Cidade de Chapecó não “esvaziou” leitos de UTI com tratamento precoce contra covid-19

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Publicações compartilhadas dezenas de milhares de vezes em redes sociais desde o início de abril asseguram que a cidade de Chapecó, em Santa Catarina, zerou o número de pacientes com covid-19 em Unidades de Tratamento Intensivo com o chamado “tratamento precoce”. Isso é falso. A média de internados em UTI com a doença na cidade nos primeiros dias de abril é superior à vista no mesmo período dos outros meses de 2021. Chapecó registrou, na verdade, uma queda no número de casos ativos de covid-19 entre março e abril, mas não é possível afirmar que isso tenha sido consequência do tratamento precoce.

“Maravilha! Chapecó esvazia leitos de UTI com tratamento precoce”, diz texto amplamente compartilhado no Facebook (1, 2, 3) desde o último dia 3 de abril. “Prefeito de Chapecó zerou UTi's com o tratamento precoce!! Mas vc não vai ver na mídia, porque para eles, notícia boa é gente morrendo!!”, escreveu outro usuário.

Outras versões - difundidas inclusive pela deputada federal Carla Zambelli (PSL) - compartilham um vídeo em que o prefeito de Chapecó, João Rodrigues (PSD), mostra uma unidade hospitalar vazia e asseguram: “Prefeito de Chapecó zera internações na UTI por covid-19! Conseguem adivinhar como?”

Captura de tela feita em 7 de abril de 2021 de uma publicação no Facebook

Em 7 de abril, o presidente Jair Bolsonaro visitou a cidade catarinense, elogiando a maneira como o governo local lidou com a pandemia e o tratamento precoce.

Não é verdade, no entanto, que Chapecó não tenha mais pacientes internados com covid-19 em Unidades de Tratamento Intensivo.

Ocupação de UTIs

Segundo registrado no boletim epidemiológico da própria Prefeitura de Chapecó, neste dia 7 de abril de 2021 há 116 pacientes com covid-19 em leitos de UTI da cidade. Isso corresponde a uma taxa de ocupação de 93% dos leitos de UTI públicos e de 90% dos privados, ainda de acordo com a Prefeitura. 

Boletim epidemiológico de covid-19 de 7 de abril de 2021 divulgado pela Prefeitura de Chapecó

Do dia 1º até 6 de abril, o número de internados com coronavírus em Unidades de Tratamento Intensivo era, respectivamente, de: 131, 132, 130, 130, 129 e 121 pessoas - levando a uma média diária de 127 pacientes em leitos de UTI, incluindo os dados do último dia 7.

A média correspondente ao mesmo período nos meses anteriores de 2021 era inferior.

Nos sete primeiros dias de março, por exemplo, foi registrada a média de 113 pacientes em UTIs, ainda de acordo com os dados da Prefeitura. Já na primeira semana de janeiro e fevereiro, a média era respectivamente de 37 e 39 pacientes em leitos de tratamento intensivo.

Os leitos vazios exibidos pelo prefeito João Rodrigues no vídeo viralizado não eram de UTI, mas da Unidade de Tratamento Semi-Intensivo (UTSI) do Centro Avançado de Atendimento Covid-19, um hospital de campanha inaugurado no último dia 24 de fevereiro. Desde o início, o objetivo do centro era funcionar como um “local de passagem”, atendendo pacientes que aguardavam vagas em outros hospitais.

Segundo informou a Prefeitura, toda a estrutura do hospital de campanha pôde ser desativada neste mês de abril devido à alta de 100 pessoas, mas também devido à transferência de 85 pacientes para outros centros médicos.

Desde que o Centro Avançado de Atendimento Covid-19 foi inaugurado, foram criados 26 novos leitos de UTI no Hospital Regional do Oeste - principal hospital público da região -, o que pode ter ajudado a diminuir a procura pelo centro elaborado como “local de passagem”

Casos ativos e medidas restritivas

O que realmente foi registrado em Chapecó em abril deste ano foi uma queda acentuada no número de casos ativos de covid-19 em relação a março. Neste dia 7 de abril, há 569 casos do novo coronavírus na cidade, contra 4.244 no mesmo dia do mês anterior. Não é possível afirmar, no entanto, que essa redução se deva ao tratamento precoce.

