Não há registro de que Bolsonaro tenha chamado seus apoiadores de “bostas” durante a reunião ministerial

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Após o Supremo Tribunal Federal divulgar vídeos da reunião ministerial de 22 de abril - citada pelo ex-ministro da Justiça Sergio Moro como prova de que o presidente Jair Bolsonaro tentou interferir politicamente na Polícia Federal -, usuários passaram a afirmar que o presidente chamou os seus apoiadores de “bostas” durante o encontro. A frase compartilhada milhares de vezes nas redes sociais não foi dita, contudo, durante as gravações da reunião divulgadas pelo STF.

“A melhor parte da reunião: ‘Se eu precisar de apoio eu peço a um desses BOSTAS aí para pegar uma bandeira e balançar aqui na frente do Palácio’, Bolsonaro”, diz uma das publicações, compartilhada mais de 1.600 vezes no Facebook desde o último dia 23 de maio, um dia após o STF divulgar as gravações da reunião realizada entre Bolsonaro e seus ministros em 22 de abril deste ano.

A mesma frase foi atribuída ao presidente em diversas outras postagens, compartilhadas mais de 6.500 vezes no Facebook (1, 2, 3, 4) e, em menor escala, no Twitter.

“Eleitores e seguidores são chamados de bosta pelo presidente na reunião ministerial”, escreveu um usuário ao compartilhar a suposta frase do presidente. “Bolsonaro em reunião ministerial elogiando os fãs”, afirmou outro. 

Captura de tela feita em 25 de maio de 2020 mostra frase publicada no Facebook

A reunião mencionada nas postagens veio a público quando foi citada pelo então ministro da Justiça e Segurança Pública Sergio Moro como evidência de que o presidente tentou interferir politicamente na Polícia Federal - razão pela qual Moro renunciou ao cargo em 24 de abril.

Segundo o agora ex-ministro, as gravações da reunião mostrariam que Bolsonaro o pressionou a trocar o comando da Polícia Federal (PF) para proteger a sua família. As acusações de Moro desencadearam um inquérito no Supremo Tribunal Federal, que decidiu, no último dia 22 de maio, tornar públicas as imagens do encontro.

Segundo o STF, foi divulgada a íntegra da reunião, com a exceção de trechos específicos “em que há referência a dois países com os quais o Brasil mantém relação diplomática”.

Uma análise da transcrição dos vídeos, publicada pela corte e disponível no PDF abaixo, não localiza, no entanto, a frase atribuída a Bolsonaro nas publicações viralizadas.

Para confirmar que nenhuma fala do presidente foi omitida da transcrição, a equipe de checagem da AFP assistiu a íntegra dos vídeos divulgados pelo STF  (1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10).

De fato, em nenhum momento em 1 hora e 52 minutos de gravação, Bolsonaro disse que “se precisar de apoio”, pedirá “a um desses bostas aí para pegar uma bandeira” e balançar em frente ao Palácio da Alvorada.

A frase tampouco foi dita por um dos ministros presentes no encontro, de acordo com as gravações publicadas pelo STF. A equipe de checagem da AFP também não identificou qualquer outra frase em que Bolsonaro se referisse a seus apoiadores como “bostas” nas imagens compartilhadas pela corte.

Durante a reunião, convocada para discutir uma coordenação ministerial de ações de combate ao novo coronavírus, o termo foi utilizado pelo presidente em outras ocasiões: para classificar o jornal Folha de São Paulo, para tachar prefeitos que deixam “todo mundo dentro de casa” e em referência ao governador de São Paulo, João Doria, e ao prefeito de Manaus, Arthur Virgílio Neto. O governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, também foi chamado pelo presidente de “estrume”.

Uma busca no Google pela frase viralizada não localiza, ainda, qualquer reportagem  sobre a afirmação, apesar do conteúdo dos vídeos da reunião ter sido extensivamente coberto pela mídia. Pelo contrário, alguns sites que haviam publicado a alegação apagaram o conteúdo e publicaram erratas, como o portal Jornalistas Livres.

Uma segunda busca no Google pela suposta declaração de Bolsonaro, desta vez filtrando os resultados para mostrar apenas os artigos publicados antes da divulgação dos vídeos, em 22 de maio, não encontra qualquer registro de que o presidente já tenha dito esta frase em outra ocasião.

Em resumo, não há registros de que o presidente Jair Bolsonaro tenha chamado seus apoiadores de “bostas” durante a reunião ministerial de 22 de abril, como demonstraram análises da transcrição dos vídeos e de 1 hora e 52 minutos de gravação do encontro publicada pelo STF.

AFP Brasil
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