Estabilidade de percentual de votos em São Paulo não “prova” fraude eleitoral

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Publicações compartilhadas milhares de vezes em redes sociais um dia após as eleições municipais afirmam que houve fraude na disputa pela Prefeitura de São Paulo, uma vez que os quatro primeiros candidatos mantiveram porcentagens de votos semelhantes em diferentes estágios de apuração das urnas. Mas esta afirmação é falsa. A estabilidade de percentuais significa apenas que houve homogeneidade nos votos em diferentes zonas eleitorais, como explicaram especialistas e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

“FRAUDE DESCARADAMENTE!!!”, diz uma das publicações, que indica que os percentuais de voto do prefeito e candidato à reeleição pelo PSDB, Bruno Covas; do candidato do PSOL, Guilherme Boulos; do candidato do PSB, Márcio França, e do candidato do Republicanos, Celso Russomanno, se mantiveram praticamente iguais quando 0,39%, 37,77% e 57,77% das urnas de São Paulo haviam sido apuradas.

Versões semelhantes das publicações incluem duas capturas de tela do aplicativo oficial de resultados eleitorais do TSE com a porcentagem de votos desses mesmos candidatos, com 0,39% e 37,77% das urnas apuradas: “Algo errado não está certo! De 24 mil votos, 5 horas de paralisação sem qualquer explicação, pra 2 milhões e 400 mil votos apurados e as porcentagens não mudaram?”.

A alegação aparece em múltiplas outras publicações no Facebook (1, 2, 3) e Twitter, somando mais de 4 mil compartilhamentos desde o último dia 16 de novembro.

Captura de tela feita em 17 de novembro de 2020 de uma publicação no Facebook

Os números citados nas postagens são verdadeiros, mas eles não provam uma fraude na disputa como alegado pelos usuários.

Percentual de votos

Procurado pelo AFP Checamos, o TSE confirmou que a votação em São Paulo foi homogênea, como indicado nas redes. Os números também podem ser confirmados em notícias publicadas ao longo do dia do primeiro turno.

O UOL informou que a primeira parcial divulgada pelo Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo foi às 17h32, com 0,39% das urnas apuradas. Os resultados são iguais aos informados nas postagens verificadas.

Por volta das 22h15, Jovem Pan e Estadão reportaram os resultados com 37,7% das urnas apuradas e a porcentagem de votos dos quatro primeiros candidatos coincidia com o informado nas redes. Cerca de 20 minutos depois, a CNN informou a atualização, com 57,7% das urnas apuradas e os números também eram os mesmos dos das publicações.

Pouca variação por zona eleitoral

Em comunicado, o TSE explicou que “a estabilidade no percentual de votos em candidatos durante a totalização não constitui indício de fraude e indica apenas homogeneidade nos votos recebidos durante a totalização”.

Essa informação foi reiterada por Guilherme Arbache, mestre em ciência política e  pesquisador associado do Núcleo de Estudos em Políticas Públicas da Universidade de São Paulo (NUPPS-USP), em e-mail à AFP.

“Isso não é por si só indício de fraude” e significa, na verdade, “que não há diferenças grandes na votação entre os candidatos de acordo com o percentual de urnas apuradas”, afirmou.

“Essa diferença costuma acontecer mais quando algumas regiões possuem apuração mais rápida do que outras (ou quando há diferenças no ritmo de apuração de formas diferentes de voto, como nos Estados Unidos - correios, etc. o que não é o caso aqui)”, acrescentou.

Para o cientista político Marco Antonio Carvalho Teixeira, coordenador do curso de Administração Pública da Fundação Getulio Vargas de São Paulo, “a explicação é que os eleitores da cidade tiveram a mesma percepção dos candidatos”.

Segundo afirmou ao Comprova - projeto de verificação colaborativa do qual o AFP Checamos faz parte - a população votou “independentemente da classe social ou do território”.

