Redes de intimidação e mentiras abrem caminho para exploração do Petróleo no Amapá
- Publicado em 12 de junho de 2026 às 21:59
- 18 minutos de leitura
- Por Luiza AGNOL, Michelly NERIS, AFP Brasil
“A gente sempre via lideranças sendo ameaçadas em estados da Amazônia e nunca pensamos que isso poderia acontecer no nosso território”, relata Luene Karipuna, ativista indígena do município de Oiapoque, no Amapá que viu a cidade e a vida de sua comunidade mudarem com a possibilidade de exploração de petróleo na costa do estado. Ela conta que as mudanças começaram em 2023, quando passou a se posicionar contra o projeto. Desde então, seu nome começou a aparecer em páginas locais do Instagram e ela passou a ser acusada de tentar impedir o desenvolvimento do estado.
Essa tensão também foi sentida na pele por Amanda (nome fictício), funcionária do Instituto Arayara — instituição que atua em prol da preservação ambiental — , quando, durante um diálogo com comunidades locais sobre os impactos da exploração da Petrobras, sua fala foi interrompida por um desconhecido que invadiu o evento e prometeu voltar com reforços. O AFP Checamos ouviu outros relatos a respeito desse mesmo evento, e em três deles (que não incluem o de Amanda) foi citado que um dos presentes afirmou estar armado.
Com a iminência da exploração de petróleo na chamada margem equatorial brasileira, o estado do Amapá — o mais próximo de um dos poços já perfurados pela Petrobras na área — tornou-se um ambiente propício para políticos que abraçaram o projeto petrolífero e são beneficiados por perfis nas redes sociais que intimidam ativistas e disseminam informações falsas com o objetivo de garantir a operação das petroleiras.
As oficinas das quais Amanda participou em novembro de 2024 foram organizadas em conjunto com outras instituições de defesa ambiental para trazer informações à sociedade local a respeito da exploração no bloco FZA-M-059 (ou simplesmente bloco 59) — uma área localizada na Bacia da Foz do Amazonas, a cerca de 175 quilômetros da costa do Amapá. O bloco encontra-se na chamada margem equatorial brasileira, uma extensa faixa marítima que se estende do Amapá até o Rio Grande do Norte e que já é chamada de “o novo pré-sal”.
A exploração nessa faixa teria o potencial de beneficiar, sobretudo, o município de Oiapoque, que, sendo o mais próximo da área de perfuração, se tornaria o ponto de apoio logístico e administrativo para as operações em alto-mar. A proximidade geográfica garantiria ao município o recebimento de royalties — compensações financeiras pagas pelas petroleiras à União, estados e municípios pela exploração de recursos naturais não renováveis.
A promessa dos royalties representa um novo fluxo migratório para Oiapoque e as demais cidades da região. Mas também tem tornado cada vez mais perigosa a atuação de organizações e indivíduos que se manifestam contra a exploração petrolífera.
Esta foi a conclusão de Devastadores Digitais, uma colaboração liderada pelo Centro Latino-Americano de Jornalismo Investigativo (CLIP), da qual participaram o AFP Checamos e outros seis veículos de comunicação da região.
Tentativas de diálogo barradas
A série de encontros com populações locais foi realizada na costa do Amapá no final de novembro de 2024 por uma coalizão de organizações não governamentais: Instituto Arayara, Greenpeace, WWF-Brasil, ClimaInfo e o Instituto Iepé, com algumas dessas instituições enviando representantes pessoalmente para as oficinas.
No caso do Instituto Arayara, o foco era apresentar as conclusões de um estudo sobre os possíveis impactos da exploração de petróleo sobre a pesca na região, que abriga ecossistemas altamente sensíveis. O plano era realizar encontros restritos com populações que seriam diretamente impactadas.
Mas, já na primeira oficina, em Oiapoque, Amanda e seus colegas perceberam que estavam sendo filmados quando foram avisados que fotos e áudios das reuniões estavam circulando em grupos grandes de WhatsApp locais.
“Vimos que existia um grupo específico [pró-petróleo] no WhatsApp. Foi algo até difícil de entendermos, mas depois percebemos que existia uma pessoa que estava naquela oficina e que estava repassando fotos, áudios e vídeos nesse grupo”. Segundo Amanda, além de cidadãos da região, o grupo em questão era integrado também por deputados e funcionários públicos.
