Operação do governo federal não dá “auxílio de R$ 7 mil” e “moradia gratuita” a refugiados muçulmanos

A guerra no Oriente Médio, iniciada em 28 de fevereiro de 2026 por ataques de Israel e dos Estados Unidos contra o Irã, já deixou mais de um milhão de deslocados na região. Neste contexto, um vídeo visualizado mais de 1,9 milhão de vezes nas redes sociais mostra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) recebendo pessoas em um aeroporto com a alegação de que o governo estaria oferecendo um auxílio mensal de R$ 7 mil e “moradia gratuita” para refugiados muçulmanos. Mas o vídeo é de 2024 e mostra brasileiros repatriados. Tampouco existe um benefício do tipo para refugiados no Brasil. 

“Presidente do Brasil recebendo muçulmanos que pediram refúgio! Irão receber 7 mil reais por mês por 6 meses pela Operação Acolhida”, diz o texto sobreposto ao vídeo compartilhado no Instagram, no Facebook, no Threads, no X, no TikTok e no Kwai.

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Captura de tela feita em 31 de março de 2026 de uma publicação no X (.)

Na sequência viral, Lula aparece recebendo várias pessoas que desembarcam de uma aeronave, algumas delas usando vestes que remetem a países islâmicos, como o hijab.

Em um vídeo sobreposto às imagens, um homem afirma que muçulmanos estariam sendo recebidos para trabalhar no Brasil, e que Lula teria dito que há “muito emprego sobrando” e que “o brasileiro não quer trabalhar”. Ele conclui afirmando que, além do suposto auxílio de R$ 7 mil, os refugiados teriam “moradia gratuita” no país.

As publicações circulam em meio à guerra no Oriente Médio, iniciada no fim de fevereiro de 2026 com ataques conjuntos de Israel e dos Estados Unidos contra o Irã. O conflito se estendeu para o Líbano no início de março, após o movimento pró-Irã Hezbollah entrar em combate com Israel em represália ao assassinato do líder supremo iraniano Ali Khamenei.

Segundo autoridades libanesas, os ataques causaram mais de um milhão de deslocados no país.

Mas a gravação, de outubro de 2024, mostra o presidente recebendo refugiados de um conflito anterior no Líbano, e o suposto “auxílio para muçulmanos” não existe no Brasil.

"Bolsa muçulmano"

No canto superior direito da gravação viral, é possível identificar o logotipo “AJ+”, do portal de notícias pertencente à rede Al Jazeera, bem como algumas frases em espanhol ao fundo. Uma busca no perfil em espanhol do portal no Instagram permitiu encontrar a publicação original, feita em 9 de outubro de 2024.

Na legenda, é indicado que o vídeo mostra Lula e a primeira-dama, Rosângela “Janja” da Silva, recebendo refugiados libaneses após o país ter sido bombardeado por Israel.

Uma busca reversa por fragmentos da filmagem no Google conduziu aos vídeos publicados pelos canais de Lula e da Presidência da República na ocasião (1, 2). Nas gravações, o mandatário defende a paz e a união entre países e não faz menção a questões de trabalho.

Além disso, segundo publicações do governo federal, as pessoas recepcionadas por Lula e pela primeira-dama na gravação eram brasileiros repatriados do Líbano.

Em outubro de 2024, o Líbano vivia outro conflito contra Israel, iniciado em setembro daquele ano, quando um bombardeio israelense próximo a Beirute matou Hassan Nasrallah, então líder do Hezbollah.

Além disso, apesar de refugiados e migrantes poderem ter acesso a auxílios como o Bolsa Família, não existe o suposto benefício mensal de R$ 7 mil voltado a muçulmanos refugiados no Brasil.

A Operação Acolhida, citada pelas publicações, foi criada em resposta ao intenso fluxo migratório na fronteira entre Brasil e Venezuela, em Roraima, e é voltada especificamente à “realocação voluntária” de refugiados venezuelanos.

O Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS) confirmou ao Checamos, em 31 de março de 2026, que “não há, no Brasil, qualquer operação específica voltada à recepção de pessoas com base em religião”, tampouco um auxílio de R$ 7 mil “ou garantia de moradia gratuita” para refugiados por parte do governo federal.

“As políticas públicas voltadas a migrantes e refugiados no Brasil seguem critérios legais e humanitários, assegurando acesso a serviços públicos e oportunidades de integração, sem concessão de benefícios dessa natureza”, declarou a pasta.

O AFP Checamos já verificou outras alegações relacionadas à guerra no Oriente Médio.

Referências

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