É falso que a ivermectina seja eficaz para tratar ou prevenir hantavírus
- Publicado em 13 de maio de 2026 às 20:38
- 5 minutos de leitura
- Por Marisha GOLDHAMER, AFP Estados Unidos
- Tradução e adaptação Laura ABREU, AFP Brasil
O medicamento antiparasitário ivermectina permanece no centro de uma campanha persistente de desinformação por parte de médicos e internautas que contrariam o consenso científico ao alegarem que ele seria eficaz para o tratamento da covid-19 e de outras doenças. Com a crescente preocupação em relação ao surto de hantavírus em um cruzeiro, posts com mais de 10 mil interações promovem a ivermectina como cura e prevenção da doença. Mas especialistas explicaram à AFP que o remédio não possui evidência comprovada para a infecção, que tampouco possui qualquer tratamento antiviral aprovado.
“O hantavírus é um vírus de RNA e a ivermectina deve funcionar contra ele. A ivermectina impede que os vírus de RNA entrem no núcleo, inibe a replicação viral, interrompe a integridade da membrana viral e pode prevenir a replicação viral”, dizem publicações compartilhadas no Facebook, no X e no Telegram.
As publicações citam como fonte da informação uma postagem traduzida do inglês feita no X por Mary Talley Bowden, médica otorrinolaringologista norte-americana suspensa em 2021 pelo Houston Methodist Hospital por disseminar informações falsas sobre a covid-19 e que já teve outros conteúdos verificados pela AFP.
Outra publicação que circula no Instagram, no Facebook, no X e no Telegram sugere o uso do medicamento como uma “potente atividade antiviral” que bloqueia a importina, que supostamente seria o “caminho exato que a proteína nucleocapsídeo do hantavírus sequestra para desligar seu sistema imunológico”.
O recente surto de hantavírus no navio de cruzeiro Hondius, que partiu de Ushuaia, na Argentina, em 1º de abril, deixou três mortos do navio e sete pessoas positivas para a infecção. Outros dois casos são tratados como suspeitos.
No dia 11 de maio, o navio atracou na ilha de Tenerife, na Espanha, e evacuou mais de 100 passageiros em uma operação complexa de repatriação.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) acompanhou a operação e descartou um “surto de maior magnitude” da doença, além de ressaltar que o “risco é baixo, tanto para a população de Tenerife quanto em escala mundial”.
Com a repercussão, o Ministério da Saúde do Brasil lançou uma nota em que destaca que o surto de hantavírus no cruzeiro não representa um risco para o país.
O hantavírus é uma doença rara que geralmente se espalha por meio de roedores infectados, através de sua urina, saliva ou fezes. A infecção pelo vírus causa a síndrome cardiopulmonar por hantavírus (SCPH), que desencadeia insuficiência respiratória e cardíaca, assim como febres hemorrágicas, e tem alta taxa de letalidade.
A única espécie do hantavírus que pode ser transmitida de pessoa para pessoa é o Andes, variante confirmada nos passageiros do navio que testaram positivo.
Não há vacina ou tratamento antiviral para a doença, diferentemente do que alegam as publicações.
Ivermectina não é eficaz
A ivermectina é um medicamento antiparasitário listado como essencial pela OMS e conhecido por atuar contra parasitas externos, como sarna e piolho.
A medicação é aprovada pela Food and Drug Administration (FDA) dos Estados Unidos e pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) como antiparasitário.
Apesar de não haver comprovação científica, a ivermectina é frequentemente associada ao tratamento de diferentes doenças em humanos, como covid-19 e dengue — alegações já verificadas pelo Checamos.
Nesse mesmo sentido, não há indicação de uso do remédio para o hantavírus no site da OMS e tampouco em bulas da medicação disponíveis no site da Anvisa.
Michelle Harkins, chefe da divisão de terapia intensiva pulmonar e medicina do sono da Faculdade de Medicina da Universidade do Novo México, disse à AFP em 8 de maio que "não há nenhuma evidência de que isso funcione contra o hantavírus", quando questionada sobre o uso da medicação.
