Não, o hantavírus não é listado como um efeito colateral da vacina contra covid-19 da Pfizer
- Publicado em 14 de maio de 2026 às 18:02
- 5 minutos de leitura
- Por Judith KANTNER, AFP Alemanha
- Tradução e adaptação AFP Brasil
Desde que um surto de hantavírus começou no navio holandês Hondius, em abril de 2026, especulações sobre a causa da doença têm sido frequentes nas redes sociais. No início de maio, publicações nas redes sociais com mais de 140 mil visualizações alegam que a doença está listada em um documento da farmacêutica Pfizer como um dos efeitos colaterais de sua vacina contra a covid–19. Um banco de dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) também é citado como suposta prova dessa correlação. Mas nenhuma dessas menções ao hantavírus indica relação causal entre a doença e a vacina.
“Hantavírus está listado no documento de 38 páginas da Pfizer. Página 33. É um dos 1.233 efeitos colaterais listados”, diz uma publicação no Facebook. Alegações parecidas circulam no Instagram, no X e no Kwai. Algumas das postagens compartilham um link para o documento citado.
A AFP noticiou que o surto de hantavírus no navio de cruzeiro reacendeu narrativas e teorias da conspiração já conhecidas sobre vacinas, supostas campanhas de redução populacional e supostas curas milagrosas.
A vacina de mRNA desenvolvida em conjunto pela BioNTech e pela Pfizer, comercializada sob o nome Cominarty, foi aprovada pela primeira vez em dezembro de 2020, no início da pandemia global de covid-19.
Desde então, mais de 13 bilhões de doses de diversas vacinas contra a doença, incluindo a Cominarty, foram administradas em todo o mundo. A AFP já noticiou a segurança desta vacina em diversas ocasiões.
Hantavírus não é um efeito colateral da vacina contra a covid-19
Em resposta a uma consulta da AFP, um porta-voz da Pfizer confirmou, em 8 de maio de 2026, que o documento mencionado nas publicações foi, de fato, produzido pela empresa. O registro contém uma análise resumida de todos os eventos adversos à saúde reportados após a administração da vacina.
Isso não significa que o imunizante cause hantavírus como efeito colateral.
A passagem mencionada nas postagens enganosas mostra uma “Lista de Eventos Adversos de Interesse Especial” que aparece no documento. O trecho não é uma lista de efeitos colaterais confirmados que podem ocorrer como reação à vacinação contra a covid-19, e sim uma lista de fenômenos de saúde que ocorreram dentro de um período específico após a administração da vacina. Portanto, os “eventos adversos” listados não são necessariamente causados pelo imunizante.
A página 6 do documento afirma: “O acúmulo de relatos de eventos adversos (REAs) não significa necessariamente que um determinado evento adverso foi causado pelo medicamento; em vez disso, o evento pode ser devido a uma condição médica subjacente ou outros fatores”
A informação foi confirmada pelo porta-voz da Pfizer: “Esses eventos são registrados para fins de completude e transparência e não implicam uma relação causal com a vacinação (...) A infecção por hantavírus não está listada como um evento adverso no Resumo das Características do Produto da vacina contra covid-19 da BioNTech-Pfizer”.
A lista oficial de efeitos colaterais da vacina contra a covid-19 da BioNTech/Pfizer de fato não menciona o hantavírus.
O virologista e diretor executivo do Instituto de Virologia da Universidade de Marburg, Stephan Becker, confirmou à AFP em 8 de maio de 2026 que a alegação que circula nas redes sociais é enganosa. “Do ponto de vista virológico, eu posso afirmar que uma infecção por hantavírus não pode ser causada por uma vacina contra a covid-19”, disse.
O documento que é alvo das postagens enganosas foi submetido à FDA, agência reguladora de alimentos e medicamentos dos Estados Unidos, como parte das atribuições das empresas farmacêuticas no país, que devem monitorar seus produtos médicos e, mesmo após a aprovação da comercialização, compartilhar informações sobre possíveis riscos.
Em 2022, a AFP desmentiu postagens nas redes sociais que usavam o mesmo documento para disseminar alegações falsas sobre efeitos colaterais da vacina.
O relato de eventos ocorridos após a vacinação é algo comum. No Brasil, por exemplo, qualquer pessoa — da área de saúde ou não — pode comunicar eventos adversos a medicamentos e vacinas por meio do VigiMed. A plataforma pede o fornecimento de informações como fabricante do produto e número do lote, e, para fazer o comunicado, não é preciso ter certeza de que o medicamento é a causa da reação.
Segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), “a ideia é manter o monitoramento de modo a garantir que os benefícios do uso de medicamentos e vacinas sejam maiores do que os riscos por eles causados”.
Base de dados da OMS não lista apenas os efeitos colaterais confirmados
Em outra publicação em português, no Facebook, uma captura de tela do banco de dados VigiAccess da Organização Mundial da Saúde (OMS) foi compartilhada como suposta prova da correlação entre hantavírus e a Cominarty.
A publicação instrui usuários a navegar no banco de dados e a encontrar registros para hantavírus. Embora ele esteja, de fato, listado entre os “possíveis efeitos colaterais relatados”, estes não são efeitos colaterais confirmados. A lista também inclui inúmeros eventos de saúde que foram relatados após a administração da vacina, mas que não necessariamente são efeitos colaterais confirmados. Constam, inclusive, circunstâncias sociais, como compartilhar a cama ou uma dieta inadequada.
Em resposta a uma consulta da AFP, o presidente do Instituto Paul Ehrlich, órgão regulador de vacinas na Alemanha, Stefan Vieths, confirmou em 11 de maio de 2026 que o significado da listagem no banco de dados da OMS foi mal interpretado: “Como esses relatos dizem respeito a casos suspeitos, uma relação causal entre as reações e a vacinação ou administração de medicamentos não pode ser inferida desse banco de dados em si”.
Vieths também afirmou que infecções pelo hantavírus “não são um efeito colateral conhecido da vacinação com a vacina de mRNA da Pfizer/BioNTech”.
Surto de hantavírus em navio de cruzeiro
Conforme relatado por veículos de imprensa no Brasil e no mundo, vários passageiros do navio holandês Hondius contraíram o hantavírus durante uma viagem em abril de 2026. Ao menos três passageiros morreram em decorrência da infecção.
Os hantavírus encontrados no navio são da cepa Andes, comum na América do Sul. Embora sejam encontrados no mundo todo, as diferentes espécies de hantavírus provocam sintomas diferentes. Os do tipo Andes tendem a causar doenças mais graves, representando um risco maior para a vida dos infectados. Dependendo da espécie contraída, vários sintomas podem ocorrer. Entre os mais comuns estão febre alta, dores de cabeça e dores musculares.
Os hantavírus são transmitidos principalmente pelas fezes de roedores, mas também podem ser disseminados por contato próximo entre humanos. O período de incubação — tempo entre a infecção e o aparecimento dos primeiros sintomas — pode ir de duas a quatro semanas, mas, em casos excepcionais, pode durar até 60 dias.
Referências
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