Placa vista na entrada da sede da Agência Europeia de Medicamentos (EMA) em Amsterdã, em 11 de junho de 2021 ( AFP / François Walschaerts)

Fala de responsável da EMA sobre vacinação anticovid e imunidade foi tirada de contexto

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Segundo publicações compartilhadas mais de 1,5 mil vezes nas redes sociais, o chefe de Estratégias de Vacinas da Agência Europeia de Medicamentos (EMA) alertou em 11 de janeiro de 2022 que os repetidos reforços das vacinas contra a covid-19 poderiam “enfraquecer o sistema imunológico”. Mas esta é uma interpretação incorreta do que ele disse, indicou a EMA à AFP. Por enquanto, os dados não permitem afirmar que mais doses de reforço teriam um impacto negativo na imunidade, segundo especialistas consultados.

“OMS E EMA DECLARAM: DOSES DE REFORÇOS PODEM DANIFICAR O SISTEMA IMUNOLÓGICO”, dizem publicações compartilhadas no Facebook (1, 2, 3), no Instagram (1, 2) e no Twitter (1, 2) desde 12 de janeiro de 2022.

Alguns sites (1, 2) também replicaram essa alegação, assim como mensagens em francês (1) e em espanhol (1).

Captura de tela feita em 19 de janeiro de 2022 de uma publicação no Facebook ( . / )

Essas alegações começaram a circular após uma entrevista coletiva realizada em 11 de janeiro de 2022 pela Agência Europeia de Medicamentos (EMA, na sigla em inglês) sobre a evolução da pandemia de covid-19 e as possíveis respostas sanitárias.

Marco Cavaleri, chefe de Estratégias de Vacinas da EMA, falou sobre as doses de reforço contra a covid-19 no início da coletiva: “Estão surgindo debates sobre a aplicação de uma segunda dose de reforço [o que corresponderia a uma quarta dose] com as vacinas atualmente utilizadas. Ainda não há dados para embasar essa abordagem. Embora um reforço adicional pudesse ser considerado como uma estratégia de emergência temporária, a vacinação repetida em um curto espaço de tempo não seria uma estratégia sustentável em longo prazo”.

Posteriormente, Cavaleri foi questionado se isso significaria que “nós poderíamos desenvolver uma resistência a um grande número de doses aplicadas em um curto período de tempo”.

A isso, o chefe de Estratégias de Vacinas respondeu: “Há aqui duas preocupações. Se tivermos uma estratégia onde damos reforços, digamos, a cada quatro meses, mais ou menos, acabaremos, potencialmente, tendo problemas com a resposta imunológica, e a resposta imunológica pode acabar não sendo tão boa quanto gostaríamos. Portanto, é preciso ter cuidado para não sobrecarregar o sistema imunológico com vacinações repetidas. E, em segundo lugar, é claro, há o risco de fadiga na população com a administração contínua de doses de reforço”.

“Resposta imunitária” e “sistema imunológico”

Foi a primeira parte desta resposta que causou muitas reações nas redes sociais, com alguns usuários indicando que Cavaleri teria dito que as doses de reforço poderiam “enfraquecer” ou “danificar” o sistema imunológico.

Na verdade, Cavaleri não se referiu a um enfraquecimento geral do sistema imunológico em razão da quantidade de doses de reforço em um curto intervalo de tempo, mas a uma possível diminuição da resposta imunológica gerada pela vacina contra o SARS-CoV-2, ou seja, a forma como o corpo reagiria em caso de infecção.

“Parece que um jornalista entendeu mal os comentários do doutor Cavaleri e, como resultado, infelizmente, publicou informações incorretas. O doutor Cavaleri nunca disse ou insinuou que doses de reforço repetidas poderiam ‘enfraquecer o sistema imunológico’. O que ele disse foi que a administração repetida de doses de reforços poderia levar a uma diminuição da resposta imunológica (...) o que significa que as vacinas poderiam se tornar menos efetivas”, indicou a EMA à equipe de checagem da AFP em 13 de janeiro de 2022.

Qual mecanismo pode explicar uma “diminuição da resposta imunológica”?

Questionada sobre o mecanismo fisiológico que poderia fazer com que a resposta imunológica “não fosse tão boa quanto poderia ser” no caso das doses de reforço mais frequentes, a EMA declarou que “as imunizações frequentes e repetidas com o mesmo antígeno poderiam limitar a maturação da resposta imunológica e resultar em uma resposta que não seria tão boa, inclusive por memória celular.

