A foto viral de uma patente não prova que a pandemia de hantavírus foi planejada

O registro do surto de hantavírus, que afetou o navio holandês MV Hondius em maio de 2026, virou alvo de teorias conspiratórias semelhantes às da covid-19. Um exemplo são dezenas de postagens compartilhadas nas redes sociais, sugerindo que a crise foi planejada para vender vacinas. As publicações incluem a imagem de um pedido de patente de 2025 para uma vacina contra o vírus. Mas um pesquisador envolvido no projeto informou à AFP que, até o momento, a vacina não está disponível para uso humano e que seu desenvolvimento já ocorre há anos. 

“A patente da vacina contra hantavirus é de 2025??? e vcs acreditam..... Tudo programado”, diz uma legenda no Facebook. Conteúdo semelhante também circula no Instagram, no X e em outros idiomas, como espanhol, francês e finlandês

As alegações são compartilhadas junto a um documento em inglês que mostraria um “pedido de patente de 2025”, registrado nos Estados Unidos, da vacina contra o hantavírus. As postagens sugerem que o surto de hantavírus, registrado em maio de 2026, seria “programado”.

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Captura de tela feita em 28 de maio de 2026 de uma publicação no Facebook (.)

Em maio de 2026, um surto de hantavírus foi reportado em um cruzeiro que viajava da Argentina em direção a Cabo Verde. 

Até o momento da publicação desta verificação, há 13 casos suspeitos e confirmados de hantavírus relacionados ao cruzeiro, entre eles três passageiros que morreram.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) acompanhou o caso e descartou um “surto de maior magnitude” da doença. Autoridades sanitárias enfatizaram que o risco para a saúde pública mundial “é baixo” e afirmaram que o surto de hantavírus não é comparável à pandemia de covid-19.

O hantavírus é um vírus que pode ser transmitido naturalmente de animais para humanos. A cepa Andes, detectada no cruzeiro MV Hondius, é a única variante conhecida com transmissão entre pessoas.

O Ministério da Saúde informou que o surto de hantavírus, registrado no navio, não representa risco para o Brasil.

Vacina ainda não está pronta para uso em humanos

A imagem viralizada mostra o número “US 2025/0125780 A1”, como sendo o registro da patente da vacina contra o hantavírus. Mas uma busca por essa referência no banco de dados do Escritório de Patentes e Marcas dos Estados Unidos (USPTO, na sigla em inglês) não exibiu nenhum resultado para 2025.

No entanto, uma pesquisa pelo nome de Alexander Bukreyev, que aparece na seção de “inventores”, mostrou diversos documentos, incluindo um pedido de patente para “vacinas de mRNA contra hantavírus” de 24 de abril de 2025 – mesma data que aparece nas publicações das redes sociais.

De fato, o documento mostra uma patente para uma vacina contra o hantavírus, mas isso não significa que o produto esteja pronto para uso.

Bukreyev, professor e diretor associado do Centro de Biodefesa e Doenças Infecciosas Emergentes da Universidade do Texas, disse à AFP em 11 de maio de 2026 que seu laboratório desenvolveu uma vacina contra a cepa Andes “há vários anos”, fato também detalhado em um artigo de 2024, publicado na revista científica Nature Communications.

Os pesquisadores patentearam a vacina assim que foi demonstrada a sua eficácia protetora em animais, uma etapa “típica no processo de solicitação de um patente”, mas ela ainda não foi testada em humanos devido aos altos custos, de acordo com Bukreyev.

“Infelizmente, a vacina ainda não está pronta para uso em humanos e levará tempo para conseguirmos financiamento”, lamentou o especialista.

Algumas publicações mencionam uma vacina da Moderna que supostamente está “pronta”. É verdade que essa empresa farmacêutica está colaborando com uma universidade na Coreia para desenvolver um imunizante contra o vírus. À AFP, a Moderna declarou que a iniciativa faz parte dos esforços da empresa “para desenvolver medidas contra doenças infecciosas emergentes”. Esse imunizante, contudo, ainda não está pronto

Referências

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