Não, esta mulher não foi condenada a 30 anos de prisão por matar o estuprador de sua filha

Uma publicação compartilhada nas redes sociais desde 2017 mostra a fotografia de uma mulher e questiona uma condenação a 30 anos de prisão por matar o estuprador de sua filha. Mas, na realidade, a mulher da foto foi condenada a 35 anos de prisão sob a acusação de matar seu marido, e o caso judicial não indica que nenhum de seus filhos tenha sofrido abuso sexual por parte do falecido.

“ABSURDO: Condenada a 30 anos de prisão mulher que assassinou o homem que violou a filha de 3 anos. Compartilhe para que todos saibam como é a ‘justiça’!”, diz o texto inicial da matéria - com mais de 4.700 compartilhamentos segundo a ferramenta CrowdTangle -, que termina declarando: “Ajuda-nos a partilhar para ajudar a espalhar a notícia! Acha que ela deve pagar por algo que ele fez para defender a filha? Deverá ela ficar 30 anos [presa] por ter feito justiça com as próprias mãos?”.

Esta desinformação circula desde 2017 no Twitter e no Facebook (1) em português e também em espanhol (1 e 2).

Captura de tela feita em 18 de junho de 2019 no Facebook mostra a notícia que viralizou com a atribuição errada

Por meio da busca reversa de imagem da mulher no Google* foram encontrados meios de comunicação mexicanos informando sobre a condenação a 35 anos de prisão de Rosa N. L. C. pelo homicídio de seu marido, o tabelião Raúl Alton Garza, em 18 de janeiro de 2016, no domicílio do casal em Monclova, região mexicana de Coahuila.

O delegado da Promotoria estadual na região, Rodrigo Chairez Zamora, explicou a uma colaboradora da AFP que a condenada tem dois filhos e “nenhum dos dois sofreu qualquer agressão”. Além disso, o delegado sustentou que a nota “na qual usam a imagem da sentenciada (...) é falsa”. “O conteúdo não tem nada a ver com o caso mediante o qual ela foi processada. (...) A foto da pessoa foi mal usada”, afirmou sobre a publicação viralizada.

Dependendo da publicação viralizada, a mulher é chamada de Naomi ou Noemi, que teria esfaqueado um homem chamado Ernesto Ramírez, o qual não identificam como seu marido ou companheiro. O suposto homicídio ocorreu em Coahuila, mesmo local onde foi registrado o caso real de Rosa N.

Inclusive, existem petições populares que recolhem assinaturas para revogar ou anular a suposta condenação por homicídio do estuprador de uma criança e usam a imagem de Rosa N.

O erro foi alertado por sites em português e espanhol.

Na região de Coahuila, lembra o delegado, “nós não temos nenhum caso dessa natureza”, referindo-se a qualquer situação parecida em que uma mulher tenha assassinado o abusador de sua filha de três anos.

A AFP fez uma busca on-line pelas palavras-chave [Noemi + Ernesto Ramírez + filha + três (ou 3) anos] para assegurar de que não havia um episódio similar à publicação viral analisada, mas não obteve resultados.

Em resumo, a mulher da fotografia realmente foi condenada no México a uma pena de prisão por homicídio, mas ela se chama Rosa, não Naomi o Noemi. Além disso, ela não matou o estuprador de sua filha, mas o seu marido, Alton Garza. Segundo informou a Promotoria, o caso judicial não indica que os filhos de Rosa N. tenham sofrido abusos sexuais por parte da vítima.

*Uma vez instalada a extensão InVid no navegador Chrome, clica-se com o botão direito sobre 
a imagem e o menu que aparece dá a opção de lançar uma busca da mesma em várias 
ferramentas.