Em outras palavras, por meio de repetidas doses de reforço expondo o organismo ao mesmo antígeno, ele poderia ficar potencialmente “dessensibilizado”, ou seja, sem reconhecer o vírus como estranho e perigoso, explicou à AFP Frédéric Altare, diretor de pesquisa do Instituto Nacional de Saúde e Pesquisa Médica (Inserm) da França.

“Antes de tudo, devemos lembrar que o sistema imunológico está lá para diferenciar ‘ele mesmo’ do ‘estranho’. O ‘ele mesmo’ são todas as células do nosso corpo que ele não deve atacar e, portanto, aprendeu a reconhecer como tal desde o nosso nascimento. Quando as ataca, há um problema nesse reconhecimento incorreto, o que é chamado de doença autoimune”, indicou o pesquisador em Imunologia.

“Diante de todas as outras coisas que o sistema imunológico encontra que ele considera não fazer parte do ‘ele mesmo’, ele desencadeia um ataque para livrar o nosso corpo”. Isso inclui “todas as células em nosso corpo que se tornaram anormais, como células cancerígenas, por exemplo, e que devem ser removidas, e todos os agentes infecciosos ou alérgenos”, continuou o pesquisador.

Tradicionalmente, o objetivo das vacinas é treinar o organismo para se defender de agentes infecciosos, administrando uma forma atenuada ou inativada dos mesmos, ou alguns de seus componentes menos perigosos, para prepará-lo para um possível contato com o vírus.

Elas funcionam como uma “isca” para o sistema imunológico, permitindo que ele desenvolva anticorpos e células imunitárias que manterá na memória para se proteger de forma mais efetiva em um confronto “real” com o vírus, descreve o site Inserm.

O caso das vacinas de RNA mensageiro (mRNA), como as da Pfizer e da Moderna, funciona de maneira diferente. Com essa técnica, não é o vírus em sua forma atenuada que é aplicado, mas sim a informação, na forma de moléculas de RNA, permitindo a produção de antígenos (proteínas) do patógeno.

Assim, os imunizantes tornam possível a produção desses fragmentos diretamente pelas células do indivíduo vacinado. E o objetivo é o mesmo de outros tipos de vacinas: “treinar” o corpo para gerar uma resposta imunológica caso haja contato com o vírus.

“O que permite ao sistema imunológico aprender a distinguir ‘ele mesmo’ do ‘estranho’' é, entre outras coisas, a frequência com que ele se depara com esta ‘coisa’ ou célula no corpo. Efetivamente, ele se depara com as nossas células o tempo todo e acaba se dessensibilizando e perde a vontade de combatê-las”, continuou Altare.

Esse princípio de “dessensibilização” é utilizado especialmente no tratamento de pessoas alérgicas, que são submetidas a repetidos contatos com o alérgeno ao qual são sensíveis, como assinalou o pesquisador do Inserm: “Forçado a vê-lo regularmente, o sistema imunológico acabará entendendo que esse alérgeno é parte do ‘ele mesmo’ e não será mais ativado quando for encontrado”.

Segundo Altare, esse foi o tipo de fenômeno que Marco Cavaleri quis mencionar em sua fala: “O medo suscitado pela EMA, na minha opinião, é esse risco potencial se os intervalos das doses de reforço continuarem a ser encurtados. Para que uma dessas doses continue sendo um reforço e não fique ‘dessensibilizada’, ela não deve ser aplicada muito rápido em relação à dose anterior”.

“Ainda estamos muito longe disso”, disse, e lamentou que “a EMA não tenha explicado mais precisamente”, deixando espaço para interpretações equivocadas, inclusive as que indicam que “a vacina enfraquece a resposta imunológica”.

Questionado sobre a necessidade de aplicar doses de reforço da vacina contra a covid-19 na população em geral, Rafael Máñez Mendiluce, chefe do serviço de cuidados intensivos do Hospital Universitário de Bellvitge, na Espanha, disse à AFP, em 19 de janeiro de 2022: “Eu acho que chegou o momento em que teremos que analisar muito mais qual é a resposta de cada pessoa, tanto às vacinas quanto às infecções, individualizar”.

“Temos que ter consciência de que podem ter pessoas e, sobretudo, pacientes imunodeprimidos [nos quais] a vacina vai durar um mês. Não sei se faz sentido que a cada mês estejamos vacinando-os porque podemos ter o efeito contrário do ponto de vista imunológico. Podemos conseguir uma certa anergia e o organismo não responderá às vacinas, fazendo com que não conseguíssemos que tivessem benefício”, disse Máñez Mendiluce.