"Não existem tratamentos eficazes contra a síndrome cardiopulmonar causada pelo hantavírus atualmente", acrescentou.
O mesmo entendimento foi reforçado à AFP por John Lednicky, professor pesquisador na Faculdade de Saúde Pública e Profissões da Saúde da Universidade da Flórida.
“Há uma extrema desinformação sobre a ivermectina (...) Muitos compostos/substâncias químicas/medicamentos são eficazes contra vírus cultivados em células em frascos ou placas de Petri. Isso não significa que os mesmos medicamentos possam ser usados para tratar infecções virais em humanos", explicou Lednicky em um e-mail enviado à AFP em 8 de maio.
Vírus RNA no núcleo e transporte por importina
As publicações utilizam o argumento erroneamente difundido pela Dra. Mary Talley Bowden de que a ivermectina atuaria impedindo que “os vírus de RNA entrem no núcleo” das células, inibindo a replicação viral.
Mas, como explicaram especialistas à AFP, o hantavírus não se replica no núcleo, mas no citoplasma das células. “Então, a ivermectina não teria absolutamente nenhum efeito na replicação do vírus”, apontou a especialista Michelle Harkins.
Por esse mesmo motivo, não há sentido na afirmação de alguns posts de que a ivermectina seria eficaz contra o vírus por “bloquear a importina”.
“Ela [a ivermectina] foi estudada em alguns laboratórios contra vírus de RNA por possível interferência numa via que a gente chama de importina alfa beta, que é o mecanismo que envolve transporte de certas proteínas virais para dentro do núcleo”, explicou Alexandre Naime Barbosa, chefe do departamento de infectologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp). “Isso não significa que todos os vírus RNA dependem desse mecanismo e nem que um efeito visto em in vitro, um estudo de laboratório seja eficaz em tratamento para seres humanos”.
Barbosa destacou que diversas revisões sistemáticas sobre a ivermectina como antiviral mostram que achados em estudos pré-clínicos de laboratório não atingem as condições necessárias em seres humanos. “Não atinge, por exemplo, a mesma concentração no sangue do que no laboratório. Então, a atividade de antiviral em tubo de ensaio não significa eficácia clínica e por isso essa afirmação é completamente improcedente”, reforçou Barbosa.
Protocolo com outros remédios não é indicado
Por fim, as publicações também erram ao compartilhar um protocolo com outros medicamentos, como hidroxicloroquina, zinco e vitamina D e C, para tratar e prevenir a infecção.
Para Barbosa, esse “protocolo antiviral” é uma “grande falácia e extrapolação sem comprovação clínica”.
O infectologista ressaltou que os estudos pré-clínicos da ivermectina e da hidroxicloroquina não podem ser usados para receitá-las e que a suplementação de zinco, vitamina D e C “têm papéis fisiológicos muito importantes no organismo e também no sistema imune”, mas não há evidência que previna infecções ou impeça a evolução da infecção para uma síndrome cardiopulmonar, no caso do hantavírus.
O consenso de que não há tratamentos antivirais para o hantavírus é unânime entre os especialistas ouvidos pela AFP, assim como o divulgado pela OMS, pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos e pelo Ministério da Saúde do Brasil.
O tratamento para pessoas infectadas consiste em medidas de suporte, como repouso e hidratação.
Lednicky e Harkins ressaltam que casos graves da doença podem exigir oxigenação por membrana extracorpórea, tratamento em que o sangue é bombeado para fora do corpo até uma máquina coração-pulmão.
A AFP mostrou como o medo por um surto mundial de hantavírus reacendeu teorias da conspiração amplamente divulgadas durante a pandemia da covid-19.
O Checamos já verificou outros conteúdos sobre saúde.
Referências
- Página da OMS sobre a ivermectina
- Páginas do Ministério da Saúde sobre o hantavírus (1, 2)
- Páginas do CDC sobre o hantavírus (1, 2)
- Página da OMS sobre o hantavírus
- Página da Anvisa sobre a ivermectina
- Página da FDA sobre a ivermectina
- Perfil da especialista Michelle Harkins
- Perfil do especialista John Lednicky
- Perfil do especialista Alexandre Naime Barbosa
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