É falso que vídeo mostre porta-aviões norte-americano sendo atingido pelo Irã

Em 1º de março de 2026, o Irã anunciou ter atingido com “quatro mísseis” o porta-aviões norte-americano USS Abraham Lincoln, destacado na região do Golfo Pérsico, em represália aos ataques lançados desde 28 de fevereiro por Israel e Estados Unidos. O Pentágono desmentiu a informação. Desde então, publicações que somam mais de 7 mil interações nas redes sociais alegam que um vídeo mostraria o navio em chamas e afundando. Mas isso é falso: a gravação é antiga, não tem relação com o porta-aviões e apresenta indícios de ter sido criada artificialmente.

“O porta-aviões USS Abraham Lincoln, orgulho da marinha americana, foi atingido pelo Irã! E o mais impressionante: 4 MÍSSEIS BALÍSTICOS FORAM SUFICIENTES!”, diz uma das publicações compartilhadas no Facebook, no Instagram, no X, no TikTok e no YouTube.

A gravação viral, na qual um navio de guerra atingido em dois pontos aparece em chamas, também circula em árabe, espanhol e francês.

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Captura de tela feita em 3 de março de 2026 de uma publicação no X (.)

Os Estados Unidos e Israel iniciaram ataques conjuntos contra o Irã no fim de fevereiro, que levaram à morte do líder supremo Ali Khamenei. Em represália, o Irã disparou mísseis contra bases militares norte-americanas em países do Golfo Pérsico.

Em 1º de março, a Guarda Revolucionária, exército ideológico do Irã, anunciou ter atingido com quatro mísseis o USS Abraham Lincoln, porta-aviões de propulsão nuclear norte-americano que chegou à região do Golfo no fim de janeiro. 

No entanto, o comando militar dos Estados Unidos para o Oriente Médio (Centcom) desmentiu a informação, qualificando como “mentira” a declaração iraniana.

Gravação antiga

Uma busca reversa por fragmentos do vídeo viral no Google conduziu ao mesmo conteúdo publicado no Facebook em 23 de junho de 2025 — oito meses antes da data em que o Irã supostamente teria atingido o USS Abraham Lincoln em 2026.

Na ocasião, Israel e Irã viviam um conflito desencadeado em 13 de junho por uma série de ataques aéreos maciços de Tel Aviv contra Teerã. 

A publicação de 2025 afirma, equivocadamente, que a resposta iraniana teria “mirado o porta-aviões americano no mar Vermelho”. Na realidade, nenhum porta-aviões foi atingido durante o conflito, que se estendeu por 12 dias.

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(AFP)

Também não é possível que as imagens sejam um registro de outro incidente descontextualizado. Na história militar recente, nenhum porta-aviões norte-americano ou de outro país foi atingido por um disparo de míssil ou de drone.

A última ocorrência de um porta-aviões afundado por um adversário ocorreu em 1945, durante a Segunda Guerra Mundial, quando o USS Bismarck Sea foi atingido por um kamikaze japonês durante a batalha do Pacífico, segundo o site especializado Military.com.

Além disso, o vídeo viralizado apresenta inconsistências visuais comuns em conteúdos criados digitalmente: apenas um dos dois incêndios no casco do barco emite fumaça e as chamas se movem de forma pouco realista, mais condizente com animações do que com vídeos autênticos de incêndios.

Imagens geradas por inteligência artificial (IA) ou retiradas de videogames são frequentemente usadas para espalhar desinformação durante conflitos armados.

Um dos softwares mais utilizados para esse fim é o Arma 3, um jogo de simulação militar realista. A Bohemia Interactive, empresa responsável pelo videogame, chegou a disponibilizar guias digitais para alertar sobre as imagens geradas com fins de desinformação.

Entre os principais indícios citados pela empresa, destacam-se imagens de má qualidade, sem áudio, sem presença humana e que apresentem efeitos visuais anormais — todos elementos presentes na sequência viralizada.

O AFP Checamos já verificou outras peças de desinformação sobre o conflito em curso no Oriente Médio.

Referências

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