Depois do episódio, a comitiva rapidamente deixou Oiapoque por considerar que o ambiente era de “pressão e perigo”, e seguiu com a programação, que envolvia pontos mais afastados, como Calçoene e o arquipélago do Bailique.
A essa altura, o itinerário das ONGs já estava sendo acompanhado e divulgado no grupo de WhatsApp citado por Amanda. Quando a coalizão chegou na cidade do Amapá no dia 16 de novembro de 2024, eram aguardados pelo então prefeito Carlos Sampaio (DEM), pelos deputados estaduais Dayse Marques e Delegado Inácio (PDT) e por cerca de 45 pessoas que compareceram ao evento como participantes.
A tensão chegou ao auge quando um homem de chapéu e óculos escuros entrou gritando que chamaria reforços para “acabar com aquela palhaçada”. Uma fonte presente no local ouvida pela AFP relata que um dos presentes afirmou que estava com uma arma em sua mochila.
O então prefeito Sampaio prometeu chamar a polícia para lidar com o intruso que fez as ameaças. Mas Amanda e outros presentes na atividade suspeitam que não se tratava de um desconhecido. “A gente achou muito complicado ele [Sampaio] não saber [quem era aquele homem], já que o município é pequeno”, explica.
O AFP Checamos tentou entrar em contato com Sampaio por email nos dias 5 e 27 de maio. A reportagem também tentou obter seu contato telefônico de diversas outras maneiras, mas não obteve retorno até o fechamento desta matéria.
Posteriormente, o episódio foi mencionado brevemente por Vinicius Nora, pesquisador do Arayara, durante uma audiência na Câmara dos Deputados a respeito da exploração na região. Ao final de sua fala, Nora repudiou “um acontecimento que identificamos em oficinas onde uma membra da nossa organização foi ameaçada e perseguida, assim como [pessoas] de outras organizações”.
Os relatos ouvidos pela AFP descreveram o Delegado Inácio como um dos mais ativos dentre os políticos presentes nas oficinas realizadas no estado do Amapá. Ao menos três pessoas ouvidas pela reportagem citaram que o parlamentar com frequência interrompia falas e explicações nas oficinas.
Inácio Maciel, ou Delegado Inácio, foi o deputado estadual mais votado em 2022, quando assumiu o cargo na Assembleia Legislativa do Amapá (ALAP). Até entrar na carreira política, ele atuou durante 15 anos como delegado da Polícia Civil e foi diretor-presidente do departamento de trânsito estadual (Detran-AP) ao longo da gestão de Waldez Góes (também do PDT) como governador do estado.
Ele foi eleito prefeito da cidade de Oiapoque em 12 de abril de 2026, após uma eleição suplementar convocada pela Justiça Eleitoral como consequência da cassação da gestão anterior. Dos cerca de 14 mil eleitores que votaram no pleito, Inácio recebeu quase metade (49,46%) dos votos e assumiu o cargo em 6 de maio.
Além do endosso popular, Inácio Maciel recebeu o apoio nas redes sociais de uma série de perfis (1, 2) no Instagram ligados à exploração petrolífera na região. Essas páginas, segundo a investigação da AFP, são também responsáveis por disseminar informações comprovadamente falsas sobre o meio ambiente e por ataques a grupos opositores do projeto petrolífero no Amapá.
Procurado pela reportagem, Inácio não respondeu até o fechamento desta matéria. A AFP tentou contatá-lo por email nos dias 5 e 11 de maio e também falou com uma pessoa de seu gabinete, porém não obteve retorno até esta publicação.
O petróleo invade as redes sociais no Amapá
Nas redes sociais, a AFP identificou dois principais movimentos pró-petróleo: “O Petróleo é do Povo”, liderado pela corretora Ariana Moraes e “Exploração de Petróleo no Amapá Já”, encabeçado pela ativista Rozely Martins. Ambos surgiram no final de 2024. Apesar de distintos, os grupos apresentam algumas conexões — incluindo menções positivas ao Delegado Inácio.
