Postagens enganam ao comparar dados sobre câncer em 2020 e estimativas para 2023

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O Instituto Nacional de Câncer (INCA) ainda não divulgou os dados de casos e mortes registrados pela doença em 2022. No entanto, publicações compartilhadas centenas de vezes desde o último dia 20 de dezembro nas redes sociais enganam ao comparar dados de casos em 2020 com estimativas para 2023.

“Coincidências? Em 2020, foram identificados, no Brasil, 117.512 homens com Câncer, e 108.318 mulheres. Em 2022, os casos de Câncer alcançaram 341.350 homens e 362.730 mulheres”, assinala uma postagem no Twitter. Em publicações no Telegram, Facebook e Instagram os mesmos números são creditados a mortes pela doença.

Em algumas postagens os usuários adicionam o emoji da vacina, vinculando o dado à imunização contra a covid-19.

Captura de tela feita em 21 de dezembro de 2022 de uma publicação no Twitter ( .)

As publicações são acompanhadas por um link de uma nota do Ministério da Saúde, atualizada em 24 de novembro de 2022, que traz quatros tabelas com estatísticas do Instituto Nacional de Câncer.

Nessa página, o ministério divulgou quadros de incidência estimada (casos novos previstos) para homens e mulheres com data de 2022, e dados de óbitos em 2020. Tratam-se, contudo, de duas categorias diferentes e não comparáveis, segundo a assessoria do INCA.

Os números

Os dados oficiais do INCA apontam que em 2020 foram registradas 117.512 mortes de homens e 108.318 mortes de mulheres por câncer. Os números coincidem com os viralizados nas postagens.

“Em 2022 morreram 341.350 homens e 362.730 mulheres de câncer no Brasil”, continuam as publicações. Mas esses dados correspondem aos novos casos da doença estimados para 2023.

Esses dados foram retirados do mesmo link que acompanha as postagens virais. Mas no quadro indica-se que se trata da incidência estimada, e não mortes ou casos confirmados, como circula.
Embora os quadros indiquem que os números correspondem a 2022, a assessoria do instituto confirmou ao AFP Checamos que, na verdade, são referentes à estimativa para cada ano do triênio 2023, 2024 e 2025.

Neste outro link é possível confirmar que, para 2023, a incidência estimada é de 341.350 casos novos em homens e 362.730 casos novos em mulheres.

Os dados sobre mortalidade

Os últimos dados disponíveis sobre mortalidade por câncer correspondem a 2020, assinalou a assessoria do INCA ao AFP Checamos.

O instituto explicou que essas informações são retiradas do Sistema de Informação sobre Mortalidade, disponível no DataSus, que ainda não dispõe de registros consolidados de óbitos após o ano de 2020. Por isso, não é possível saber qual foi o número de mortes por câncer em 2021 nem em 2022.

Em entrevista ao AFP Checamos, a tecnologista do instituto Marceli Santos chamou atenção para o fato de que o número de óbitos por câncer diminuiu em 2020 com relação a anos anteriores. Ela indicou que isso aconteceu porque pessoas com câncer faleceram por conta da covid-19.

Captura de tela feita em 28 de dezembro de 2022 do Atlas Online da Mortalidade do INCA ( .)

Casos estimados

A incidência estimada expressa um cálculo aproximado do número de novos casos de câncer e é um dado trienal. Assim, as estimativas para 2020, 2021 e 2022 são as mesmas. Para esse período, o INCA calculou 625 mil novos casos a cada ano.

Santos explicou que os dados são estimados em um período de três anos porque o câncer é uma doença crônica, de longa duração: “O câncer é lento e progressivo. Então, o olhar que você tem que ter é de décadas. Essas mudanças não são de um ano para o outro. É por isso que a gente faz estimativa a cada três anos e pode atualizar a cada cinco”.

Para fazer esse cálculo, o INCA adapta a metodologia do Observatório Global de Câncer e usa diversos registros espalhados pelo país com informações de incidência em diferentes períodos e dados sobre os óbitos.

A incidência estimada para o triênio de 2023, 2024 e 2025 foi divulgada em novembro passado e prevê 704 mil novos casos detectados a cada ano.

A tecnologista apontou que não é recomendado fazer uma comparação entre estimativas de períodos diferentes porque os registros e as informações usadas são “dinâmicos”.

“A estimativa é uma fotografia daquele momento, não é um filme, e não é comparável com a fotografia desse momento, que tem mais recursos, mais informações e maior número de registros”, ressaltou.

Além disso, ela pontuou que é esperado um aumento “lento e progressivo” no número de casos à medida que a população envelhece.

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