Imagens virais não comprovam relação da vacina da Janssen contra a covid-19 com vasculites

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O exame de microscopia de campo escuro não tem utilidade para diagnosticar vasculites, e portanto, não poderia captar uma suposta reação adversa à vacina da Janssen contra a covid-19, diferentemente do que relatam usuários nas redes sociais. Especialistas destacaram à AFP que o diagnóstico do grupo de doenças que causa inflamação nos vasos sanguíneos é complexo, e envolve um conjunto de sinais e exames. As publicações, compartilhadas milhares de vezes desde meados de julho de 2022, indicam ainda um suposto “achado no sangue”, que poderia ser de plástico ou metal. Contudo, segundo especialistas, as imagens compartilhadas não parecem mostrar esses materiais e além disso, não seria crível que essas partículas fossem transportadas pela vacinação e que quem as recebesse continuasse saudável.

“Gostaria de compartilhar com vocês um achado no meu sangue, sou vacinada com uma dose da #Janssen e tive vasculite após ser inoculada. Enfim, isso é o que estão achando no sangue dos vacinados, os médicos não sabem do que se trata, tem uma suspeita de ser algo plástico ou metal”, escreveu uma usuária no Twitter, em publicação que ganha eco também no Facebook.

O relato continua apontando o suposto exame responsável pelo diagnóstico: “Exame : microscopia de campo claro e escuro. OBS.: NÃO VACINADOS NÃOOOOO ESTÃO APRESENTANDO ESSE TROÇO ESTRANHO NO SANGUE !!”

Captura de tela feita em 22 de julho de 2022 de uma publicação no Twitter ( . / )

Vacina da Janssen

A Janssen, que usa como plataforma vetores de adenovírus sorotipo 26 não replicante, teve seu uso emergencial aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em 31 de março de 2021, e em 5 de abril de 2022 recebeu o registro definitivo.

Já as vasculites, relacionadas ao imunizante nas publicações, são um grupo de doenças que causam a inflamação de vasos sanguíneos, segundo definição da Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR).

A respeito da suposta relação das vasculites com a vacina da Janssen, Gecilmara Pileggi, reumatologista e integrante da Comissão de Doenças Endêmicas e Infecciosas e da unidade de pesquisa da SBR, destaca a importância de se diferenciar uma relação temporal de uma relação de causalidade:

Alexandre Wagner de Souza, reumatologista e coordenador da Comissão de Vasculites da SBR, concorda: “Mesmo que haja, entre bilhões de vacinados no mundo, relato aqui ou ali de alguma associação temporal com vasculite cutânea, o benefício da vacinação é muito, muito superior a qualquer episódio autolimitado e que não tem gravidade nenhuma”.

O risco de vasculites, segundo os dois, é maior em caso de infecção pelo vírus SARS-CoV-2, já que ele tem receptores em células do endotélio, que revestem os vasos sanguíneos e podem causar lesão e trombose, explicam. Em crianças e adolescentes, isso pode provocar uma síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica, “com manifestações que podem incluir febre, miocardite, alterações de pele, edemas de mãos e pés e sintomas gastrointestinais”, explica Souza.

Em comunicado enviado à AFP em 22 de julho de 2022, a assessoria de imprensa da Janssen afirmou que o estudo de fase 3 Ensemble, multicêntrico, randomizado e duplo-cego, com mais de 45 mil pessoas, apontou que “a vacina contra a covid-19 da companhia é segura e eficaz para adultos com 18 anos ou mais”, e acrescentou que, durante o estudo, houve um caso de vasculite relatado, o que equivale a 0,002% de prevalência.

A bula da Janssen, atualizada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em 24/06/2022, inclui a vasculite de pequenos vasos, “com irritação da pele ou pequenas manchas vermelhas ou roxas, planas e redondas sob a superfície da pele ou hematomas”, como efeito secundário desconhecido, o nível mais raro de incidência, quando a prevalência “não pode ser estimada a partir dos dados disponíveis”. À AFP, a agência informou em 29 de julho de 2022 que “até o momento as evidências apontam para um perfil de benefícios que superam eventuais riscos”.

Em 9 de dezembro de 2021, a Agência Europeia de Medicamentos (EMA, na sigla em inglês) também incluiu a vasculite cutânea de pequenos vasos como possível reação adversa à vacina da Janssen, com base em 37 casos reportados globalmente até o fim de outubro do mesmo ano.