No Instagram do movimento “O Petróleo é do Povo”, há registros de reuniões do movimento com políticos como o Delegado Inácio, o senador Lucas Barreto (PSD) e a ex-deputada federal Silvia Nobre Waiãpi.
Por meio de uma fonte que quis manter anonimato, a AFP teve acesso a algumas mensagens do grupo no WhatsApp “O Petróleo é do Povo”, criado em 18 de outubro de 2024. Nele, as oficinas foram debatidas em conversas que acusavam ONGs de atrasar o desenvolvimento do estado, chamavam seus funcionários de “vagabundos” e defendiam a “expulsão” dessas instituições do estado. Após a realização da oficina na cidade do Amapá, o grupo compartilhou mensagens de agradecimento ao Delegado Inácio e a uma pessoa que a reportagem identificou como possível funcionária da prefeitura.
Já o movimento “Exploração de Petróleo no Amapá”, liderado por Rozely Martins, frequentemente faz publicações a favor de Inácio (1, 2, 3, 4). Após o político ganhar as eleições para a prefeitura de Oiapoque, em abril de 2026, o perfil o parabenizou pela vitória. Outros políticos que aparecem nos registros são o vice-governador do estado Teles Jr, Lucas Barreto (1, 2, 3) e Silvia Waiãpi. A página também reúne postagens com funcionários de prefeituras e com membros de instituições como a Ordem dos Advogados do Brasil do Amapá (OAB-AP) e do Instituto Amazônico de Petróleo e Energias Renováveis (IAMPER).
O IAMPER é presidido por Thoni Furtado, que também ocupa a presidência da Comissão de Meio Ambiente da OAB-AP. Já a vice-presidente do Instituto é Rozely Martins.
O movimento conta com outros membros, como a jornalista Adriana Garcia e o jurista Gesiel Oliveira. Eles mantêm um grupo ativo no WhatsApp, criado em 17 de outubro de 2024. Nele, estão assessores de políticos já citados e integrantes da OAB-AP e do IAMPER. Em uma publicação em um blog sobre o grupo, foram listadas discussões do movimento, entre elas o “lado sombrio das ONGs” e a suposta “fake news científica do Greenpeace” sobre a existência de corais na Foz do Amazonas — apesar de existirem registros científicos da presença de corais e outros organismos recifais na região.
No período em que as oficinas estavam sendo realizadas, os dois movimentos pró-petróleo realizaram publicações parecidas no Instagram do “Exploração de Petróleo no Amapá” e no WhatsApp do “O Petróleo é do Povo” convocando seguidores e parlamentares a participarem das reuniões, alegando que o objetivo das ONGs seria “impedir o desenvolvimento do Amapá através de fake news”. A página de Rozely Martins ainda divulgou uma imagem cujo conteúdo afirma que as ONGs são responsáveis por difundir “dados científicos fabricados e materiais manipulados”.
Procurada pela reportagem, Martins afirmou que “é a favor do petróleo, mas nunca atacou nenhum ambientalista”. A ativista foi questionada a respeito de sua relação com o prefeito eleito de Oiapoque, Deputado Inácio, e também lhe foi perguntado se esteve presente na oficina de 16 de novembro de 2024 realizada pelas ONGs. Ela, porém, disse que não iria responder aos questionamentos.
Já Ariana Moraes, do movimento “O Petróleo é do Povo”, confirmou que o grupo do WhatsApp foi criado por ela e afirmou não ter nenhum vínculo político. Segundo ela, sua única intenção é contribuir para o desenvolvimento do Amapá. Ela negou ter participado das oficinas promovidas pelas ONGs em 2024.
O presidente do Instituto IAMPER, Thoni Furtado, não respondeu a questionamentos específicos da reportagem. Mas manifestou que o IAMPER defende um debate técnico “mas jamais aceitará a criminalização indireta de setores, instituições ou cidadãos que defendem soberania energética, desenvolvimento econômico e autonomia nacional”.
A OAB-AP não respondeu às tentativas de contato da reportagem.
Ataques a povos originários
A atuação dos perfis pró-petróleo nas redes sociais também passa por ataques a instituições de defesa ambiental e a comunidades indígenas que se opõem à exploração petrolífera. Em abril de 2025, durante um evento com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o cacique Raoni Metuktire defendeu que a Petrobras não explorasse a Foz do Amazonas. Segundo ele, “essas coisas, da forma como estão, garantem que a gente tenha um meio ambiente, a terra com menos poluição e menos aquecimento”. Raoni também afirmou que “já teve contato com os espíritos, que sabem dos riscos que a gente tem de continuar trabalhando dessa forma”.
