Urnas brasileiras não têm a “mesma origem” que as venezuelanas; sistema foi desenvolvido pela Justiça Eleitoral
- Publicado em 23 de julho de 2026 às 00:31
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- Por Joao Pedro CAPOBIANCO, AFP Brasil
Em 21 de julho de 2026, o pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) criticou as urnas eletrônicas em reunião com diplomatas estrangeiros. Segundo o senador, as urnas usadas no Brasil teriam a mesma origem das utilizadas na Venezuela e teriam sido fabricadas pela empresa Smartmatic, alvo de denúncias de fraude pelo governo norte-americano. Mas a alegação é falsa. As urnas brasileiras foram desenvolvidas pela Justiça Eleitoral do Brasil. Além disso, relatórios da inteligência dos EUA não comprovaram a participação da Smartmatic em fraudes eleitorais.
“Uma empresa chamada Smartmatic, de origem venezuelana, uma das suspeitas é que tenha havido uma programação para alteração das votações naquele país nas eleições. (...) Não vou entrar em mais detalhes, mas só para deixar registrado que muitas dessas máquinas que são utilizadas nas eleições brasileiras têm a mesma origem dessa empresa venezuelana”, afirmou Flávio Bolsonaro em reunião com diplomatas.
Alegações semelhantes já haviam viralizado no Facebook e no X depois que o presidente dos Estados Unidos Donald Trump divulgou documentos para reforçar a tese de que as eleições americanas de 2020 foram fraudadas.
A declaração de Flávio lembrou o episódio que levou seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, à inelegibilidade ao criticar o sistema eleitoral brasileiro perante autoridades estrangeiras enquanto ocupava o Palácio do Planalto. Algumas de suas alegações foram desmentidas, à época, pelo AFP Checamos.
De acordo com Flávio, as urnas eletrônicas brasileiras teriam a mesma origem das utilizadas em eleições venezuelanas, fabricadas pela empresa Smartmatic, sobre a qual recaem suspeitas de fraude apontadas pela CIA, a agência de inteligência dos Estados Unidos.
A alegação de que a Smartmatic teria fabricado urnas brasileiras ou seus componentes é antiga e já foi desmentida pelo próprio Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 2020.
O nome da empresa também circulou em publicações enganosas nas redes sociais em 2025, conforme o AFP Checamos mostrou.
Smartmatic não desenvolveu urnas brasileiras
As urnas eletrônicas brasileiras foram desenvolvidas por especialistas em informática, eletrônica e comunicações de instituições brasileiras.
Além da Justiça Eleitoral, participaram do projeto técnico das urnas as Forças Armadas do Brasil, o Ministério da Ciência e Tecnologia, o Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e o Ministério das Comunicações.
Tanto o hardware (aparelho) quanto o software (sistema) foram desenvolvidos pelo Brasil e são de propriedade do TSE. Não é possível dizer, portanto, que as urnas brasileiras “têm a mesma origem” que as urnas venezuelanas.
Além disso, ao contrário do que Flávio Bolsonaro afirmou a diplomatas estrangeiros em 21 de julho, a Smartmatic não é uma empresa venezuelana. A companhia foi criada por venezuelanos, mas foi fundada na Flórida, nos Estados Unidos. Hoje, a empresa tem sede em Londres, no Reino Unido.
Smartmatic e o Brasil
Embora não tenha participado do desenvolvimento das urnas eletrônicas brasileiras, a Smartmatic já celebrou contratos para participação em processos eleitorais no país.
Em 2012, a empresa foi contratada pelo TSE para prestar serviços de manutenção preventiva, suporte e teste de urnas. A parceria envolveu o treinamento de 14 mil profissionais para apoio técnico e operacional durante as eleições daquele ano.
Em 2014, além de fornecer manutenção e treinamento de pessoal, a Smartmatic implantou cerca de 1,4 mil terminais de satélite para apoiar a comunicação de voz e de dados em áreas remotas no Brasil, de forma a agilizar o resultado das eleições. A parceria se repetiu em 2016.
A empresa também participou de uma licitação para a fabricação de urnas eletrônicas para o Brasil em 2020, mas perdeu para a empresa brasileira Positivo. A concorrência visava à fabricação das urnas a serem utilizadas no pleito de 2022.
A Justiça Eleitoral disponibiliza as informações técnicas de todas as urnas já utilizadas em processos eleitorais no Brasil. Desde 1996, quando as urnas eletrônicas foram implementadas, as fabricantes foram as empresas Unisys Brasil, Procomp Indústria Eletrônica, Diebold e Positivo.
CIA apontou vulnerabilidade, mas não provou fraudes
Em 16 de julho de 2026, o governo norte-americano divulgou documentos para tentar comprovar que houve fraude nas eleições norte-americanas de 2020 — tese defendida pelo presidente Donald Trump desde que perdeu o pleito para Joe Biden.
Entre os arquivos tornados públicos está um relatório da CIA sobre supostas capacidades de o governo venezuelano manipular eleições. O documento cita a Smartmatic, que atuou na Venezuela entre 2004 e 2017, mas não comprova que a empresa participou de fraudes.
Depois de analisar eleições na Venezuela entre 2004 e 2020, a agência de inteligência americana concluiu que os sistemas eletrônicos de votação no país continham vulnerabilidades “que poderiam teoricamente ser exploradas por agentes sofisticados com acesso privilegiado”.
O documento afirma, porém, que a inteligência dos EUA “não confirmou definitivamente que uma fraude eletrônica em larga escala foi executada com sucesso” em eleições venezuelanas
O relatório também afirma que “nem a Smartmatic nem o governo venezuelano tinham a capacidade — isto é, o nível de controle e acesso requeridos — para manipular o resultado de uma eleição fora da Venezuela de maneira previsível”.
Em 2017, a Smartmatic denunciou uma suposta manipulação de resultados em uma votação para a eleição da Assembleia Constituinte na Venezuela. À época, o CEO da companhia, Antonio Mugica, afirmou que os sistemas da empresa foram criados para revelar qualquer manipulação de resultados mas que, mesmo assim, autoridades poderiam anunciar números errôneos aos invés dos dados corretos.
Diante da repercussão da fala a diplomatas estrangeiros, o pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro divulgou à imprensa uma nota com a afirmação de que não questionou a integridade do sistema de votações no Brasil, apenas fez menção ao relatório recentemente divulgado pela CIA. A equipe da pré-campanha de Flávio reafirmou “integral confiança no sistema eleitoral brasileiro”.
Referências
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