Profissional de saúde prepara dose da vacina CoronaVac contra a covid-19 em um centro de imunização em Santiago, em 23 de dezembro de 2021 ( AFP / Javier Torres)

Estudo sobre efeito de vacinas frente à variante ômicron não prova “eficácia negativa”

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Usuários afirmam nas redes sociais que um estudo supostamente mostra que após três meses a eficácia das vacinas contra a covid-19 da Pfizer e da Moderna é negativa e que pessoas inoculadas com esses imunizantes estariam mais propensas a contrair a doença do que os não vacinados. Mas a publicação, com mais de 3 mil compartilhamentos desde 25 de dezembro de 2021, é enganosa. O próprio estudo, ainda não revisado por pares, alerta que o resultado pode ser fruto do rápido espalhamento da ômicron e reitera a necessidade de doses de reforço. Especialistas ouvidos pela AFP concordaram que não é possível que uma vacina aumente as chances de uma pessoa se infectar.

“Santo Deus. Estudo mostra q após três meses, a eficácia da vacina Pfizer & Moderna contra Omicron é na verdade negativa. Os clientes da Pfizer têm 76,5% mais chances e os clientes da Moderna têm 39,3% mais chances de serem infectados do que as pessoas q não usaram”, está escrito na legenda de um tuíte (1, 2), compartilhado também no Facebook (1, 2, 3)

Os usuários replicam um tuíte viralizado em inglês de Ezra Levant, do site Rebel News. O conteúdo também circula em espanhol (1, 2, 3, 4).

Captura de tela feita em 27 de dezembro de 2021 de uma publicação no Twitter ( . / )

A captura de tela de uma tabela com cifras que acompanha as publicações foi retirada de um estudo dinamarquês que analisa a efetividade das vacinas contra o SARS-CoV-2, especificamente frente às variantes ômicron e delta.

A publicação afirma prover “evidências da proteção contra infecção com a variante ômicron após completa a série de vacinação primária” e conclui que a efetividade dos imunizantes citados é menor contra a variante ômicron do que contra a delta e que ela rapidamente cai após alguns meses, mas que é reestabelecida após uma dose de reforço.

Captura de tela feita em 29 de dezembro de 2021 do resumo do estudo reproduzido no tuíte viralizado ( . / )

O que diz o estudo

O artigo foi disponibilizado na MedRxiv, repositório de artigos e estudos preprint, o que quer dizer que ainda não foram revisados por pares. A própria pesquisa alerta para esse fato e destaca que, por conta disso, "não deve ser usada para guiar a prática clínica”.

Paulo Petry, doutor em Epidemiologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), afirmou ao Checamos que “um estudo na fase de preprint não pode ser utilizado para pautar nenhuma ação de saúde pública porque ele ainda não foi revisado por pares”. Além disso, por ainda não estar revisado, “poderia, por exemplo, ser recusado para publicação”.

Palle Valentiner-Branth, membro do departamento de epidemiologia e prevenção de doenças infecciosas do Instituto Serum da Dinamarca e coautor do estudo, explicou ao Checamos que é equivocada qualquer interpretação de que a pesquisa é uma evidência de que vacinas não protegem contra o vírus.

Segundo ele, o estudo “fornece evidências de proteção contra a infecção com a variante ômicron após a conclusão de uma série de vacinação primária” com os imunizantes da Pfizer e Moderna.

No mesmo sentido se posicionou Alexandre Naime, chefe do departamento de Infectologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), que destacou ao Checamos:

A biomédica, pesquisadora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e divulgadora científica pela Rede Análise COVID-19 Mellanie Fontes-Dutra fez uma avaliação semelhante: “Eles estão mostrando o quanto cai do que era visto pra variante A [delta] em relação ao que vemos hoje pra variante B [ômicron]. Ela explicou que a conclusão da publicação viral é diferente do que é apresentado e concluído pelo artigo.

Eduardo Silveira, imunologista e professor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP), também disse ao Checamos que diferentemente do que afirmam as publicações nas redes sociais, o estudo não mostra uma perda de imunidade, “nem em um contexto celular e nem em um contexto humoral (anticorpos)”.

Captura de tela feita em 27 de dezembro de 2021 da tabela do estudo reproduzida no tuíte viralizado ( . / )

Sobre a cifra negativa, o próprio estudo esclarece que “isso provavelmente foi o resultado da rápida disseminação da ômicron”, que causou “muitas infecções entre indivíduos jovens vacinados”.

O autor Valentiner-Branth reforçou que a cifra é fruto de um “viés na comparação entre a população vacinada e a não vacinada”. De acordo com ele, “esses vieses são bastante comuns na estimativa de efetividade vacinal de estudos observacionais baseados em dados populacionais”.

“Isso é o que está em discussão e explica a estimativa negativa: grau de exposição de vacinados e não vacinados causando esse valor subestimado. Pode ser resultado do alto espalhamento da ômicron, causando infecções em jovens vacinados (que têm uma mobilidade maior)”, concordou Fontes-Dutra ao Checamos.

A biomédica ainda acrescentou: “Mas aí é que vem a questão: nós já sabíamos por outros estudos que a eficácia para duas doses contra infecção caía para ômicron. Porém, a eficácia contra hospitalizações é de pelo menos 70% para duas doses da Pfizer. Ou seja, essas pessoas estão protegidas contra a doença”.

O coautor do estudo dinamarquês concluiu:

Vacinas e a ômicron

Até o momento da publicação desta checagem, a eficácia das vacinas disponíveis contra a variante ômicron do SARS-CoV-2 ainda estava sendo analisada. Contudo, em 17 de dezembro de 2021, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) destacou que apesar de as informações ainda serem limitadas, “a OMS reporta que, até agora, parece que as vacinas atualmente disponíveis oferecem significativa proteção contra casos graves e mortes”.

“Também é importante estar vacinado para se proteger contra as outras variantes que circulam amplamente, como a delta”, destaca o texto.

Dados do Our World in Data, em dezembro de 2021, mostram ampla diferença nas taxas de mortes de pessoas não vacinadas e vacinadas na Suíça e Chile.

 

 

Em 20 de dezembro de 2021, os Centros para o Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos disseram que “é esperado que as vacinas atuais protejam contra casos graves, hospitalizações e mortes causadas por infecção da variante ômicron. No entanto, infecções em pessoas que estão completamente vacinadas provavelmente irão ocorrer”.

Os primeiros casos da variante ômicron no Brasil foram confirmados no dia 30 de novembro de 2021. Até 28 de dezembro, no painel de vigilância genômica do SARS-CoV-2 da Fiocruz havia 42 casos confirmados da variante no país.

Até 27 de dezembro de 2021, aproximadamente 143 milhões de pessoas haviam sido imunizadas contra a covid-19 no país, com duas doses de vacinas, e cerca de 25 milhões de pessoas já foram inoculadas com a dose de reforço.

Eduardo Silveira reiterou que “o número de internações e mortes no Brasil e no mundo só caiu graças à vacinação”. Ele atribui o surgimento de novas variantes ao fato de que “muitos, inclusive vacinados, têm deixado a desejar no uso de medidas não farmacológicas (máscaras, higiene das mãos, evitar aglomerações). Assim, o vírus continua a se disseminar, gerando eventualmente novas variantes”.

*Esta verificação foi realizada com base em informações científicas e oficiais sobre o novo coronavírus disponíveis na data desta publicação.

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