Contudo, entre os casos analisados, apenas 8 estavam provavelmente relacionados à vacina, sendo 6 deles verificados por meio de biópsia. A agência destacou ainda que cerca de 36 milhões de doses desse imunizante teriam sido administradas à época e que “os benefícios da vacina contra a covid-19 da Janssen continuam a superar o risco da doença e complicações relacionadas, hospitalizações e mortes”.

Souza comenta que o próprio relatório destaca diferentes gatilhos ambientais, como infecções, uso de medicamentos e até outras vacinas como possíveis causas para vasculite cutânea de pequenos vasos, que tem evolução autolimitada. Por isso, enfatiza: “É importante deixar claro que a vasculite cutânea de pequenos vasos é um evento muito raramente observado em indivíduos que receberam a vacina da Janssen”.

“Achado no sangue”

A mensagem difundida nas redes cita um suposto achado no sangue descoberto através de uma microscopia de campo escuro. Esse exame “é feito para diagnosticar algumas doenças, como a sífilis, mas ele não tem nenhum lugar no diagnóstico de casos suspeitos de vasculite ou trombose”, explica Alexandre Naime, chefe do departamento de Infectologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e consultor para a covid-19 da Associação Médica Brasileira e da Sociedade Brasileira de Infectologia.

Souza concorda, apontando que é possível usar a microscopia de campo escuro para situações específicas, “mas para diagnósticos [de vasculites] não tem nenhuma serventia, nenhuma utilidade”.

Para fechar o diagnóstico de uma vasculite, é preciso considerar vários fatores, diz Pileggi. Souza acrescenta: “É um conjunto de sinais e sintomas, testes laboratoriais alterados, mais um teste confirmatório. E aí, dependendo do tamanho do vaso acometido, pode ser feito um exame de imagem, um anatomopatológico, e aí é variável para cada tipo de vasculite. São mais de 20 tipos diferentes de vasculites”.

Ele ressalta que é necessária uma biópsia de um tecido que mostre a inflamação dos vasos sanguíneos para atestar se trata-se ou não de uma vasculite. “Uma imagem de vasculite é uma imagem de biópsia de pele, por exemplo, que mostra a inflamação, as células inflamatórias dentro dos vasos, levando a esse tipo de dano no vaso sanguíneo”.

Já pelo sangue ou por meio de um esfregaço com hemácias, não é possível determinar que há um processo de vasculite. A premissa das publicações, portanto, é incorreta.

“Suspeita de plástico ou metal”

Os quatro especialistas consultados pela AFP rejeitaram a ideia de que o material visto nas imagens virais possa ser de plástico ou metal.

As fotos podem ser provenientes “de uma amostra de sangue em uma lâmina, com uma contaminação normal” — por exemplo, qualquer coisa que estivesse no ar e que pudesse trazer “sujeira” à amostra, explica Gustavo Cabral, imunologista e especialista em desenvolvimento de vacinas.

Naime aponta que o mais provável é que as fibras que aparecem sejam de papel de celulose, que são usados para limpar a lâmina.

Paolo Zanotto, virologista que tem defendido o chamado “tratamento precoce” contra a covid-19, comentou no tuíte viralizado no mesmo sentido: “Eu vi estas fotos há 2 dias. O problema é definir o que são estas fibras análogas a fibras de celulose de papel ou algodão que podem ter sido usados para limpar lâmina e lamínula”.

Cabral acrescenta que as imagens provavelmente mostram uma contaminação externa, não interna. “Com uma coisa desse tamanho no nosso corpo, o sistema imunológico vai lutar contra como se fosse um monstro, ou seja, é muito difícil que seja uma contaminação interna”, conclui.

Além disso, do ponto de vista fisiopatológico, que é seu mecanismo, a vasculite “não tem a ver com a presença de plástico ou metal circulando no sangue”, frisa Souza.

Ele é respaldado por Pileggi, que ressalta a série de equívocos contidos nas mensagens. “Primeiro que vacinas não teriam um metal ou plástico na sua composição que fossem para a corrente sanguínea e fossem visualizados dessa forma. São situações de desinformação e equivocadas. Nenhuma dessas afirmações fazem sentido perante dados científicos”.

Esta verificação foi realizada com base em informações científicas e oficiais sobre o novo coronavírus disponíveis na data desta publicação.

29 de julho de 2022 Corrige grafia de sigla
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