Uma suposição ainda não confirmada

Essa hipótese, de fato, ainda não foi confirmada. Os dados relativos às doses de reforço, por sua vez, têm mostrado que a cada aplicação foram desenvolvidos mais anticorpos do que nas aplicações anteriores, como Marco Cavaleri indicou na coletiva.

Sandrine Sarrazin, pesquisadora do Centro de Imunologia de Marselha-Luminy, confirma: “O que vimos com a terceira dose é que a resposta imunológica é multiplicada, ainda mais do que com a segunda dose”.

“Até agora, as vacinas foram produzidas contra a cepa original de Wuhan. Entretanto, à medida que avançamos, a chamada proteína ‘spike’, à qual a resposta é dirigida, sofre mutações, e os anticorpos não a reconhecem tão bem. Nós podemos compensar essa perda de efetividade de reconhecimento, que chamamos de ‘perda de afinidade’, aumentando o nível de anticorpos. É por isso que fazemos o reforço. E, de acordo com os dados que temos, ele funciona”, continuou a pesquisadora.

De acordo com um estudo publicado em 8 de dezembro de 2021 no New England Journal of Medicine sobre mais de 850 mil pessoas com mais de 50 anos em Israel, uma terceira dose da vacina Pfizer-BioNTech evita 90% dos óbitos relacionados à variante delta.

Segundo Sarrazin, “deve-se ter cuidado nos dois sentidos”, pois pode ser que o aumento no número de doses de reforço também aumente a taxa de anticorpos e, com isso, a proteção contra o vírus, tendo em vista os dados sobre as primeiras doses de reforço.

Isso porque, para a pesquisadora, antes de mencionar a possibilidade de que as repetidas doses de reforço podem enfraquecer a resposta imunológica, Marco Cavaleri “deveria ter acrescentado, ou dito inicialmente, que não sabemos se o reforço repetido pode impactar a resposta imunológica às vacinas e, portanto, é melhor ser cauteloso antes de recomendá-lo em larga escala, e esperar pelos resultados dos ensaios clínicos e dados da vida real, como em Israel, que iniciou a campanha da quarta dose, para decidir fazê-lo em larga escala”.

Mulher recebe dose de reforço da vacina da Pfizer contra a covid-19 em Jacarta, em 12 de janeiro de 2022 ( AFP / Adek Berry)

Em 13 de janeiro, a EMA explicou à AFP a declaração de Marco Cavaleri, acrescentando que, “além do cansaço da população previsto, do ponto de vista científico, o reforço repetido é uma abordagem para a qual não há muitas experiências com outras vacinas e, portanto, certas considerações devem ser levadas em conta. As futuras estratégias de vacinação precisarão ser cuidadosamente elaboradas, com o envolvimento dos interessados no mundo todo e levando em conta todas as novas evidências que estão sendo geradas constantemente”.

“Não há estudos em humanos com doses de reforço tão próximas. Até agora, não havia motivo para testar essa hipótese”, continuou Sarrazin.

Mas ela acrescenta que “não há nenhum fundamento imunológico experimental para afirmar que o sistema imunológico pode ser enfraquecido devido às doses de reforço. Nada funciona pior com os reforços repetidos. O sistema imunológico é constantemente estimulado a cada momento, a vacina é apenas um estímulo entre milhares”.

Algumas publicações ainda citam que a Organização Mundial de Saúde teria dado uma declaração no mesmo sentido de enfraquecimento do sistema imunológico devido às doses de reforço. Uma busca, contudo, não mostrou qualquer declaração semelhante.

Em um documento atualizado em 22 de dezembro de 2021, a OMS assinalou que os estudos feitos até aquele momento mostravam uma resposta imunológica forte depois do reforço “atingindo ou melhorando os níveis máximos de anticorpos após a série de imunização primária”. No entanto, é necessário obter mais dados para saber a sua duração.

Em 11 de janeiro de 2022, especialistas da organização apontaram a necessidade de atualizar a composição das vacinas atuais “a fim de garantir que continuem a fornecer os níveis de proteção recomendados pela OMS contra a infecção e a doença” sem a necessidade de reforços reiterados.

Esta verificação foi realizada com base em informações científicas e oficiais sobre o novo coronavírus disponíveis na data desta publicação.

20 de janeiro de 2022 Corrige concordância no título
VACINAS COVID-19