Lula não ameaçou o governador Zema durante discurso em Minas Gerais; vídeo foi adulterado

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O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não ameaçou o governador reeleito de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), por não apoiá-lo no segundo turno das eleições presidenciais de 2022. O vídeo com essa alegação, visualizado mais de 50 mil vezes em redes sociais desde 10 de outubro de 2022, reúne diferentes trechos de um discurso de Lula para alterar o sentido de sua fala. Na gravação original, Lula afirmou, na verdade, que o governador mineiro vai sentir “remorso” por não o apoiar ao constatar os investimentos que os seus anos de governo promoveram em Minas.

Mineiros, cuidado, Lula ameaça o governador Zema, imaginem esse condenado no poder, estaremos perdidos!”, diz uma das publicações que passaram a circular no Facebook, Twitter e TikTok, após Zema afirmar que apoiará o candidato à reeleição Jair Bolsonaro (PL) no segundo turno de 2022.

O vídeo também foi compartilhado pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL), filho do atual presidente.

O parlamentar ainda mencionou a suposta ameaça de Lula à Zema durante a sua participação no programa Pânico, no último dia 10 de outubro. Na ocasião, após a reprodução da sequência viral, Eduardo Bolsonaro disse que, com a declaração, o ex-presidente não ameaçou prejudicar somente o governador Romeu Zema, mas toda a população mineira caso seja eleito.

Captura de tela feita em 10 de outubro de 2022 de uma publicação no Facebook ( .)

No vídeo que embasa essa alegação, Lula parece dizer: “Primeiro, eu quero deixar bem claro, o governador Zema terá um problema de remorso ao não me apoiar e para ele tomar cuidado quando ele falar. Agora, ele é livre”.

As declarações de Lula, no entanto, não foram feitas nessa sequência.

Uma busca por palavras-chave mostrou que as imagens que compõem o vídeo viral foram feitas em um ato de campanha do petista com apoiadores em Belo Horizonte, em 9 de outubro de 2022.

Ao consultar o vídeo original do evento, é possível identificar as mesmas frases ditas pelo ex-presidente, mas em trechos diferentes do discurso.

A partir de 24:39, durante uma pergunta sobre as possíveis estratégias da campanha para atrair eleitores mineiros após Zema apoiar Bolsonaro, Lula afirmou: Primeiro, eu quero deixar bem claro, o governador Zema tem liberdade de apoiar quem ele quiser, não me oporei e nem pensava que fosse diferente. Nunca pensei que fosse diferente”.

Aos 25:20, o ex-mandatário prossegue: “E o povo pode medir qualquer quatro anos meus com quatro anos de Bolsonaro. Belo Horizonte pode medir quatro anos do meu com qualquer quatro anos de Bolsonaro, que se o governador souber 10% do que nós fizemos em Minas Gerais, ele terá um problema de remorso ao não me apoiar.

Após essa declaração, Lula começa a enumerar os investimentos do seu governo no estado de Minas Gerais para justificar o sentimento de “remorso” que Zema poderia ter ao declarar apoio a Jair Bolsonaro (PL).

O petista destaca, por exemplo, valores que teriam sido colocados à disposição de Minas Gerais para infraestrutura e economia urbana, além da duplicação de ferrovias e rodovias federais.

Já a fala sobre “tomar cuidado”, veio da frase seguinte: “Se ele souber tudo que nós fizemos (...) [por Minas Gerais] só pra ele saber, pra ele tomar cuidado quando ele falar.

Na parte final da resposta, Lula conclui: Agora, ele é livre. Ele é livre e eu vim aqui tentar convencer o povo mineiro de que a gente pode fazer mais por Minas Gerais”. A declaração, como descrita neste texto, pode ser conferida no vídeo abaixo:

A edição de vídeos, retirando frases de contexto, tem sido uma estratégia de desinformação bastante utilizada durante a campanha eleitoral de 2022. O AFP Checamos já verificou alguns conteúdos desse tipo anteriormente (1, 2, 3).

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