Moradores buscam vítimas entre os escombros de um prédio que desabou após terremotos em Catia La Mar, estado de La Guaira, na Venezuela, em 25 de junho de 2026 (AFP / Juan BARRETO)

É falso que o projeto de estudo atmosférico HAARP tenha causado os terremotos na Venezuela em junho de 2026

A Venezuela foi atingida por dois devastadores terremotos em 24 de junho de 2026, que deixaram centenas de mortos e um cenário de destruição com dezenas de prédios desabados. Em meio à repercussão da tragédia, publicações nas redes sociais com mais de 7 mil interações afirmam que os tremores foram provocados pelo Programa de Pesquisa em Aurora Ativa de Alta Frequência (HAARP). Mas cientistas já refutaram em diferentes ocasiões à AFP a possibilidade do projeto causar sismos. 

“HAARP o projeto diabólico da elite. Venezuela atingida e deixa mais de 10 mil mortos”, diz texto sobreposto a uma reportagem sobre os terremotos que é compartilhada no Facebook

A narrativa que atribui responsabilidade ao HAARP pelos terremotos no país também foi disseminada no Instagram, no X e em outros idiomas, como espanhol

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Captura de tela feita em 26 de junho de 2026 de uma publicação no Facebook (.)

Os dois fortes terremotos de magnitude 7,2 e 7,5 que atingiram a Venezuela em 24 de junho de 2026 deixaram quase mil mortos, ao menos 50 mil desabrigados e um cenário de destruição, principalmente na cidade costeira La Guaira, que foi a mais atingida e onde se localiza o aeroporto mais importante do país.  

Equipes internacionais de busca e resgate de ao menos 17 países estão mobilizadas para ajudar nas buscas, segundo noticiado pela Organização das Nações Unidas em 26 de junho.

Em meio à repercussão da tragédia, internautas resgataram a teoria falsa de que o HAARP provoca terremotos. 

HAARP não é capaz de provocar tremores  

A sigla HAARP refere-se ao Programa de Pesquisa em Aurora Ativa de Alta Frequência, em tradução para o português. O projeto da Universidade de Alaska Fairbanks (UAF) estuda a ionosfera, uma camada da atmosfera terrestre que começa a cerca de 60 a 80 quilômetros de altitude e se estende por cerca de 500 quilômetros.  

Segundo o descrito no site do projeto, o objetivo é “estudar as propriedades e o comportamento da ionosfera”

Esse estudo é feito com um conjunto de 180 antenas ao longo de 33 hectares no Alasca, que transmitem ondas de rádio para aquecer elétrons na ionosfera, o que causa “pequenos distúrbios semelhantes às interações que ocorrem na natureza”

No entanto, isso não é capaz de causar desastres climáticos. 

Essa alegação é “totalmente sem sentido”, como declarou à AFP Carlos Nobre, meteorologista e coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Mudanças Climáticas (INCT), em maio de 2024.  

“A energia desse sistema de medidas no Alasca para medir fisicamente as ondas eletromagnéticas da ionosfera é ridiculamente pequena e não poderia alterar nem mesmo o clima no Alasca”, explicou

A seção de perguntas frequentes do site do projeto também destaca que o estudo não interfere no clima: “As ondas de rádio nas faixas de frequência transmitidas pelo HAARP não são absorvidas nem pela troposfera nem pela estratosfera, as duas camadas da atmosfera que geram o clima da Terra. Como não há interação, não há como controlar o clima".  

David Lee Hysell, professor de ciência da Terra e da atmosfera da Universidade de Cornell, explicou à AFP, também em 2024, que os sinais de rádio emitidos pelo HAARP não influenciam na atividade sísmica. 

“Os terremotos são causados por movimentos ao longo das falhas da Terra que emitem ondas sísmicas à medida que liberam a tensão acumulada”, explicou. 

O mesmo foi destacado por Luis Antonio Domínguez, pesquisador do Instituto de Geofísica da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM): “O projeto HAARP é composto por antenas de transmissão de rádio e é de conhecimento geral  que as ondas eletromagnéticas não produzem sismos”.

De acordo com a Nasa, o tremor dos terremotos se dá por movimentos na camada mais externa da Terra, a crosta. 

Constantemente alvo de teorias da conspiração, o projeto HAARP era operado pela UAF até 2015, quando foi transferido para a Força Aérea dos Estados Unidos.

O Checamos já verificou outros conteúdos que relacionam o HAARP a desastres climáticos (1, 2, 3). 

Referências 

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