Importação de chips de Taiwan para urnas eletrônicas não compromete a segurança das eleições
- Publicado em 27 de julho de 2026 às 18:52
- 3 minutos de leitura
- Por Michelly NERIS
Com a aproximação das eleições de 2026, usuários passaram a alegar que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) teria mandado fabricar 250 mil chips em Taiwan para fraudar o pleito. A alegação foi visualizada mais de 100 mil vezes desde junho, mas é falsa. A corte realmente importou componentes de Taiwan e dos Estados Unidos para fabricar as urnas que seriam usadas em 2022, mas essa importação não representa risco, já que Taiwan é a principal fornecedora global de semicondutores. Além disso, chips adulterados, sozinhos, não seriam capazes de manipular o resultado, explicou à AFP um especialista.
“MINISTROS GOLPEARAM AS URNAS! Barroso e Moraes mandaram fabricar 250 mil chips EM TAIWAN para FRAUDAR AS ELEIÇÕES!”, lê-se em uma imagem compartilhada no Facebook, no Kwai, no X, no TikTok, no Telegram e no Instagram.
A alegação circula desde 2025 e se originou de uma reportagem publicada pelo UOL em 2023 sobre o trabalho da diplomacia brasileira para negociar a compra de chips necessários para renovar 225 mil urnas eletrônicas que seriam usadas nas eleições de 2022. A renovação das urnas é uma medida comum, uma vez que a vida útil dos equipamentos é de aproximadamente 10 anos.
Segundo a reportagem, a Positivo Tecnologia, empresa responsável pela substituição das urnas antigas, informou ao TSE em maio de 2021 que não havia conseguido comprar os chips que seriam usados nas novas máquinas.
Os chips eram fornecidos pelas empresas Texas Instruments, dos Estados Unidos, e Nuvoton, de Taiwan. Mas ambas não estavam conseguindo suprir a demanda devido à crise dos semicondutores, impulsionada pela pandemia da covid-19, pela alta demanda e pela crise ambiental em Taiwan, principal fornecedor global dos componentes.
As negociações com as duas empresas avançaram, e os primeiros chips chegaram ao Brasil em dezembro daquele ano. Com isso, a produção das novas urnas eletrônicas pôde ser iniciada em maio de 2022.
Porém, a aquisição de parte dos componentes de Taiwan não comprova fraude.
Qual a função dos chips?
Avelino Zorzo, professor da Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e coordenador do grupo de confiabilidade e segurança da instituição, explica que os componentes eletrônicos da urna são "genéricos", e são responsáveis por executar as instruções do sistema operacional, como controlar o funcionamento da tela, do teclado e do leitor biométrico, além de armazenar dados e dar suporte aos mecanismos de verificação de integridade e criptografia.
Zorzo ressalta que o TSE realiza todo o processo de segurança e de inserção de dados no Brasil, sem depender de uma “confiança cega” no fabricante.
“O hardware chega ao Brasil como um componente virgem/passivo. Todo o software que roda na urna brasileira é desenvolvido, auditado e assinado digitalmente pelo TSE em cerimônia pública. Na inicialização, a urna verifica se o software possui a assinatura digital legítima do TSE. Se um chip tentar executar qualquer código não assinado ou adulterado, o equipamento simplesmente recusa a inicialização e não funciona”.
Chip não altera votos
Para manipular os resultados eleitorais, Zorzo aponta que seria necessário gerar votos falsos assinados pelas chaves criptográficas da Justiça Eleitoral e alterar os registros. Entretanto, mecanismos de segurança, como assinatura digital, o boletim de urna e a rede isolada, impedem que isso aconteça.
“Se um chip comercial fosse fisicamente adulterado na fábrica, o máximo que ele conseguiria fazer seria causar um mau funcionamento físico (...). Mas se a urna falhar no autoteste ou travar, ela é identificada imediatamente e substituída por uma urna nova”, explicou o professor.
“Não é possível adivinhar ou recriar as chaves criptográficas do TSE para injetar votos falsos válidos no sistema, sem que seja possível identificá-los por meio dos diferentes mecanismos de segurança existentes na votação eletrônica brasileira”
Além disso, o professor salienta que os chips fabricados em Taiwan não representam qualquer risco, já que essa indústria é altamente concentrada no território. Dessa forma, diversos países que adotam o sistema de votação eletrônica também utilizam componentes importados da região.
“Como Taiwan concentra mais de 60% da produção mundial de semicondutores e mais de 90% dos chips de alta tecnologia, qualquer país que utilize tecnologia em suas eleições utiliza inevitavelmente chips fabricados em Taiwan em seus equipamentos ou em seus servidores de totalização”.
Procurado pelo Checamos, o TSE informou que a urna é composta por semicondutores do mercado usados em diversos tipos de aparelhos e reiterou que os dados criptográficos só são inseridos no Brasil.
“Um dos chips de áudio empregados é largamente utilizado em laptops e computadores de pequeno porte e fabricado pela empresa taiwanesa Realtek. As informações de criptografia e outros conteúdos residentes nos semicondutores são inseridos apenas no Brasil, com a presença de servidores do TSE, conforme definido em edital de contratação da empresa fabricante das urnas”.
O tribunal também reforçou que a listagem desses componentes e o esquema elétrico da urna são disponibilizados às entidades fiscalizadoras que participam do Teste Público da Urna, um evento realizado no ano anterior às eleições.
Este conteúdo também foi checado pelo Estadão Verifica e pela Agência Lupa.
O Checamos já verificou outros conteúdos sobre a urna eletrônica.
Referências
Copyright © AFP 2017-2026. Qualquer uso comercial deste conteúdo requer uma assinatura. Clique aqui para saber mais.
