Campanha de Flávio Bolsonaro estimula apoiadores a compartilhar fotos de IA de Lula com Vorcaro
- Publicado em 24 de julho de 2026 às 21:58
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- Por Frederico CARVALHO, AFP Brasil
Às vésperas da convenção partidária que deve oficializar sua candidatura à Presidência, o senador Flávio Bolsonaro (PL) intensificou sua campanha nas redes sociais com o lançamento de uma plataforma que distribui conteúdo para republicação de apoiadores. Entre os materiais prontos para compartilhamento em redes sociais, a campanha difundiu dois vídeos com fotos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e figuras públicas, incluindo duas supostas imagens com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Mas esses registros foram criados com inteligência artificial, em violação às normas eleitorais.
“Relembre os amigos do Lula. E aí, faltou alguém?”, diz a legenda de um dos vídeos compartilhados em um grupo de WhatsApp do Partido Liberal (PL) que visa alimentar apoiadores de Flávio Bolsonaro com conteúdos para republicação em suas redes sociais.
“Grandes amizades que impulsionaram a carreira de Lula e marcaram esquemas históricos!”, diz a legenda de outra gravação compartilhada no mesmo grupo.
Os vídeos, que também foram publicados no Facebook (1, 2) e no Instagram do PL, exibem diferentes imagens de Lula ao longo dos anos com figuras públicas brasileiras e internacionais, como o presidente chinês Xi Jinping, o senador Jaques Wagner (PT) e o presidente da Nicarágua, Daniel Ortega. Ambos destacam supostas fotos de Lula com Daniel Vorcaro, suspeito de liderar uma fraude bilionária envolvendo o Banco Master.
O grupo de WhatsApp no qual as gravações foram compartilhadas foi lançado como parte da plataforma “Direita Já”, criada pelo Partido Liberal para estimular apoiadores a redistribuir conteúdos multimídia da campanha de Flávio Bolsonaro. O uso desse tipo de plataforma também é feito pelo Partido dos Trabalhadores (PT), que concentra conteúdos para seus apoiadores no site “Pode Espalhar”.
A plataforma foi divulgada pelo próprio Flávio em publicação no Instagram no último dia 20 de julho. “Acesse direitaja.com, faça o seu cadastro e entre para o nosso time de mobilização. Lá, você vai ter acesso a vídeos, cards e materiais exclusivos pra baixar e compartilhar nas suas redes sociais e grupos de WhatsApp”, convidou o pré-candidato.
As gravações que incluem as fotos de Lula com Vorcaro efetivamente passaram a ser publicadas por usuários comuns no Facebook, no Instagram e no X após a divulgação inicial do PL.
No entanto, os materiais misturam fotos reais com imagens geradas por inteligência artificial (IA), e os registros de Lula abraçado com o dono do Banco Master não são autênticos.
Imagens criadas com IA
Uma busca reversa no Google pelas duas imagens de Lula com Vorcaro não levou a nenhum registro correspondente em portais de notícias confiáveis.
Mas a mesma busca indicou uma versão maior de uma das fotos, na qual é possível identificar a marca d’água do Gemini, ferramenta de IA do Google (1, 2).
No caso do segundo registro, AFP Checamos também identificou pequenas inconsistências. Por exemplo, a barba e o cabelo do mandatário apresentam uma textura excessivamente uniforme, dando um aspecto de “pintura” aos fios do seu cabelo, elemento característico de conteúdos feitos com IA.
A pedido da AFP, o professor Anderson Soares, do Instituto de Informática da Universidade Federal de Goiás (UFG), também analisou a imagem e chegou a conclusões semelhantes. “A pele do rosto de ambos está muito lisa e uniforme. O cabelo, barba e camisa do ‘Vorcaro’ também estão perfeitos demais. Possui características homogêneas, típicas de conteúdo gerado por IA”, avaliou o professor.
A equipe de checagem da AFP submeteu as fotografias virais às ferramentas OpenAI e SynthID, que detectam o uso de seus próprios modelos de IA. As plataformas indicaram a manipulação em ambas as imagens.
“Vedação absoluta” a deepfakes
À AFP, Yasmin Curzi, professora de Direito da Fundação Getúlio Vargas (FGV-Rio) e pesquisadora do Instituto Karsh de Democracia, apontou que as imagens manipuladas por IA de Lula e Vorcaro se enquadram na proibição do TSE de alteração ou substituição de um conteúdo de forma sintética para atacar uma candidatura.
A normativa do TSE que regulamenta o uso de inteligência artificial nas eleições estabelece a proibição de “conteúdo fabricado ou manipulado para difundir fatos notoriamente inverídicos ou descontextualizados com potencial para causar danos ao equilíbrio do pleito ou à integridade do processo eleitoral”.
A regra se estende a conteúdos sintéticos em forma de áudio, vídeo ou a combinação de ambos, “que tenham sido gerados ou manipulados digitalmente, para criar, substituir ou alterar imagem ou voz de pessoa viva, falecida ou fictícia (deep fake)”.
Curzi destacou que o TSE não proíbe o uso de IA, mas exige aviso explícito, destacado e acessível para conteúdos multimídias que utilizem a tecnologia. “Usar ChatGPT para animar o vídeo, por exemplo, é lícito. O problema é criar deepfake, alterar voz, imagem, criar montagem etc, para favorecer ou prejudicar candidaturas - aqui entra a vedação absoluta”.
Nas postagens do PL analisadas, foi possível identificar uma pequena indicação do uso de IA, mas que, para a especialista, não isenta os autores de uma eventual responsabilização por infração eleitoral. “A legenda está muito fina e branca, na lateral do vídeo, e mal se pode vê-la direito. Na minha opinião, deveria estar mais destacado. Além disso, [essa legenda] não isenta o caso de deepfake da última foto que claramente se trata de conteúdo ilícito”.
Procurado pelo AFP Checamos, o Partido Liberal não se manifestou até o momento de publicação desta matéria.
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