Não há prova de que mortes relatadas à Anvisa sejam consequência de vacinas contra a covid-19

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Circulam pelas redes sociais desde o dia 1° de março publicações compartilhadas mais de 7 mil vezes que alegam que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) “confirmou” 34 óbitos e 767 efeitos adversos no primeiro mês de vacinação contra a covid-19 no Brasil. No entanto, os números coletados do painel de notificações do órgão não são comprovadamente decorrentes dos imunizantes. A Anvisa informou que, até agora, não há nenhum óbito conhecido relacionado ao uso das vacinas contra covid-19 autorizadas no país.

Todas as publicações são acompanhadas por uma imagem na qual aparece o título de uma notícia que diz Anvisa confirmou 43 óbitos e 767 efeitos adversos no primeiro mês de vacinação”. “Ao todo foram 767 notificações de efeitos adversos, entre leves e graves, 525 da vacina da CoronaVac e 243 da Astra Zeneca”, acrescenta o texto compartilhado em postagens no Facebook (1, 2) e no Instagram (1, 2, 3).

Captura de tela feita de uma publicação no Facebook em 10 de março de 2021

A imagem que aparece nas publicações é o título de um artigo publicado no site Estudos Nacionais, com base em dados da plataforma VigiMed, hospedada no site do Ministério da Saúde e disponibilizada pela Anvisa para que cidadãos e profissionais de saúde possam relatar eventos adversos a medicamentos e vacinas. O artigo, compartilhado no Facebook mais de mil vezes segundo a ferramenta de medição de audiências CrowdTangle, explica: “De 1 de janeiro até o dia 21 de fevereiro, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), confirmou o óbito de 34 pessoas em possível decorrência das vacinas contra Covid-19, em todo o país. Foram 24 mortes pela CoronaVac e 10 pela vacina da Universidade de Oxford”.

A plataforma realmente indica notificações atualizadas de mortes e efeitos adversos quando se pesquisa sobre as duas vacinas aplicadas nos grupos considerados prioritários da população brasileira. Uma consulta realizada pelo AFP Checamos em 9 de março sobre os efeitos dos imunizantes CoronaVac e Oxford/AstraZeneca, pesquisando pelas mesmas datas utilizadas pelo autor do artigo do site Estudos Nacionais, mostrou o mesmo número de notificações e 35 mortes. Até o dia 10 de março, foram registradas 1.091 notificações, entre as quais há 76 óbitos.

Entretanto, esses efeitos não são necessariamente decorrentes da vacina. Antes de se acessar a plataforma, é preciso passar por uma página do site com informações relacionadas às notificações dos eventos adversos. Entre elas, há a afirmação de que não é possível ter certeza se os fatos informados por terceiros foram realmente causados por medicamentos ou vacinas. 

Esse alerta é reforçado no momento da consulta à plataforma, quando aparece um aviso, desconsiderado pelas publicações viralizadas, de que o “painel contém informações SUSPEITAS de eventos adversos recebidas pela Anvisa e NÃO estão disponíveis os resultados das análises técnicas realizadas pela agência para atribuir ou não causalidade dos eventos aos medicamentos ou às vacinas”

Captura de tela feita do site da plataforma VigiMed em 10 de março de 2021

Em nota à imprensa publicada em 2 de março, a Anvisa reforçou que “os dados públicos de notificações do uso de vacinas para covid-19 não indicam qualquer relação das vacinas com eventos adversos graves ou óbitos no país” e que “o uso de dados de forma descontextualizada ou sem a interpretação técnica necessária pode levar a conclusões falsas”.

A agência também ressaltou que “até o momento, não há nenhum caso de óbito conhecido que tenha relação estabelecida com o uso das vacinas para Covid-19 autorizadas no país”.

“Já é esperado que pessoas venham a óbito por outros motivos de saúde e mesmo por causas naturais, tendo em vista a taxa de mortalidade já conhecida para cada faixa etária da população brasileira”, acrescentou.

O órgão esclareceu, ainda, que as notificações sobre vacinas e medicamentos são enviadas à Anvisa principalmente por profissionais e serviços de saúde, além dos fabricantes, que são obrigados a comunicar os eventos suspeitos e que possam ser graves. 

A agência considera esses dados notificados por terceiros apenas como sinalizadores para o seu trabalho de monitoramento.

O Brasil começou a vacinar grupos considerados prioritários no dia 19 de janeiro, usando os imunizantes CoronaVac, produzida pelo laboratório chinês Sinovac em parceria com o Instituto Butantan, e da AstraZenevca/Oxford, em cooperação com a Fundação Oswaldo Cruz. Até o dia 11 de março, foram aplicadas 12.747 doses, segundo um balanço da AFP. 

Essa informação também foi verificada pela Agência Lupa e pelo Aos Fatos. Recentemente, a AFP checou um conteúdo semelhante, sobre mortes por vacinas supostamente confirmadas pelos Centros para o Controle e Prevenção de Doenças (CDC), dos Estados Unidos. 

Em resumo, embora os dados apresentados nas publicações tenham sido realmente colhidos da plataforma da Anvisa, a agência não confirma que as mortes sejam consequência da aplicação de vacinas. Esses números refletem notificações públicas, mas que não foram verificadas. Desse modo, não se pode afirmar que as mortes e outros efeitos adversos tenham sido causados necessariamente pelas vacinas contra covid-19.

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