Fotomontagem com pedaços de frango circula falsamente como prova de canibalismo nos arquivos Epstein
- Publicado em 26 de fevereiro de 2026 às 19:23
- 4 minutos de leitura
- Por Cintia NABI CABRAL, AFP França, AFP Oriente Médio e Norte da África
- Tradução e adaptação AFP Brasil
O Departamento de Justiça dos Estados Unidos (DoJ, na sigla em inglês) publicou, em 30 de janeiro de 2026, mais de três milhões de documentos relacionados ao criminoso sexual Jeffrey Epstein, que revelam a amplitude de sua rede de relacionamentos. Desde então, publicações que alegam que uma imagem de um suposto bebê entre pedaços de frango, divulgada pelo DoJ, seria uma evidência de atos de canibalismo cometidos pelo financista acumulam mais de 25 mil interações nas redes sociais. Mas isso é falso: trata-se de uma montagem feita por um fotógrafo e destinada a publicações vegetarianas.
“Uma imagem editada dos arquivos de Epstein mostra o que parece ser um bebê entre dois pedaços de frango”, diz uma das publicações compartilhadas no Facebook, no Instagram, no Threads, no X e no Telegram.
A imagem, que mostra dois frangos crus, entre os quais está o que parece ser um pequeno corpo humano, deitado de costas e coberto em partes por tarjas pretas, também circula em árabe, bengali, chinês, espanhol, francês, inglês, malaio e turco.
Em 30 de janeiro de 2026, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos publicou uma série de novos arquivos, incluindo documentos judiciais, fotos e vídeos, ligados a Jeffrey Epstein, criminoso sexual que, segundo as autoridades, cometeu suicídio na prisão em agosto de 2019, antes de ter sido julgado.
Ainda em análise pela AFP, esses documentos continuam a repercutir no mundo todo, à medida que são identificados nomes de figuras públicas nos arquivos. Embora a simples menção a uma pessoa não pressuponha qualquer ato reprovável de sua parte, os documentos divulgados mostram vínculos entre o financista e algumas personalidades que, por vezes, minimizaram ou até negaram a existência de tais relações.
A publicação dos arquivos também desencadeou inúmeras alegações sensacionalistas, muitas vezes falsas ou infundadas, como supostas provas de “rituais satânicos” — já verificadas pelo Checamos — e de atos de canibalismo que teriam sido cometidos pelo criminoso sexual ou por celebridades mencionadas nos documentos.
No entanto, a imagem viralizada não é uma evidência de canibalismo, e sim uma montagem antiga.
Obra "Frango"
Uma busca reversa pela imagem viral no Google levou a um comentário publicado em 31 de janeiro no X, no qual um usuário afirma que a imagem constaria na página 63 do documento “EFTA01645970”, disponível nos arquivos de Epstein.
Com uma busca pelo número do arquivo na “Biblioteca Epstein”, no site do DoJ, a AFP pôde consultar o material original (atenção, o conteúdo pode ser sensível), sob o registro “EFTA01646032”.
Uma pesquisa no Google pelas palavras-chave a partir da marca d’água visível na imagem, “Harald Seiwert”, a AFP encontrou a obra original (atenção, o conteúdo pode ser sensível), intitulada “Chicken” (ou “Frango”, em tradução livre para o português) e feita em 2002 nos Países Baixos.
Advertência sobre o conteúdo
Segundo a sua descrição, trata-se de uma colagem fotográfica apresentada em 2004 em um concurso publicitário organizado pela Associação Vegetariana Italiana — informação confirmada pelo autor da imagem em um e-mail enviado à AFP.
Contatado em 20 de fevereiro, Harald Seiwert explicou à AFP que o modelo na fotografia era um amigo britânico que vivia em Amsterdã, com “trinta e poucos anos” na época. O artista contou que a imagem fazia parte de uma “série de fotografias de arte gay” realizada no estilo dos seus “heróis artísticos Robert Mapplethorpe e do fotógrafo neerlandês Erwin Olaf”, conhecidos por combinar “nudismo” e “humor provocador”.
Segundo Seiwert, o conceito nasceu de uma brincadeira: “A ideia dessa foto específica surgiu depois de uma conversa com um amigo (...). Quando falamos sobre a posição de missionário, ele disse: ‘Parece sempre um frango, pronto para consumo’. Foi assim que surgiu a ideia de criar uma colagem mostrando dois frangos com um homem no meio em uma posição semelhante”.
O artista depois “combinou”, no Photoshop, uma fotografia de dois frangos crus com a do homem nu, ajustando o tom de pele do modelo para que se aproximasse à cor dos pedaços de carne.
Exposta na Europa e nos Estados Unidos, publicada em um livro e utilizada em uma campanha contra o consumo de carne, a obra foi desde então desviada do seu sentido original.
Seiwert afirmou ter ficado “surpreso e chocado” ao ver o seu trabalho associado aos documentos de Epstein, mas também “triste” por constatar que tinha sido mal interpretado e usado em teorias da conspiração: “Uma pessoa me abordou dizendo: ‘Não acredito em você. Talvez haja outra coisa por trás dessa foto’. A minha resposta foi: ‘Pensa bem. Que fotógrafo ou artista tiraria uma foto ilegal ou criminosa e deixaria o seu nome estampado em uma marca d’água bem visível?’”.
O AFP Checamos já verificou outras alegações relacionadas ao caso Epstein.
Referências
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