Nas redes sociais, o vice-governador Teles Jr. ironizou a declaração, afirmando que as “tecnologias utilizadas [pela Petrobras] foram substituídas pelo conselho de um espírito”.
Durante a 3ª Conferência da ONU sobre os Oceanos ainda naquele ano, Raoni enviou uma mensagem ao presidente francês, Emmanuel Macron, pedindo que o mandatário se posicionasse contra a exploração de petróleo na região. A iniciativa repercutiu entre apoiadores do projeto. A respeito deste encontro, Adriana Garcia escreveu um artigo intitulado “ONGs francesas cooptaram indígenas no Brasil, tomaram nossas terras e querem nossos mares”. No texto, a autora também afirma que a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) estaria “lutando contra o país e a favor de interesses externos”.
Garcia foi procurada pela reportagem e afirmou que a fonte para esse artigo foi um “site francês” e que teve como base a postura do líder indígena em uma visita feita à França. “[Raoni] demonstrou se comportar como dono da Amazônia brasileira e como quem tem planos para nós. Como brasileiros, gostaríamos de ter autonomia para decidirmos nosso destino”. A jornalista acrescentou que, em sua visão, a vida das comunidades indígenas no Amapá não têm “o mínimo de dignidade justamente por causa de decisões que são influenciadas por outros países junto a governos brasileiros ao longo dos anos”.
Posteriormente à conferência da ONU daquele ano, o receio do cacique Raoni e de outras comunidades que dependem da floresta foram intensificados quando, em janeiro de 2026, as operações da Petrobras no bloco 59 foram interrompidas pelo vazamento de aproximadamente 18 mil litros de um óleo chamado “fluido de perfuração”. Cerca de um mês depois do incidente, a Agência Nacional do Petróleo, Óleo e Gás (ANP) autorizou a estatal a retomar a perfuração mediante o cumprimento de certas condições, e a estatal retomou a operação em março. O Ibama disse à AFP que, embora o órgão acredite que o evento não causará consequências ambientais, “não se pode descartar integralmente algum nível de dano ao ambiente, ainda que local e temporário”.
A página “Oiapoque Verdades AP” — que também apoiou a campanha de Inácio (1, 2) — publicou, em 26 de abril de 2025, um vídeo que resume o clima político no Amapá. Nele, pessoas que se identificam como moradores da cidade se posicionam a favor da exploração da Petrobras. Na legenda, a página afirma: “De um lado os moradores de Oiapoque, que em sua maioria querem a exploração do petróleo, pensando no desenvolvimento da cidade (...). Do outro lado os indígenas, que em sua maioria são contra a exploração do petróleo. Queríamos saber se realmente a preocupação deles é com a natureza ou se existe algum interesse financeiro”.
Em uma conversa com a AFP, a ativista indígena Luene Karipuna afirma que, desde que a discussão sobre a exploração de petróleo na região se intensificou, sofreu tentativas de invasão em suas redes sociais e passou a receber mensagens acusando-a de “sentar em cima das riquezas” e impedir o desenvolvimento do estado. Diante disso, ela deixou de expor sua vida pessoal e apagou imagens com famíliares.
Luene avalia que o discurso pró-desenvolvimento começou a ser usado para atacar indígenas que se opunham ao projeto da Petrobras. “É legítimo que as pessoas queiram mudar de vida e buscar melhorias para sua família. E esse sentimento começou a ser usado para atacar os povos indígenas, não só a mim. Esse discurso ficou forte todos os dias, em todas as rádios, telejornais, redes sociais".
A retórica contra os povos originários não fica restrita ao ambiente online. Segundo Luene, ela e outras lideranças indígenas da região também sentem que, desde que começaram a se opor à iniciativa, seus modos de vida e relações comunitárias foram profundamente afetadas.
