Imagem de funeral de meninas vítimas de ataque em escola iraniana foi gerada por IA
- Publicado em 16 de março de 2026 às 18:19
- 4 minutos de leitura
- Por Lucía DIAZ, AFP Espanha
- Tradução e adaptação AFP Brasil
Pouco depois do início da guerra no Oriente Médio em 28 de fevereiro de 2026, uma explosão em uma escola de meninas no sul do Irã deixou mais de 150 mortos. Desde então, publicações que somam mais de 7,5 mil interações nas redes sociais compartilham uma fotografia de dezenas de corpos cobertos com lençóis, acompanhados de flores e fotografias de meninas. Mas a imagem foi criada com inteligência artificial (IA), como a AFP pôde comprovar a partir de uma análise visual, ferramentas de detecção e ajuda de especialistas.
“O velório coletivo das 160 meninas mortas no ataque de Israel ao Irã, com os corpos envoltos em mortalhas brancas, cada um acompanhado por fotografias e flores, enquanto familiares se despedem em meio à dor e ao luto. Uma cena devastadora que expressa a dimensão humana de uma tragédia”, diz uma das publicações compartilhadas no Facebook, no Instagram, no Bluesky e no X.
A imagem também foi divulgada por portais de notícias (1, 2, 3), e circula com alegações similares em inglês, francês, espanhol, grego, holandês, polonês, romeno e eslovaco.
O conteúdo também foi compartilhado por Zarah Sultana, membro do Parlamento britânico pelo partido Your Party, sem indicar que a imagem era gerada por IA.
Em 28 de fevereiro de 2026, depois que os Estados Unidos e Israel começaram a guerra contra o Irã, as autoridades iranianas afirmaram que um bombardeio causou a morte de mais de 150 pessoas em uma escola de ensino fundamental em Minab, no sul do país. Nem norte-americanos nem israelenses confirmaram o ataque, e a AFP não conseguiu acessar o local para verificar as informações.
Segundo investigações do The New York Times e da Reuters, o incidente poderia decorrer de um erro de coordenadas durante um ataque dos Estados Unidos contra uma base naval iraniana adjacente ao prédio da escola.
O alto-comissário do Escritório de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU), Volker Turk, exigiu uma “investigação rápida, imparcial e completa” das circunstâncias do episódio. A porta-voz do escritório, Ravina Shamdasani, enfatizou a jornalistas que bombardeios de instalações civis podem ser considerados “crimes de guerra”.
O presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, declarou que o país não permanecerá “em silêncio” após este e outro ataque ocorrido um dia depois contra um hospital. Por sua parte, o chefe da diplomacia norte-americana, Marco Rubio, disse que os Estados Unidos não atacariam“deliberadamente” uma escola e que o Pentágono investigava o incidente.
No entanto, a imagem viralizada não é um registro do funeral das mais de 150 vítimas do ocorrido, e foi criada com inteligência artificial.
Imagem de IA
As fotografias do funeral publicadas pela agência de notícias iraniana ISNA e por veículos internacionais como a agência Anadolu, e que foram divulgadas pela AFP, mostram um cenário diferente do exibido na imagem viral.
“Obviamente é uma imagem falsa”, afirmou à AFP Shu Hu, autor de investigações sobre IA e doutor em Ciência da Computação e Engenharia pela Universidade de Buffalo, nos Estados Unidos, em 6 de março de 2026. Segundo o especialista, isso pode ser comprovado ao observar o nariz “distorcido” em uma das fotos das meninas e a direção das sombras, que não são “coerentes” — apontadas para baixo nas flores e para cima nos porta-retratos.
Siwei Lu, diretor do Laboratório Forense de Mídia da Universidade de Buffalo e professor distinto da Universidade Estadual de Nova York, concordou com Hu a respeito do “nariz pixelado” em um dos retratos. Ele também apontou à AFP, em 6 de março, outros indícios de que a ilustração tenha sido “gerada com IA”, como “retratos duplicados” e a densidade “antinatural” da perspectiva.
Além disso, “rostos distorcidos” nas fotografias e “o número de quadros por fila” — podem ser vistos “três quadros no mesmo corpo” — são elementos que chamaram a atenção de Javier Huertas, membro do grupo de processamento de linguagem natural e Deep Learning (NLP-DL) da Universidade Politécnica de Madri. Tais indícios, conforme ele declarou à AFP em 5 de março, apontam para o uso de IA na criação da imagem.
Para Huertas, a “baixa resolução” da imagem sugere “uma manobra deliberada para mascarar que é IA”, pois impede a distinção de outras inconsistências comuns em imagens sintéticas, como o formato das mãos.
Ferramentas como o detector Hive Moderation e o plugin de verificação InVID-WeVerify apontaram uma alta probabilidade de que a ilustração tenha sido criada com inteligência artificial: 99,9% e 71%, respectivamente. Já o detector AI or Not indicou que o conteúdo “provavelmente é um deepfake”.
O AFP Checamos já verificou outras alegações sobre a guerra no Oriente Médio em 2026.
Referências
Copyright © AFP 2017-2026. Qualquer uso comercial deste conteúdo requer uma assinatura. Clique aqui para saber mais.