Ao longo desse período, o governo local realmente estimulou a rápida medicação de pessoas com covid-19, mas não somente.

Em 5 de março, por exemplo, Chapecó acatou decretos estaduais determinando toque de recolher das 22h às 5h, limitando o horário de funcionamento de bares e proibindo o consumo de bebidas alcoólicas em áreas públicas. No dia 9 do mesmo mês, foi instituída uma barreira sanitária na cidade, medindo a temperatura e testando aqueles que desejassem entrar em Chapecó.

Lojas fechadas devido a medidas restritivas contra a pandemia de covid-19 em São Paulo, em 6 de março de 2021 (Miguel Schincariol / AFP)

No dia 11, foram instauradas medidas mais rígidas por um final de semana, proibindo o funcionamento de serviços considerados não essenciais e limitando a comercialização de alimentos e bebidas a serviços de entrega ou à retirada nos estabelecimentos.

Até o último dia 5 de abril, ainda estavam vigentes diversas medidas restritivas.

Quando o número de casos ativos começou a cair, em meados de março, o secretário-adjunto da Saúde, Jader Danielli, atribuiu a melhora a uma série de fatores, como registrado no site da Prefeitura.

“Isso é fruto de um conjunto de medidas tomadas pela Administração Municipal, como uma melhora na eficiência operacional, isolamento, tratamento mais adequado com a abertura de mais leitos, mais profissionais e equipamentos”, disse. “Pedimos que a população continue tomando cuidado para que esses números não voltem a crescer. Quem não precisar sair de casa, não saia. Se sair, vá sozinho, use máscara e mantenha o distanciamento”, acrescentou.  

Tratamento sem comprovação

Além do tratamento precoce não ter sido a única medida implementada pela Prefeitura de Chapecó, não há evidências de que essa estratégia seja capaz de combater o novo coronavírus.

Embora o governo local não detalhe quais medicamentos estão sendo indicados para lidar com a doença, o chamado tratamento precoce costuma incluir combinações de hidroxicloroquina, ivermectina, vitamina C e zinco - substâncias que não são recomendadas por organizações de saúde para tratar a covid-19.

Funcionário segura frasco de hidroxicloroquina em uma farmácia em Utah, Estados Unidos, em 20 de maio de 2020 (George Frey / AFP)

Remédio comumente utilizado para tratar a malária, a hidroxicloroquina foi alvo de diversos estudos durante a pandemia de covid-19.

Em 5 de junho de 2020, por exemplo, pesquisadores da Universidade de Oxford compararam a evolução de pacientes de covid-19 que receberam hidroxicloroquina com aqueles que receberam o tratamento usual, concluindo que não houve diferença significativa na taxa de mortalidade ou redução no período de internação hospitalar.

Em outubro de 2020, a hidroxicloroquina também não se mostrou capaz de reduzir substancialmente a gravidade de sintomas em pacientes ambulatoriais com covid-19 leve e inicial.

Para a Agência Europeia de Avaliação de Medicamentos (EMA) não somente não há evidências de efeitos benéficos do uso do medicamento contra a covid-19, como este pode “causar alguns efeitos colaterais, incluindo problemas cardíacos”.

Já a eficácia da ivermectina - medicamento utilizado para tratar algumas infecções parasitárias - ainda está em estudo. Enquanto isso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que o remédio não seja utilizado contra o novo coronavírus, a não ser em ensaios clínicos.

A OMS também destaca que micronutrientes como a vitamina C e o zinco são cruciais para o funcionamento correto do sistema imunológico, mas que não há, até agora, orientação para o seu uso como um tratamento contra a covid-19.

Conteúdo semelhante a este também foi verificado pelos sites Aos Fatos e Agência Lupa.

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