“A gente [indígenas] sempre teve uma relação comercial muito forte, de venda de farinha, venda de frutas. E, quando esses caciques começaram a se posicionar, eram apontados no meio da rua: ‘Olha, é aquele cacique ali que fala contra o petróleo, é aquele cacique ali que não quer o desenvolvimento’”, afirma.
A situação levou o Conselho de Caciques dos Povos Indígenas de Oiapoque a publicar uma carta em maio de 2025, na qual o grupo acusa representantes políticos do Amapá de disseminarem desinformação sobre o projeto petrolífero e de desrespeitarem seus direitos. O comunicado cita, ainda, “perseguição e ameaça às vidas” das lideranças indígenas que atuam contra a exploração do petróleo na área.
Oleodutos de desinformação
A discussão sobre a exploração de petróleo também repercutiu em outros projetos ambientais e de interesse social no Amapá. Em 2025, aconteceu uma mobilização nas redes sociais de ativistas e políticos contra a criação de reservas extrativistas marinhas (Resex) na costa do estado, algo que era reivindicado por pescadores de Oiapoque desde 2006.
A proposta apresentada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) visava criar quatro unidades de conservação que ficariam restritas à faixa costeira, entre 130 km e 447 km de distância do bloco FZA-M-59. O projeto passou a ser criticado por políticos e ativistas sob a alegação de que impediria a exploração de petróleo e os projetos de infraestrutura da Petrobras.
Em abril de 2025, quando o ICMBio marcou audiências públicas para discutir o tema, o vice-governador Teles Jr, acusou o órgão de mentir e outros políticos como o senador Lucas Barreto e Delegado Inácio (1, 2) incentivaram a população a se posicionar contra a iniciativa.
Na mesma época, a criação da Resex foi apontada como um “atentado” contra o desenvolvimento do estado em nota publicada pelo IAMPER, pela OAB-AP e pela ex-deputada Silvia Nobre Waiãpi, que acusaram o ICMBio de “manipular a população” e “inviabilizar” o projeto petrolífero. Já o perfil “Exploração de Petróleo no Amapá” compartilhou uma petição contra as reservas, que, segundo a legenda do post, também foi promovida em um evento da OAB-AP.
Diante da pressão, as consultas públicas foram adiadas e não há previsão de nova data. O ICMBio justificou que a decisão foi motivada por uma “intensa campanha de desinformação e inverdades”.
Procurado pela AFP, o instituto informou que as Resex “não incidem sobre os blocos destinados à exploração de petróleo nem sobre as áreas previstas para instalação das estruturas offshore, em razão da distância entre os projetos”. O órgão destacou ainda que o país já possui unidades de conservação marinhas e costeiras que coexistem com atividades de exploração de petróleo e gás, como o Parque Nacional do Albardão, no Rio Grande do Sul.
Procurada pela reportagem, a Petrobras afirmou que não iria comentar sobre este tópico.
Outra discussão que ganhou força nas redes diz respeito à presença de recifes na Foz do Amazonas. Um estudo conduzido por pesquisadores de universidades brasileiras e internacionais, publicado na revista Science em 2016, identificou um extenso sistema de recifes na região a uma profundidade de 30 e 120 metros.
Denominado Grande Sistema de Recifes da Amazônia (GARS, na sigla em inglês), a estrutura foi descrita pela primeira vez em 1977. Nela, cientistas registraram espécies de corais, esponjas, ouriços, peixes recifais, além de outros organismos. Isso significa que a estrutura serve de habitat para diferentes espécies, muitas delas importantes para a atividade pesqueira.
Apesar dos registros na literatura científica, a diretora da Petrobras, Sylvia Anjos, afirmou em outubro de 2024 que a presença de corais na região seria uma “fake news científica” e que a estatal teria encontrado apenas “rochas carbonáticas, semelhantes a corais”.
A declaração foi contestada por pesquisadores e ativistas. Thomás Nei Soto Banha, doutorando no Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador do tema, afirmou em entrevista à AFP que, embora os corais não sejam predominantes no GARS, a fala de Anjos contraria evidências científicas acumuladas ao longo dos últimos anos. “O recife difere de um coral, já que o recife pode ser uma formação de origem animal ou não. Ele pode ser um recife rochoso, um recife artificial, por exemplo. O recife da Foz do Amazonas é formado majoritariamente por outros organismos que não corais, embora saiba-se que existem os registros de alguns corais na região”.
