Foto de satélite distribuída pela Planet Labs PBC, datada de 23 de junho de 2025, mostra a instalação de enriquecimento nuclear de Isfahan, no centro do Irã, após ataques dos EUA. (Planet Labs PBC / -)

Posts usam notícia sobre sumiço de 16 g de urânio para alegar falsamente que Brasil forneceu o material ao Irã

Estados Unidos e Israel iniciaram em 28 de fevereiro de 2026 ataques ao Irã após falhas na negociação de um acordo nuclear. Desde então, publicações com mais de 5 mil compartilhamentos nas redes sociais usam uma notícia sobre o sumiço de ampolas de urânio no Rio de Janeiro para alegar que o Brasil teria fornecido o material ao Irã. Mas as investigações concluíram que não houve delito e que pode ter ocorrido uma falha de manipulação do produto. Além disso, desapareceram apenas 16 gramas de urânio enriquecido a 4,25%, quantidade muito inferior à necessária para uso bélico.

“De acordo com @netanyahu, a inteligência israelense descobriu que ‘algum país ocidental’ forneceu urânio ilegalmente ao Irã”, diz uma imagem que circula no Facebook, no Instagram, no Threads e no Kwai. A mensagem faz alusão a um conteúdo que já foi verificado pelo Checamos em 2025.

As publicações relacionam ainda duas matérias de 2023: uma sobre navios de guerra do Irã que ficaram atracados no Porto do Rio de Janeiro e outra que reporta que as Indústrias Nucleares do Brasil (INB) estavam investigando o sumiço de ampolas de urânio.

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Captura de tela feita em 2 de março de 2026 de uma publicação no Instagram (.)

O conteúdo, que já havia circulado em 2025, voltou a ser compartilhado após o início dos ataques de Israel e Estados Unidos ao Irã no final de fevereiro. Segundo a imprensa estatal iraniana, até o momento, 1.045 pessoas foram mortas no país, incluindo o líder supremo aiatolá Ali Khamenei. No Líbano, 50 pessoas morreram após ofensivas israelenses e em Israel, dez foram mortas em um ataque iraniano. 

Os ataques começaram após semanas de negociação por um acordo nuclear. Estados Unidos e Israel alegam que o Irã enriquece urânio com a intenção de fabricar armas, o que o regime nega.

Entretanto, o desaparecimento de amostras de urânio não comprova que o Brasil tenha fornecido o material para o Irã.

Entenda o caso

Em 24 de fevereiro de 2023, o Ministério da Defesa autorizou que navios da Marinha iraniana atracassem no porto do Rio de Janeiro no período de 26 fevereiro a 4 de março daquele ano. Na época, a Secretaria de Comunicação Social (Secom) informou que as embarcações estavam no país devido às comemorações dos 120 anos das relações diplomáticas entre o Brasil e o Irã.

Já o sumiço das ampolas de urânio aconteceu quando os navios não estavam mais na costa brasileira. 

De acordo com uma nota publicada pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) em agosto de 2023, o material desapareceu em julho, quando a Indústrias Nucleares do Brasil realizava uma transferência interna de ampolas na Fábrica de Combustível Nuclear, em Resende, no Rio de Janeiro. 

A comissão explicou que somente duas ampolas com 8 g de urânio enriquecido a 4,25% haviam desaparecido. A INB comunicou o caso à Polícia Federal, ao Gabinete de Segurança Institucional e à CNEN em agosto, após “esgotar as tentativas de encontrar o material”.

Na época, a CNEN reiterou que pela quantidade de material, o conteúdo não acarretaria “danos radiológicos à saúde de um indivíduo”, mas havia a possibilidade de “risco químico associado à natureza tóxica dos compostos presentes”.

O Ministério Público Federal (MPF) decidiu arquivar o caso e concluiu em setembro de 2024 que não havia indícios de crime ou de improbidade administrativa nem evidências de dano ao meio ambiente ou à população. O MPF apontou que pode ter ocorrido falha na manipulação, como contagem equivocada, descarte despercebido, utilização em laboratório sem a devida baixa, entre outras.

Ampolas não tinham potencial bélico

Em julho de 2025, a Secom emitiu uma nota reiterando que a quantidade de urânio que sumiu em 2023 não apresentava “margem de aplicação em uso bélico” e que o país faz parte de tratados que impedem a venda e o uso de urânio para fins armamentistas.

Segundo a Associação Nuclear Mundial, o urânio usado em armas nucleares deve ser altamente enriquecido, acima de 90%. Para fins de comparação, a Agência Internacional de Energia Atômica informou em junho de 2025 que mais de 400 kg de urânio altamente enriquecido haviam sido encontrados na usina nuclear do Irã — quantidade muito superior aos 16 g de urânio enriquecido a 4,25% extraviados no Brasil.

Este conteúdo também foi verificado por Lupa e Aos Fatos.

O Checamos já verificou outros conteúdos sobre o conflito entre EUA, Israel e Irã.

Referências

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