Uma médica prepara uma dose de vacina contra o coronavírus em Ramat Gan, perto da cidade costeira de Tel Aviv, em Israel, em 31 de dezembro de 2021 ( AFP / Jack Guez)

Israel não imunizou toda a população com 4 doses até janeiro de 2022 e as vacinas são eficazes

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Publicações com mais de 96 mil interações nas redes sociais desde 20 de janeiro de 2022 afirmam que as vacinas contra a covid-19 não funcionam porque Israel, o “único país totalmente vacinado com 4 doses”, bateu o “recorde de maior número de casos diários” de coronavírus. As mensagens mostram um gráfico em que o país supera a União Europeia, Estados Unidos e Austrália em novas infecções. Mas as alegações são enganosas: especialistas explicaram à AFP que os imunizantes anticovid não impedem contágios, mas previnem mortes e casos graves. Além disso, o país aplicou a quarta dose somente em cerca de 6,4% da população.

“Parabéns, Israel, o único país totalmente vacinado com 4 doses, e com passaporte da vacina, agora bateu o recorde de maior número de casos diários de Covid. Obrigado por nos mostrar o que não funciona”, dizem publicações compartilhadas no Instagram (1, 2, 3), no Facebook (1, 2) e no Twitter (1, 2).

Captura de tela feita em 21 de janeiro de 2022 de uma publicação no Instagram ( . / )

Conteúdo semelhante foi compartilhado em inglês e espanhol (1, 2).

Desde 31 de dezembro de 2021, Israel aplica uma quarta dose de imunizantes contra a covid-19 em sua população, sendo um dos primeiros países do mundo a aplicar esse reforço. A campanha se iniciou com pessoas imunossuprimidas e teve continuidade com a população acima de 60 anos.

O governo israelense aposta nas doses de reforço como uma tentativa de amenizar os efeitos de uma nova onda de coronavírus na população mais vulnerável. “A onda da ômicron está aqui e temos que nos proteger”, afirmou o primeiro-ministro do país, Naftali Bennett.

Não é verdade, no entanto, que o país já esteja totalmente vacinado com quatro doses, como dizem as mensagens virais. Até 22 de janeiro de 2022, cerca de 54% da população do país estava vacinada com doses de reforço, de acordo com dados da plataforma Our World in Data, da Universidade de Oxford. O número inclui ainda pessoas inoculadas com a terceira dose.

O site oficial do Ministério da Saúde israelense detalha que até 23 de janeiro foram aplicadas pouco mais de 600 mil quartas doses, o que corresponde a aproximadamente 6,4% da população.

Buscas reversas no Google do gráfico compartilhado pelas publicações viralizadas mostraram que ele corresponde a uma compilação feita pelo jornal britânico Financial Times sobre o andamento da pandemia de covid-19. Os números mostram o novo pico de casos enfrentados por Israel. De acordo com dados oficiais coletados pela AFP, no último 22 de janeiro de 2022, o país registrou mais de 46 mil novos casos.

Alta nos casos de covid-19

Ao AFP Checamos, Eduardo Silveira, imunologista e professor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (FCF-USP), disse em 21 de janeiro de 2022 que, dentre as possíveis razões para a recente alta de casos, está a circulação da variante ômicron e o relaxamento de medidas preventivas. Em Israel, os casos de covid-19 causados por essa variante representam em janeiro de 2022 cerca de 89% das infecções.

“A alta de casos, não só em Israel, mas no mundo todo, corresponde não somente ao maior poder de transmissão das variantes virais atualmente em circulação, como a ômicron, assim como ao relaxamento em massa do uso das medidas não farmacológicas (uso apropriado de máscaras, higiene das mãos, e não participar de aglomerações)”, explicou Silveira.

No mesmo sentido, Anderson F. Brito, virologista e pesquisador do Instituto Todos pela Saúde, com pós-doutorado na Yale University, afirmou à AFP em 24 de janeiro de 2022 que “com base nos dados de vigilância genômica mundial e de Israel, o aumento no número de casos atual naquele país é causado pela disseminação da variante ômicron”.

De acordo com o virologista, “estudos recentes já demonstraram que a ômicron tem maior capacidade de transmissão e de evadir as defesas adquiridas previamente, o que explica a alta transmissibilidade e habilidade de reinfecção e infecção de vacinados”.