“Diversos pesquisadores já mostraram que existe um ambiente recifal. Ele está se desenvolvendo, está crescendo, chega luz suficiente ao fundo e há organismos dependentes de luz vivendo ali. O melhor que eu posso dizer é que essa fala [da diretora da estatal] foi negacionista, porque nós temos evidências científicas”, afirmou.
Em reuniões com comunidades do Amapá, a Petrobras não confirmou nem negou a existência de recifes na região, de acordo com um estudo da pesquisadora Marina Kuzuyabu, que analisou as atas dos encontros para investigar a circulação de desinformação. Segundo os registros, ao ser questionada sobre a existência de projetos de conservação para esses ecossistemas, uma representante da empresa afirmou que foram realizadas inspeções no fundo do oceano e que, no entorno do poço, foram identificados apenas “sedimentos lamosos”.
Procurada pela AFP, a Petrobras declarou que realizou uma série de estudos para “minimizar possíveis impactos” e que “na área das perfurações, em profundidade maior do que 2000 metros, não há indicação da presença de corais tampouco outros organismos presentes em formações biogênicas no fundo”.
Segundo Banha, a declaração da Petrobras está parcialmente correta, já que o GARS se encontra em profundidades menores do que a mencionada pela estatal. “A informação é, em parte, correta. Nessa profundidade não existem corais, pelo menos não os corais de águas rasas que conhecemos. Pode ser que existam corais de profundidade, mas essa é uma informação que ainda não temos”. O pesquisador ressalta, porém, que estudos já indicaram possíveis impactos da atividade petrolífera sobre o ecossistema, principalmente em caso de vazamento.
Já nas publicações da página “Exploração de Petróleo no Amapá”, a descoberta do GARS foi associada exclusivamente à organização Greenpeace — apesar dos estudos sobre os recifes envolverem diversas universidades e instituições. Os conteúdos alegam que o Ibama, ao negar a licença para a Petrobras, estaria “dando crédito” à ONG e “desprezando estudos científicos realizados com rigor por meio de navios oceanográficos”.
Nessas postagens, o geólogo Luis Ercilio Faria é citado como o especialista que “desmente” a tese do Greenpeace. Em uma entrevista ao site Petronotícias em outubro de 2024, ele disse que o estudo de 2016 é uma “tentativa de impor uma ideia manipulada”.
No mesmo ano, Faria viralizou nas redes sociais ao declarar, durante um evento de produtores rurais, que a floresta amazônica não interfere no clima global. A gravação também foi compartilhada por movimentos pró petróleo (1, 2). Na época, o Checamos mostrou que a alegação carece de fundamentação e que a Amazônia é, sim, fundamental para a regulação do clima no mundo.
Para a pesquisadora Kuzuyabu, o assédio e a desinformação estão relacionados a um discurso maniqueísta: “A Petrobras fala que [a exploração no Amapá] é necessária para trazer o desenvolvimento para a região. E isso é muito repetido pelos políticos locais, como se não existisse outro caminho”.
As promessas de enormes ganhos financeiros às custas da exploração ambiental não são novidade no Amapá. Nos anos 1950 a 1990, a exploração de manganês na Serra do Navio foi o grande motor econômico da região, deixando um legado de infraestrutura abandonada e problemas ambientais após o esgotamento das minas. Anos depois, a construção de grandes hidrelétricas também não foi capaz de reverter um cenário de problemas estruturais profundos no estado, onde somente 12% das residências têm acesso à rede de esgoto.
Para além de um ceticismo com relação às promessas de grandes avanços socioeconômicos advindos do petróleo, existe uma parcela da população local que tem outra definição para a palavra “desenvolvimento”.
“As comunidades ali são muito ligadas ao território, existe uma conexão muito forte com a natureza. (...) A Petrobras fala de desenvolvimento, de geração de empregos. Mas as pessoas falam: ‘Bom, mas que desenvolvimento é esse que não leva em consideração o meio-ambiente’? Como é que vai ser para os meus filhos? E o que é que vai ficar para os meus netos?”.
Copyright © AFP 2017-2026. Qualquer uso comercial deste conteúdo requer uma assinatura. Clique aqui para saber mais.
