Esta cena de um hospital após um incêndio foi registrada em 2010; a imprensa noticiou o caso

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Uma foto de pessoas deitadas em macas e aglomeradas no que parece ser a entrada de um hospital foi compartilhada mais de 15 mil vezes nas redes sociais desde o final de fevereiro de 2021 com a afirmação de que a cena foi registrada em 2016. As postagens ironizam dizendo que, naquela época, a saúde estava “bem” e que a imprensa não noticiou nada a respeito. Mas isto é falso: a foto foi tirada em abril de 2010, após um princípio de incêndio e um apagão atingirem o Instituto Doutor José Frota, em Fortaleza, levando à evacuação do local. Além disso, a imprensa publicou matérias sobre o ocorrido.

“Foto de 2016. ‘Bons’ tempos em que a saúde estava ‘bem’ e a imprensa não noticiava nada a respeito. Bando de Hipócritas…”, diz o texto visto acima da imagem de um espaço lotado de pacientes e acompanhantes, além de profissionais de saúde.

Essa foto já havia circulado amplamente em maio de 2020, mas voltou a ser compartilhada milhares de vezes no Facebook (1, 2, 3), no Instagram (1, 2, 3) e no Twitter (1, 2, 3) desde o fim de fevereiro de 2021, em meio ao agravamento da pandemia de covid-19 no Brasil e a consequente falta de leitos em diversos estados.

Captura de tela feita em 18 de março de 2021 de uma publicação no Instagram

A mesma foto viralizou nas redes sociais no início de 2021, mas com a afirmação de que o registro havia sido feito em 2013, quando “o Lula era presidente e não havia corona vírus”.

No último dia 16 de março, a Fiocruz publicou um boletim mostrando que “das 27 unidades federativas, 24 estados e o Distrito Federal estão com taxas de ocupação de leitos de UTI Covid-19 para adultos no Sistema Único de Saúde (SUS) iguais ou superiores a 80%, sendo 15 com taxas iguais ou superiores a 90%”.

No caso das capitais, 25 das 27 apresentam taxas iguais ou maiores que 80%, sendo 19 delas superiores a 90%.

A origem da fotografia

Uma busca reversa pela imagem no Google localizou como registro mais antigo uma publicação no blog “Paulo Vasconcelos - Renovando com Ética e Fé” com data de 7 de abril de 2010 e intitulada “Fogo no IJF – Instituto Doutor José Frota”. Na época, Paulo Vasconcelos era vereador eleito por Sobral, no Ceará.

Ilustrado com a mesma imagem que viralizou nas redes sociais em 2020 e 2021, o texto indica que houve um “incêndio e apagão nessa noite de terça-feira [6 de abril de 2010] no Instituto Doutor José Frota (IJF)”, em Fortaleza, no Ceará.

Em seu artigo, Vasconcelos cita o vereador da cidade Plácido Filho, que fez críticas à gestão da então prefeita de Fortaleza, Luizianne Lins: “Nunca na história dessa cidade vimos uma situação de guerra como presenciamos no IJF. O que aconteceu foi resultado do descaso da Prefeitura com aquele hospital, que é referência no Nordeste e a maior emergência do Ceará”.

Para confirmar o contexto da fotografia, o Checamos entrou em contato com a assessoria de imprensa do Instituto Doutor José Frota, que esclareceu que a “ocorrência foi registrada em 2010”.

Este caso foi noticiado por veículos de comunicação (1, 2, 3), ao contrário do que afirmam nas postagens viralizadas, informando que o incêndio começou na tarde de 6 de abril de 2010, quando um curto-circuito provocou problemas no fornecimento de energia do hospital, levando a um apagão.

No portal do governo do Ceará uma matéria menciona que o incêndio ocorrido no IJF se deu por uma pane no sistema elétrico após um curto-circuito danificar dois capacitores.

Ainda segundo a imprensa, alguns pacientes da emergência e das áreas afetadas precisaram ser levados à área externa, assim como médicos e pessoas em condições de andar.

O Instituto Doutor José Frota é de responsabilidade do governo municipal. Em 2011, durante uma sessão na Câmara Municipal, um vereador sugeriu que a prefeitura de Fortaleza deixasse o IJF sob o comando do governo estadual ao fazer uma série de críticas à então prefeita Luizianne Lins, do PT.

Em maio de 2016, a então presidente Dilma Rousseff, reeleita dois anos antes, passou por um processo de impeachment, acusada de crime de responsabilidade por maquiar contas públicas, e seu vice, Michel Temer, assumiu o poder, sendo sucedido por Jair Bolsonaro, em 1º de janeiro de 2019.

 
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