Mônica Levi, diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), havia dito ao Checamos em 7 janeiro de 2022 que estudos indicam uma menor eficácia dos imunizantes contra as novas variantes: “Os dados dos estudos sugerem uma menor eficácia das vacinas para as variantes de preocupação, no momento, delta e ômicron, e isso nós chamamos de escape vacinal”.

Apesar disso, Levi destacou que as vacinas conseguem proteger contra o agravamento da doença e, consequentemente, contra os óbitos. “Essas vacinas se mostraram extremamente eficazes na prevenção de formas graves e de óbitos, visto que em todos os locais em que houve uma explosão da ômicron [...] isso não resultou em um aumento proporcional no número de internações em UTI [Unidade de Terapia Intensiva] e nem óbitos”.

Eficácia dos imunizantes

Silveira igualmente reforçou que, graças à imunização, boa parte dos casos não têm evoluído para quadros graves: “Apesar desse aumento significativo do número de casos no mundo todo, o número das internações continua baixo, principalmente nos locais onde a maioria da população já foi vacinada”.

Em Israel, o número de pacientes internados em unidades de tratamento intensivo até 23 de janeiro de 2022 era de 796. Um ano antes, o país registrou 1.175 internações, segundo o Our World in Data.

Sobre isso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) informou: “Em geral, as vacinas contra a covid-19 são muito eficazes na prevenção de doenças graves, hospitalização e morte por todas as variantes de vírus atuais. Elas são menos eficazes na proteção contra infecções e doenças leves do que eram para variantes anteriores do vírus; mas se você ficar doente depois de ser vacinado, é mais provável que seus sintomas sejam leves”.

Eduardo Martins Netto, epidemiologista do Hospital Universitário Professor Edgard Santos, da Universidade Federal da Bahia (HUPES-UFBA), e pesquisador da Fundação José Silveira, afirmou ao Checamos em 21 de janeiro de 2022:

Brito também afirmou que está sendo possível observar a proteção vacinal contra casos graves, mesmo com o alto número de infecções: “Evidência disso é o número proporcionalmente muito menor de mortes, mesmo quando o número de casos é muito elevado”.

Sobre Israel, ele informou, citando dados do portal Outbreak.info, que “no fim de janeiro de 2021 o país registrava cerca de 10 mil casos, e 60 mortes diárias. Hoje, registrando mais de 50 mil casos diários, é esperado que o número de mortes não acompanhe a mesma proporção daqueles tempos quando não existiam vacinas amplamente distribuídas, em que poderíamos observar óbitos na escala das centenas ou milhares no país, diariamente”.

De acordo com uma publicação do Our World in Data, “para entender como a pandemia está evoluindo, é crucial saber como as taxas de mortalidade de covid-19 são afetadas pelo estado de vacinação”. A taxa de mortalidade é “uma métrica-chave” que pode evidenciar “com precisão” o quanto as vacinas são eficazes contra as formas graves da doença, detalha o site.

Conforme os dados disponibilizados pela plataforma, a taxa de letalidade da covid-19 em Israel vem caindo, passando de 0,73% em 23 de janeiro de 2021 para 0,38% em 23 de janeiro de 2022.

Christovam Barcellos, pesquisador titular do Laboratório de Informação em Saúde do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Lis/Icict) da Fiocruz, disse ao Checamos nesta verificação de novembro de 2021: “A vacina tem duas tarefas. Salvar a vida de algumas pessoas e evitar casos graves, e a segunda tarefa é evitar transmissão”.

Eduardo Silveira ainda destacou que, para um controle da pandemia, é preciso que medidas como o uso de máscaras e o distanciamento social continuem sendo utilizadas. “A vacinação é extremamente efetiva, mas sua eficiência será maior ainda com a continuidade do uso das medidas não farmacológicas durante todo o período da pandemia, que ainda não acabou”, disse.

O Checamos já verificou outras alegações sobre a suposta ineficácia das vacinas contra a covid-19 (1, 2, 3).

*Esta verificação foi realizada com base em informações científicas e oficiais sobre o novo coronavírus disponíveis na data desta publicação.

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