Por que é incorreto afirmar que institutos de pesquisa “erram” resultados eleitorais

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Publicações que circulam desde 14 de junho de 2022 somando mais de 550 mil visualizações nas redes sociais indicam supostos erros ou manipulações em levantamentos feitos por institutos de pesquisa no Brasil. A comprovação disso, segundo usuários, seria a falha na previsão de resultados nas eleições gerais de 2018. Mas especialistas explicaram ao AFP Checamos que pesquisas são diferentes de prognósticos, e que servem, na verdade, para descrever como está a opinião pública em um momento específico: o espaço de tempo delimitado na pesquisa.

“Pesquisas eleitorais: erros ou manipulação?”, diz a legenda de publicações compartilhadas no Twitter, Facebook, Instagram, TikTok e YouTube, acompanhadas por um vídeo retirado de um programa da Jovem Pan em que uma das comentaristas afirma: “Quando você fala 'uma pesquisa Datafolha' eu já não levo a sério. Pesquisa Datafolha eu nem olho. Eu não sei se vocês se lembram, gente, na última eleição de 2018, os erros do Datafolha e do Ibope foram gritantes. Wilson Witzel, no Rio de Janeiro, na pesquisa de primeiro turno, tinha 12% das intenções de voto, sabe quanto ele teve? 41%”.

Ela continua: “O povo peca pela falta de memória. Sabe quanto o Zema tinha? 20, 23%. Sabe quanto ele teve? 42%. Gente, isso não é margem de erro de 2%, é de 20%, então o Datafolha não dá”.

Captura de tela feita em 17 de junho de 2022 de uma publicação no Twitter ( . / )

Apesar de a narrativa de que pesquisas eleitorais erram resultados ser frequente nas redes sociais, o argumento que a fundamenta é incorreto.

Isso porque pesquisas são diferentes de prognósticos, como explicou Antonio Lavareda, cientista político vinculado ao instituto Ipespe, em evento da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (Abep), em 3 de maio de 2022.

“As primeiras concernem a opiniões, a preferências por candidatos, ou seja, a atitudes, ao passo que os prognósticos dizem respeito a antecipações sobre as probabilidades dos diversos candidatos ganharem a eleição e com que desempenho nas urnas, ou seja, versam sobre o comportamento dos eleitores”, disse ele.

Outros fatores mencionados por Lavareda para explicar por que pesquisas não devem ser interpretadas como prognósticos eleitorais foram a alienação eleitoral, que se refere a abstenções, votos brancos nulos, a decisão de voto tardia, e o voto estratégico, usado por eleitores para “prevenir um resultado específico quando sua escolha original não tem chance de ganhar, e eles preferem evitar a vitória indesejada de outro candidato”, definiu o cientista político.

Além disso, os inquéritos populacionais feitos nessas pesquisas fornecem estimativas de votos em um espaço de tempo bem definido, nesse caso o período de coleta da pesquisa, aponta Raphael Nishimura, diretor de amostragem do Survey Research Center, da Universidade de Michigan:

Entrevistados são instruídos a responder em quem votariam se as eleições fossem naquele dia. Portanto, completa Nishimura, seus resultados são válidos para aquele momento específico.

“Tecnicamente, não é correto comparar os resultados de uma pesquisa pré-eleitoral com o pleito eleitoral, pois são momentos distintos, e as preferências eleitorais podem mudar de um tempo para outro”, explica o estatístico. A única exceção, segundo ele, são as pesquisas de bocas de urna, por serem realizadas no dia da eleição, com eleitores que já votaram.

O problema de análises que apontam erros nas pesquisas eleitorais está, então, na ideia de que o objetivo desses levantamentos é acertar resultados de eleições, pondera Felipe Nunes, professor de ciência política na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e diretor do instituto de pesquisa Quaest. “Pesquisa serve para descrever como a opinião pública está naquele momento, para que a gente possa entender, do ponto de vista probabilístico, para que lado as coisas estão caminhando”.

Nishimura concorda, apontando que os levantamentos eleitorais são importantes para entender o eleitorado em um determinado momento, mas mais que isso: “Uma série delas pode nos dar uma noção das tendências do eleitorado e para onde ele parece estar indo”.

Panfletos nas eleições gerais de 2014, em 5 de outubro, em São Paulo ( AFP / Miguel Schincariol)

Pesquisas são, portanto, retratos do momento, que indicam tendências quando levantamentos vão se somando uns aos outros, define Felipe Borba, cientista político e coordenador do Grupo de Investigação Eleitoral (Giel) da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio).

Ele explica que em alguns momentos, a população realmente muda de opinião em uma velocidade muito rápida. A eleição do então governador do Rio de Janeiro Wilson Witzel, citado no vídeo viral, exemplifica essa mudança: “O Witzel era um completo desconhecido, e na última semana, ele foi ganhando votos dia após dia. As pesquisas às vezes não conseguem acompanhar a velocidade com que a opinião pública muda”, comenta.

Assim, pesquisas que analisaram intenção de voto no primeiro turno das eleições para governador do Rio de Janeiro mostraram Witzel com 12% dos votos válidos, no caso do Ibope, e 17%, no caso do Datafolha.

Já na disputa de segundo turno no estado, os levantamentos capturaram a mudança de atitude dos eleitores fluminenses, com resultados muito próximos aos da eleição (1, 2).

O caso de Romeu Zema, eleito governador em Minas Gerais com 71,8% dos votos, foi parecido: a rápida mudança do eleitorado não foi captada nas pesquisas de primeiro turno. Ainda que tenham indicado uma disparada de Zema na disputa, Datafolha e Ibope deram, respectivamente, 24% e 18% dos votos válidos para o então candidato. Naquele pleito, ele conquistou 42,73% dos votos.

No segundo turno, contudo, os dois institutos indicaram resultados similares aos das eleições: 71%, no caso do Datafolha, e 67% no caso do Ibope.

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