Ilustração com frase de Lula sobre gripe em “cabra macho” era metáfora para a crise financeira

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Uma imagem do ex-presidente Lula acompanhada por uma frase dita por ele supostamente minimizando a pandemia da gripe A H1N1 foi compartilhada mais de 30,8 mil vezes nas redes sociais desde o início de janeiro. Mas a ilustração viralizada foi publicada na revista Veja em 1º de abril de 2009, quando sequer havia casos da chamada gripe suína no Brasil, e Lula fazia referência à crise financeira internacional.

“‘Uma gripe, num cabra mofino, ele fica de cama; num cabra macho, ele vai trabalhar e não perde uma hora de serviço’”, diz o texto ao lado de uma ilustração do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010), sobreposta pela frase “Crise do H1N1 2009. Brasil… um povo sem lembranças…”.

Nas publicações viralizadas no Facebook (1, 2, 3), no Instagram (1, 2) e no Twitter (1, 2, 3) é dito que “um amigo achou isso em uma revista veja de 2009 olha o que fala ‘VEJA’”

Captura de tela feita em 15 de março de 2021 de uma publicação no Facebook

Uma busca reversa no Google Imagens pelo meme viralizado nas redes levou a um artigo publicado em 2010 na revista Veredas, da Universidade Federal de Juiz de Fora, intitulado “Análise do Discurso e Mídia: nas trilhas da identidade nordestina”.

Na página 172 encontra-se a mesma ilustração de Lula, juntamente com a frase viralizada, e o crédito à edição 2106 da revista Veja, de 1° de abril de 2009. 

Uma pesquisa no acervo da Veja por essa edição possibilita verificar a  ilustração em seu contexto original. Na seção “Veja Essa”, na página 52, há uma série de declarações de pessoas famosas. A que foi atribuída a Lula foi ilustrada pelo artista Eduardo Baptistão. 

Captura de tela feita em 15 de março de 2021 do site de acervo da revista Veja

O Checamos entrou em contato com Eduardo Baptistão, que confirmou a autoria da ilustração e explicou o seu contexto.

Baptistão completou: “Essa caricatura está viralizando agora, totalmente fora de contexto, com o intuito de defender o presidente [Jair Bolsonaro], algo que eu nunca faria, e de quebra atacar o Lula. O pior de tudo é ver o meu desenho envolvido nisso”.

Uma busca no Google especificamente pela frase “num cabra macho, ele vai trabalhar e não perde uma hora de serviço” resultou em duas matérias, publicadas em 23 e 24 de março de 2009, nos sites d’O Globo e do Senado.

Ambos os textos indicam que a declaração foi feita durante uma visita a uma fábrica da marca Sadia em Pernambuco no contexto da crise financeira internacional, anteriormente classificada pelo ex-presidente como uma “marolinha” caso chegasse ao Brasil.

Além disso, a chamada gripe suína, provocada pelo vírus H1N1 foi detectada inicialmente no México entre março e abril de 2009, segundo os Centros para o Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos.

De acordo com o Ministério da Saúde, a gripe A H1N1 chegou ao Brasil em maio de 2009, ou seja, pouco mais de um mês após Lula ter feito a comparação entre uma gripe e a crise financeira. Segundo um informe técnico publicado pela pasta, mais de 2 mil pessoas faleceram em decorrência desta doença, a maioria em 2009.

As visões de Bolsonaro e Lula sobre a pandemia

Desde que o Brasil registrou o primeiro caso do novo coronavírus, em 26 de fevereiro de 2020, o presidente Jair Bolsonaro tem minimizado o impacto da pandemia. 

Segundo ele, o “poder destruidor” do coronavírus estava sendo “superdimensionado” (1); graças ao seu “passado de atleta”, caso contraísse a covid-19, “seria, quando muito, acometido de uma gripezinha” (2); e o Brasil deveria “deixar de ser um país de maricas” e enfrentar a doença (3).

As publicações viralizadas ganharam força depois que, no último dia 10 de março, Lula fez o primeiro discurso após a decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Edson Fachin de anular as suas condenações por considerar que a 13ª Vara Federal de Curitiba não tinha competência para julgar os casos. 

O ex-presidente afirmou que queria fazer propaganda para que os brasileiros não seguissem nenhuma decisão imbecil do Presidente da República ou do Ministério da Saúde”

Ainda segundo Lula, “a primeira coisa que deveria ter sido feita no ano passado era criar um comitê de crise” com a participação de cientistas, mas “tivemos um presidente que falava de cloroquina e que era uma gripezinha”.

Até o dia 15 de março, quase 280 mil pessoas faleceram em decorrência da doença causada pelo coronavírus, e o Brasil se tornou o segundo país com mais óbitos e casos, ficando atrás apenas dos Estados Unidos.

AFP Brasil
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