“Não tivemos aquela história de que, ao entrar as urnas da Capela do Socorro, tal candidato vai ser mais beneficiado; ou que com as urnas de Itaquera, tal candidato vai ter mais votos e pode virar o jogo”, diz ele. Para Teixeira, “ao que parece”, foi a primeira vez que a votação ocorreu de forma tão estável em uma grande capital brasileira.

Uma mulher vota em seção eleitoral no Pará, Brasil, em 15 de novembro de 2020 (Tarso Sarraf / AFP )

De fato, o postulante à reeleição, Bruno Covas (PSDB), venceu em todas as regiões da cidade. Guilherme Boulos (PSOL) ficou em segundo lugar em quase todas as zonas eleitorais – exceto em Parelheiros e no Grajaú, na zona sul paulistana, onde Jilmar Tatto (PT) conquistou essa colocação.

“Talvez uma das razões seja o fato de que não houve uma discussão acalorada em que a dimensão ideológica, classista, separou muito as pessoas. O primeiro turno não foi pautado pela opção por esse ou aquele candidato porque ele representa melhor determinada região. Pode ser que o segundo turno promova isso", diz Marco Antonio Carvalho Teixeira.

O percentual de votos de Covas variou entre 44,52% (Jardim Paulista) e 25,39% (Valo Velho). No total, o tucano conquistou 32,85% dos votos válidos. Os votos para Boulos variaram de 31,89% (Pinheiros) a 15,85% (Vila Maria). O candidato do PSOL obteve 20,24% dos votos válidos.

TSE teve dificuldades técnicas na divulgação dos resultados

Na noite deste domingo, 15, o TSE admitiu ter tido dificuldades técnicas na divulgação dos resultados por causa de uma lentidão no processo de totalização dos votos. Segundo a corte, os Tribunais Regionais Eleitorais (TREs) remetiam normalmente os dados e o banco de totalização do Tribunal recebia essas informações. No entanto, esse banco somava os totais de votação de forma mais lenta que o previsto.

São Paulo foi uma das cidades em que a divulgação de resultados demorou mais do que em anos anteriores. A apuração ficou estacionada em 0,39% das urnas totalizadas durante o início da noite.

O processo de totalização dos votos foi feito de forma diferente neste ano. Essa etapa passou a ser concentrada no centro de dados do TSE. Nas eleições passadas, o processamento desses dados era feito pelos TREs. Ou seja, houve uma redução de 26 pontos de totalização para um. De acordo com o presidente do TSE, ministro Luís Roberto Barroso, a mudança foi adotada por recomendação de segurança da Polícia Federal.

Em coletiva de imprensa nesta segunda-feira, 16, Barroso explicou que o TSE contratou a empresa Oracle para fornecer um supercomputador para desempenhar a tarefa da totalização de votos. No entanto, devido à pandemia de covid-19, houve demora na entrega do equipamento - a compra foi feita em março e o supercomputador só chegou em agosto. Dessa forma, a equipe técnica do tribunal não conseguiu fazer testes prévios suficientes. Barroso informou que parte dos testes foram feitos por videoconferência, o que prejudicou a organização.

O atraso no processamento de dados foi de duas horas, informou Barroso. “Em razão das limitações dos testes prévios, a inteligência artificial do equipamento demorou a aprender como processar os dados no volume e velocidade. Daí a lentidão, que exigiu que a totalização fosse reiniciada”, afirmou o ministro.

O presidente do TSE voltou a afirmar que a segurança da votação não foi comprometida. “Em nenhum momento a  integridade do sistema esteve em risco. O que houve foi um atraso na totalização”, disse.

Em resumo, é falso que o fato dos percentuais de voto dos candidatos à Prefeitura de São Paulo terem se mantido estáveis durante a apuração das urnas prove fraude eleitoral na disputa. Como explicaram especialistas e o Tribunal Superior Eleitoral, essa estabilidade significa que houve homogeneidade nos votos e no ritmo de apuração em diferentes zonas eleitorais.

Esse texto faz parte do Projeto Comprova. Participaram jornalistas da Folha de S.Paulo, Estado de S. Paulo e Poder360. O material foi adaptado pelo AFP Checamos.

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