
Imagem de descoberta de pintura rupestre foi gerada com inteligência artificial
- Publicado em 29 de agosto de 2025 às 21:54
- 7 minutos de leitura
- Por Dene CHEN, AFP Austrália, AFP Índia
- Tradução e adaptação AFP Brasil
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“Descobertas recentes na região indiana de Hoshangabad, em Madhya Pradesh, revelaram pinturas rupestres antigas que podem mudar nossa compreensão da interação humana pré-histórica com outros seres terrestres. Essas pinturas, datadas de 10.000 anos, foram encontradas na área de Charama, no distrito de Kanker, Chhattisgarh, e retratam vida extraterrestre e o que parecem ser OVNIs”, lê-se uma publicação no Facebook.
Publicações semelhantes, atribuindo a descoberta a diferentes regiões da Índia, também circulam no Instagram e no TikTok, e em outros idiomas, incluindo inglês, espanhol, francês, italiano e árabe.

Em 2003, os abrigos nas rochas de Bhimbetka, localizados aos pés das Montanhas Vindhyan, na parte sul do planalto central da Índia, foram inscritos como Patrimônio Mundial da Unesco.
Mais de 20 anos após a classificação, uma imagem de uma suposta nova descoberta arqueológica na Índia circula nas redes sociais mostrando quatro pessoas em um deserto registrando uma representação imponente, pintada de branco em paredes rochosas em tons ocre.
Mas, até o momento, nenhuma pintura rupestre desse tipo foi descoberta na Índia e a imagem viral apresenta inconsistências visuais, indicando que foi gerada por inteligência artificial.
“Um remake recorrente”
Entrevistado em 22 de agosto de 2025, Jean-Loïc Le Quellec, diretor honorário de pesquisa do Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS) da França, afirmou à AFP que “é claramente um remake que reaparece regularmente citando os mesmos locais e que é associado a imagens diferentes, dependendo da reutilização”.
Segundo o pré-historiador, “dessa vez, a imagem é gerada por uma IA inspirada nas pinturas rupestres de Kakadu, na Austrália, com um texto que não traz nada de novo”.
“Eu já havia abordado esse assunto em meu blog em 2014, mas, com esse tipo de desinformação, a refutação é interminável”, completou.
Uma busca pelas palavras-chave em inglês “pintura”, “rupestre” e “Kakadu” confirmou a análise do pré-historiador: a AFP identificou fortes semelhanças entre as figuras das pinturas rupestres australianas e a imagem gerada por IA, principalmente por meio de imagens disponíveis no Getty Images ou na plataforma que reúne todo o conteúdo informativo da AFP, o AFP Fórum.

O site oficial do Parque Nacional Kakadu, localizado no Território do Norte da Austrália, especifica que o local “abriga uma das maiores concentrações de sítios de arte rupestre do mundo. Algumas pinturas datam de 20.000 anos, o que torna essa arte um dos mais antigos testemunhos históricos de qualquer grupo humano na Terra. As pinturas oferecem uma visão fascinante da vida dos aborígenes ao longo de milhares de anos e mostram a estreita relação pessoal que os Bininj/Mungguy mantêm com sua terra e seu patrimônio espiritual”.
E é no sítio de Burrungkyu que se observam cenas da vida cotidiana, cujos personagens são semelhantes aos da imagem gerada por IA.
Nenhuma pintura rupestre de Kakadu — ou em qualquer outro lugar da Índia —, por sua vez, retrata extraterrestres ou objetos voadores não identificados, ao contrário do que sugerem as publicações virais.
Além disso, a descrição da suposta descoberta nas publicações permanece vaga e contraditória: Hoshangabad, em Madhya Pradesh, e Charama, em Chhattisgarh, estão separadas por quase 600 quilômetros.
Como surgiu o boato?
Ainda de acordo com Le Quellec, a desinformação de que pinturas rupestres indianas retratariam extraterrestres surgiu na França após a publicação, em 18 de julho de 2014, de um artigo do Maxisciences, um site que “não tem nada de científico”, insistiu o antropólogo.
O artigo, intitulado “Essas pinturas descobertas na Índia representam extraterrestres?”, teria sido “rapidamente” reproduzido por outras plataformas, como Mystères Ovnis, que removeram o ponto de interrogação para transformá-lo em uma afirmação, explicou o mitólogo em seu blog em 2014.
Mas a primeira menção remontaria, na verdade, à data de 15 de julho de 2014, em um artigo do Times of India, que foi posteriormente reproduzido por vários meios de comunicação indianos.

“Como, infelizmente, é cada vez mais frequente, nenhum dos responsáveis pelos sites que reproduziu essa pseudo-notícia se deu ao trabalho de fazer a menor pesquisa para ao menos verificar se essa descoberta era de fato uma”, lamentou Le Quellec na época.
Imagem gerada por IA
Uma análise mais detalhada da imagem revela diversas inconsistências visuais típicas de conteúdos gerados por IA. Entre elas estão o braço e a mão anormalmente alongados da mulher que supostamente tirou a foto, bem como o homem ao lado dela, cujas traços faciais estão ausentes.

Uma busca por palavras-chave em inglês no TikTok encontrou a imagem viral no 12º slide de um carrossel intitulado “Misteriosas pinturas rupestres antigas retratando extraterrestres descobertas na Índia”, em tradução livre para o português.
O carrossel foi postado em maio de 2024 pela conta “@anima.journeys”, que publica regularmente conteúdo gerado por IA. Contatado pela AFP em 30 de julho de 2025, o responsável pela página não respondeu. No entanto, além das anomalias visuais, vários elementos indicam que a imagem não é autêntica.
Um desses indícios são as hashtags que acompanham a publicação, como #aiartcommunity e #sciencefiction, que destacam o caráter fictício da publicação. O link na descrição da página, inclusive, menciona: “Explorando as fronteiras da narrativa com IA”.
Finalmente, uma análise da imagem realizada pela AFP, usando o detector de deepfake Hive Moderation, indica que ela tem “99,5% de probabilidade de conter conteúdo gerado por IA”.

Contatado pela AFP em 22 de agosto de 2025, Eric Robert, professor e pesquisador especializado no estudo de representações pré-históricas do Museu Nacional de História Natural da França, também confirmou as inconsistências da imagem. Segundo ele, “ainda temos a sensação de que se trata de algo que foi colado na parede”.
O pesquisador ressaltou que é impossível que uma tonalidade vermelha tão uniforme apareça por trás da figura pintada em branco em uma parede completamente exposta ao ar livre, que se acredita ser datada de vários milênios.
“Em locais com essa antiguidade, não há nenhum caso como esse que possa estar tão bem preservado, a menos que esteja em uma situação protegida, o que não é o caso”, explica Robert.
“E, acima de tudo, se você tem uma imagem como essa, ela só pode ser associada a uma publicação científica ou a uma pesquisa. Quando ela aparece sem contexto acadêmico e circula online, obviamente não se pode dar a ela o menor crédito”, concluiu o pesquisador.