Vídeo de veículo policial blindado alvejado em comunidade no Rio foi gerado com inteligência artificial

  • Publicado em 5 de junho de 2026 às 19:46
  • 3 minutos de leitura
  • Por AFP Brasil

As facções criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) foram classificadas como organizações terroristas pelo governo dos Estados Unidos em 29 de maio de 2026. Desde então, uma gravação que parece mostrar um veículo blindado sendo alvejado em uma comunidade do Rio de Janeiro foi visualizada mais de 6 milhões de vezes em publicações que argumentam a favor da medida nas redes sociais. Mas o vídeo viral foi gerado com inteligência artificial (IA). As facções não se enquadram no conceito de organização terrorista estabelecido pela legislação brasileira.

“Para o governo Lula e aliados, isso aí não é terrorismo”, diz o texto sobreposto a uma das publicações compartilhadas no Facebook, no Instagram e no X. A suposta cena também circula em publicações semelhantes no YouTube, no TikTok, no Kwai e no Telegram.

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Captura de tela feita em 1º de junho de 2026 de uma publicação no Instagram (.)

Na cena viralizada, um veículo blindado com a inscrição “polícia” na lateral é atingido por uma sequência de disparos em uma rua asfaltada. Ao fundo, uma pessoa diz: “Meu Deus do céu, olha isso”. Em algumas postagens, é detalhado que a gravação teria sido feita durante uma operação policial em uma comunidade do Rio de Janeiro.

As publicações compartilham o vídeo após a designação do Primeiro Comando da Capital e do Comando Vermelho como organizações terroristas pelo governo dos Estados Unidos, em 28 de maio de 2026. 

A medida, celebrada pelo senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL), foi criticada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que enxerga na classificação uma possível ameaça à soberania do país.

No entanto, o conteúdo viral não é um registro autêntico da atuação de uma facção criminosa no Rio de Janeiro.

Vídeo gerado por IA

O vídeo compartilhado por algumas publicações exibe a marca d’água do MindVideo, programa que permite a criação e edição de conteúdos com inteligência artificial.

Uma análise dos detalhes gráficos da gravação encontra inconsistências que apontam para o uso de IA, como o suposto veículo blindado, que apenas exibe a marcação “polícia”. Os verdadeiros blindados utilizados pelas polícias Civil e Militar apresentam ao menos uma forma de identificação, seja através do nome escrito nas laterais ou do brasão da respectiva corporação.

Contactada pelo AFP Checamos em 1º de junho de 2026, a assessoria de comunicação da Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro confirmou que “o veículo exibido no conteúdo não corresponde aos modelos utilizados pelas forças policiais do Estado”.

Além disso, o som dos disparos não se encaixa perfeitamente com as imagens dos projéteis que atingem o carro blindado, e o cenário é composto por estruturas genéricas, como o letreiro de um estabelecimento que diz apenas “Mercearia”.

Uma análise do vídeo com a ferramenta Hive Moderation, que detecta conteúdos sintéticos, indicou 89,6% de probabilidade de o conteúdo ter sido gerado por IA.

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Captura de tela feita em 1º de junho de 2026 de uma análise do Hive Moderation. Símbolo de inteligência artificial (Ai) acrescentado pela AFP (.)

Facções criminosas x organizações terroristas

As publicações virais argumentam que a gravação evidenciaria a violência perpetrada pelas facções contra as forças policiais, o que justificaria a designação desses grupos como organizações terroristas. 

No entanto, no Brasil, o terrorismo é definido pela Lei Antiterrorismo como uma prática cometida “por razões de xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia e religião”, com o objetivo de “provocar terror social ou generalizado”.

À AFP, o delegado Luciano Flores, da diretoria de Cooperação Internacional da Polícia Federal, afirmou que o PCC e o CV "não se enquadram na lei que tipifica as organizações terroristas" e que, portanto, são entendidos como “organizações criminosas com atuação internacional”.

A classificação das facções criminosas como organizações terroristas foi discutida e rejeitada no Congresso Nacional, em meio às tratativas do PL Antifacção — projeto aprovado e sancionado por Lula em março de 2026.

O relator da proposta no Senado, Alessandro Vieira (MDB) afirmou que “essas facções não têm a característica necessária de componente político e ideológico no seu objetivo”, que seria apenas financeiro. Ele acrescentou que o PL Antifacção estabelecia penas superiores para organizações criminosas àquelas já existentes para terroristas.

A designação feita pelo governo norte-americano levantou preocupações para especialistas em Direito consultados pela imprensa nacional, que citam possíveis riscos operacionais e impactos sobre empresas brasileiras.

Referências

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