Um funcionário do Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas (TRE/AM) testa uma urna eletrônica em Manaus, estado do Amazonas, Brasil, em 8 de julho de 2026. (AFP / MICHAEL DANTAS)

TSE não mentiu sobre atuação da Smartmatic no Brasil; empresa agiu no treinamento e suporte às eleições

A empresa Smartmatic voltou a ser alvo de desinformação após o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) afirmar em reunião com diplomatas estrangeiros, em 21 de julho de 2026, que as urnas usadas no Brasil foram fabricadas por ela. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) negou a alegação, mas publicações com mais de 40 mil interações afirmam que o órgão teria mentido, uma vez que o Brasil aparece listado como um dos locais de atuação da Smartmatic em seu site. Mas a empresa atuou com serviços de treinamentos e suporte para as eleições, e não com o desenvolvimento da urna, como havia afirmado o candidato. 

“TSE disse que nunca comprou urnas da SMARTMATIC mas no site oficial da empresa, o Brasil aparece como local de atuação", dizem publicações compartilhadas no Facebook, no Instagram, no X e no Threads junto à imagem de um mapa com pontos de operação da companhia, que incluem o Brasil. 

“Quem está mentindo? TSE ou Smartmatic?”, questionam algumas das postagens. 

Image
Captura de tela feita em 23 de julho de 2026 de uma publicação no X (.)

A alegação também foi endossada pela comentarista Ana Paula Henkel no programa Oeste Sem Filtro de 22 de julho (a partir de 59 minutos), que acumulou mais de 220 mil visualizações. Após exibir uma imagem do mesmo mapa, Henkel questionou por que o país apareceria no site da Smartmatic se as urnas não fossem utilizadas no país, sugerindo uma contradição do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). 

A alegação passou a circular após o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro afirmar em uma reunião com diplomatas estrangeiros que as urnas eletrônicas brasileiras teriam a mesma origem das utilizadas na Venezuela, que eram fabricadas pela Smartmatic — empresa que foi notícia recentemente por aparecer em documentos da inteligência norte-americana sobre possíveis fraudes eleitorais. 

A alegação de que a empresa forneceria urnas ao Brasil foi negada pelo TSE. 

No entanto, não é verdade que a citação ao Brasil no site da Smartmatic indique  que a corte mentiu. 

Atuação em treinamentos e suporte 

O mapa compartilhado nas peças de desinformação foi retirado da página inicial do site da Smartmatic em português, onde o Brasil aparece listado como um dos países onde a empresa já atuou. 

No entanto, ao passar o mouse sobre o ícone do Brasil, é exibida uma mensagem com maiores detalhes sobre o escopo da atuação da Smartmatic nas eleições brasileiras. “Viabilização da comunicação de dados para garantir a transmissão de resultados a partir de locais remotos. Configuração de 500.00 dispositivos”.

Ao final da mensagem, o usuário pode clicar em “leia mais” para acessar uma página que explica a atuação da empresa no país. 

Segundo o descrito, a Smartmatic atuou em dois tipos de serviços: comunicação de dados e voz para locais de votação isolados e serviços de suporte eleitoral. Os serviços foram prestados em 2012, 2014 e 2016.

Não é informado nesta página ou no folheto com detalhes sobre a atuação da empresa no Brasil que ela tenha fornecido urnas eletrônicas para o TSE. 

Escopo da atuação da Smartmatic

No primeiro ano em que foi contratada pelo TSE, a Smartmatic treinou mais de 14 mil profissionais de apoio técnico e operacional para as eleições de 2012.

Dentre os serviços previstos em contrato, estavam os testes das urnas eletrônicas, a limpeza e remoção de selos, os testes funcionais, a triagem para manutenção corretiva, preparação para o armazenamento, instalação de software, além de outras tarefas de apoio operacional. 

Vale ressaltar que, embora a Smartmatic relate ter sido responsável pela instalação de software, o desenvolvimento tanto do software (sistemas) quanto do hardware (componentes) da urna foi feito pelo TSE e por especialistas de outras instituições brasileiras

Já em 2014 e 2016, a empresa trabalhou na implantação de 1.464 terminais de satélite de rede de área global de banda larga (BGAN) no país, que foram utilizados para apoiar as comunicações de voz e dados em áreas remotas. Além disso, atuou na manutenção dos equipamentos, treinamentos dos operadores e no suporte técnico para a implantação.  

Em 2020, a empresa participou de uma licitação para a fabricação de urnas eletrônicas para as eleições gerais de 2022, mas foi a empresa brasileira Positivo quem venceu o certame.

No site do TSE, uma pesquisa pelo nome da empresa levou a notícias que confirmam a atuação da Smartmatic em treinamentos e atividades de suporte à Justiça Eleitoral (1, 2). 

Em nota publicada em 2020 e atualizada em julho de 2026, o TSE reafirmou que a empresa não trabalhou na programação das urnas eletrônicas e tampouco as forneceu para a Justiça Eleitoral. 

“A Smartmatic celebrou contratos com o TSE em outras ocasiões somente para a prestação de serviços de conexão de dados e voz, e não para o desenvolvimento ou operação da urna eletrônica”, diz o comunicado.

O Checamos desmentiu em outras ocasiões a afirmação feita pelo candidato Flávio Bolsonaro sobre a origem das urnas brasileiras (1, 2). 

Referências 

Há alguma informação que você gostaria que o serviço de checagem da AFP no Brasil verificasse?

Entre em contato conosco