, a empresa publicou em junho um relatório no qual anuncia que fechará 400 lojas nos Estados Unidos nos próximos 18 meses.

No entanto, afirmou que esta medida não se deve exclusivamente à pandemia de COVID-19, mas sim a um plano de reestruturação que esteve em andamento durante dois anos, como explica no documento.

“Antes da pandemia de COVID-19, cerca de 80% das transações da Starbucks em lojas operadas nos Estados Unidos eram realizadas ‘em movimento’. Esta dinâmica levou a nossa equipe de liderança a reanalisar a nossa presença nas lojas dos Estados Unidos”, assinala a companhia, acrescentando que isto levou à criação de um novo formato de loja dirigida a clientes que preferem comprar de forma adiantada, os locais chamados “pick-up” (de retirada, em tradução livre).

“Este reposicionamento incluirá o fechamento de até 400 lojas operadas pela companhia durante os próximos 18 meses junto com a abertura, com o tempo, de um maior número de novas lojas e reposicionadas em diferentes localidades e com formatos inovadores”, acrescentam.

Em resumo, embora todas as marcas mencionadas na publicação viralizada nas redes sociais tenham sofrido perdas, ou feito algumas modificações em sua estrutura econômica pela pandemia de COVID-19, nem todas as afirmações desta mensagem são verdadeiras.

AFP Brasil
CORONAVÍRUS