É falso um alerta de mega terremoto em setembro no Brasil; tremores não podem ser previstos com antecedência

  • Publicado em 2 de julho de 2026 às 22:14
  • 5 minutos de leitura
  • Por Laura ABREU

Após dois terremotos devastadores atingirem a Venezuela, em 24 de junho de 2026, e estados do Brasil sentirem o tremor, publicações nas redes sociais compartilham um suposto alerta com a previsão de um mega terremoto de magnitude 8.9 em setembro no Brasil. Mas a alegação, que acumula mais de 6 mil interações, é falsa: o conteúdo cita uma fonte inexistente e é consenso científico que não é possível prever um terremoto. 

“ALERTA MÁXIMO MEGA TERREMOTO MAGNITUDE 8.9”, lê-se em uma imagem que circula no Instagram, no Facebook e no TikTok

O conteúdo ainda alega que o suposto mega terremoto estaria com a data prevista para 18 de setembro de 2026, que atingiria as regiões norte, nordeste e sudeste do Brasil e que causaria um recuo no mar de 800 quilômetros e um tsunami de 18 metros. 

No X circula um vídeo em que é possível observar uma versão maior da imagem viral com outras informações, como os recursos operacionais que supostamente seriam utilizados e um plano de contingência do governo federal. 

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Captura de tela feita em 30 de junho de 2026 de uma publicação no Facebook (.)

O conteúdo passou a circular nas redes sociais após dois terremotos devastadores atingirem a Venezuela, em 24 de junho de 2026, e deixarem milhares de mortos e dezenas de milhares de desabrigados. 

A tragédia mobilizou 27 países que enviaram cerca de 40 equipes de busca e resgate para o país. 

Os terremotos foram sentidos no Brasil nos estados do Pará, Amazonas, Roraima e Amapá.

No entanto, é falso o alerta viral de um suposto terremoto previsto para setembro no Brasil. 

Fonte inexistente, alerta falso 

Em uma das publicações virais, é identificado que a fonte da alegação é o Sistema Nacional de Monitoramento de Alerta. Entretanto, esse órgão não existe, como mostrou uma busca no Google pelo mesmo nome. 

A pesquisa trouxe somente um órgão com nome similar, o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Contatado pelo AFP Checamos, o centro respondeu que não é responsável pelo monitoramento de terremotos.

No Brasil, os alertas de emergências e desastres naturais são enviados pela Defesa Civil através de mensagens sonoras para os celulares da população. Uma busca nas redes sociais (1, 2, 3) e no site do órgão não identificou avisos sobre um mega terremoto previsto para setembro. 

Em contato com o AFP Checamos em 30 de junho, a assessoria do Ministério do Desenvolvimento Regional, pasta da qual a Defesa Civil Nacional faz parte, afirmou que “não é possível prever a ocorrência de eventos com essa antecedência”

A Rede Sismográfica Brasileira (RSBR), um projeto coordenado pelo Observatório Nacional e com apoio do Serviço Geológico do Brasil (SGB), é responsável pelo monitoramento dos tremores de terra no país. 

Tampouco foram identificados alertas sobre um mega terremoto no país nas redes sociais (1, 2, 3) e no site da RSBR. 

Não é possível prever um terremoto

Ao Checamos, Gilberto Leite, sismólogo do Observatório Nacional e da RSBR, explicou que não há métodos capazes de identificar a data, hora, local ou magnitude de um terremoto com antecedência. 

“Embora seja possível identificar regiões com maior potencial para atividade sísmica ao longo de décadas ou séculos, ainda não há indicadores confiáveis que permitam determinar exatamente quando um terremoto ocorrerá. Essa limitação é reconhecida pela comunidade científica internacional e vale para todos os países, inclusive aqueles com intensa atividade sísmica, como Japão, Chile e Estados Unidos”, explicou. 

Os terremotos acontecem quando a energia acumulada por anos e décadas, devido ao movimento de placas tectônicas, é liberada rapidamente nas falhas geológicas das placas. A maioria dos sismos não possuem eventos precursores. 

A diferença entre a rapidez com que essa liberação de energia ocorre e o tempo de acumulação do estresse em uma placa, que pode durar milênios, faz com que não seja possível prever um terremoto. A impossibilidade de prever este tipo de evento é reforçada também pelo site do Serviço Geológico dos Estados Unidos.

Em contrapartida, é possível afirmar que um terremoto de magnitude de 8.9 na escala Richter não é um “cenário plausível para o contexto geológico do Brasil”, como destaca Leite.  

Os terremotos ocorrem principalmente ao longo das bordas das placas tectônicas. Como o Brasil está situado no interior da Placa Sul-Americana, longe dessas zonas, não costuma registrar grandes terremotos.

“Os eventos registrados no território brasileiro são, em sua maioria, intraplaca (movimentações internas da própria placa) e resultam da reativação de falhas geológicas, liberando quantidades de energia muito menores do que aquelas observadas nos grandes terremotos que ocorrem em zonas de bordas de placas, como no Chile ou no Japão”, disse Leite ao reafirmar que a alegação viral “não encontra respaldo no conhecimento científico atual”

O terremoto mais forte registrado no Brasil aconteceu em 1955 na Serra do Tombador, no Mato Grosso, com magnitude de 6,2 na escala Richter. Esse tremor foi causado por movimentações intraplaca e é o maior registrado por uma falha no próprio território brasileiro. 

Segundo o Serviço Geológico Brasileiro, terremotos com magnitude maior que 7,0 devem ocorrer uma vez a cada 500 anos no Brasil.

Características citadas no conteúdo viral são improváveis 

No vídeo compartilhado no X em que um homem narra a imagem viral, as explicações apresentadas tampouco são verossímeis. 

O autor do conteúdo afirma que o epicentro — local de início de um terremoto — do suposto mega terremoto será no Oceano Atlântico e a cerca de 50 quilômetros da costa do norte do país. 

Leite rechaça a alegação e diz que o limite entre as placas Sul-Americana e Africana está a mais de mil quilômetros da costa brasileira, localizado na dorsal mesoatlântica e aproximadamente no meio do Oceano Atlântico. 

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(AFP)

A alegação de que o mega terremoto causaria um recuo no mar de 800 quilômetros foi descrita como “extremamente exagerada” pelo sismólogo, que afirmou que terremotos anteriores que antecederam tsunamis causaram recuos de centenas de metros a poucos quilômetros. 

O autor do vídeo desinformativo ainda usa termos como “acionamento de carga de pressão”, “pulso eletromagnético” e “enraizamento de regiões costeiras” para explicar a ocorrência do terremoto. 

Mas esses termos tampouco fazem “parte da descrição científica dos mecanismos responsáveis pela geração ou propagação de terremotos” e a explicação apresentada não corresponde “aos processos conhecidos pela sismologia”, como avaliou o sismólogo da RSBR à AFP.  

Esse conteúdo também foi verificado por Aos Fatos e Estadão Verifica.  

O Checamos verificou outros conteúdos sobre os terremotos que atingiram a Venezuela em junho de 2026. 

Referências 

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