O dispositivo chamado de “chupa-cabra” não é capaz de alterar um voto na urna eletrônica

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Um vídeo que mostra um suposto dispositivo capaz de transferir os votos dos eleitores nas urnas eletrônicas de um candidato para outro voltou a ser compartilhado centenas de vezes nas redes sociais desde 12 de maio de 2022. O aparelho, chamado de chupa-cabra, é apenas um adaptador de entrada USB e não tem a capacidade de realizar nenhuma ação contra as urnas usadas nas eleições brasileiras.

Tudo isso para não ser transparente? Para sumirem com logs NAS eleições? Para ter hacker preso e insistir na cara dura que é confiável? Pra que um TSE desses? Eu não confio mm. Chupa cabra de Urnas Eletrônicas com uma conta dessas?”, diz uma das publicações no Twitter (1, 2). O conteúdo também está sendo compartilhado no Facebook (1, 2) e Telegram (1).

Captura de tela feita em 17 de maio de 2022 de uma publicação no Twitter ( . / )

Postagens semelhantes já haviam circulado em anos anteriores, como em 2015, 2016, 2018 e 2021.

O homem que se apresenta como Davincci Almeida diz mostrar no vídeo a transferência dos votos do candidato Celso Russomanno (Republicanos) para o candidato Fernando Haddad (PT) usando o dispositivo “chupa-cabra” da marca Diebold. Nas eleições para prefeito da cidade de São Paulo em 2012, Haddad passou para o segundo turno com José Serra (PSDB). Russomanno terminou o pleito em terceiro lugar.

O Checamos entrou em contato com Lucas Lago, engenheiro da computação e pesquisador do CEST-USP, que esclareceu que “chupa-cabras é um nome comum dado para equipamentos que capturam dados de cartões ao simular uma interface de cartão, seja em caixas eletrônicos, seja em máquinas de pagamento”.

Mas o engenheiro da computação completa que o equipamento visto no vídeo viral “não parece fazer nada. Os dados que ele mostra já estão carregados no que parece ser uma página de e-mail. Ele, inclusive, ‘menciona’ que está captando mais, mas parece estar somente descendo a tela com os dados que mostra acima”.

Paulo Matias, professor do Departamento de Computação da Universidade de São Carlos (UFSCar), explicou ao AFP Checamos que o dispositivo que aparece do lado esquerdo do vídeo “parece ser um adaptador de USB, cuja utilidade prática seria conectar um dispositivo USB a um computador relativamente distante usando cabeamento de rede, que, porventura, exista previamente em um prédio. Os dispositivos não estão fazendo absolutamente nada, eles só estão pendurados no gabinete do computador”.

O professor ainda destaca, como é possível ver na imagem abaixo, que um dos dispositivos está “inserido na unidade de disquete do computador”.

Captura de tela feita em 17 de maio de 2022 de uma publicação no Facebook ( . / )

Ainda de acordo com o autor do vídeo, outra prova de que as urnas estavam sendo fraudadas por tal dispositivo seria a entrada de votos após às 17h na urna eletrônica. No Brasil, as eleições ocorrem das 8h às 17h, de acordo com o horário de Brasília.

Procurada pelo AFP Checamos, a assessoria de imprensa do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) indicou que “a votação pode se estender após às 17h. Isso ocorrerá sempre que, ao se atingir esse horário, ainda existam eleitores na fila da seção eleitoral. Mais uma vez, trata-se de operação normal da urna”. Neste link é explicado o funcionamento da votação após o horário de encerramento: “O mesário fará a identificação e distribuirá senhas, que deverão ser entregues a partir do último da fila”.

Sobre o aparelho denominado “chupa-cabra”, o TSE explicou: “Com relação ao dispositivo apresentado no vídeo, o chamado ‘chupa-cabra’, é preciso destacar que não é possível identificá-lo precisamente na gravação, embora se assemelhe a uma mídia de armazenamento (pen drive), acoplado a um adaptador de porta USB. O homem na gravação alega que o dispositivo seria feito pela Diebold, que fabricou urnas eletrônicas para o TSE até 2015”.

A assessoria complementou que “esse dispositivo não teria qualquer efeito sobre a urna” já que o seu software “é capaz de identificar cada dispositivo USB que está conectado a ela. Caso o software identifique um dispositivo diferente do pequeno conjunto válido, comanda o desligamento elétrico da porta USB em que o dispositivo se encontra conectado, impedindo que este faça qualquer coisa”.

Em relação às supostas informações de votação vistas na tela do computador, o TSE indicou que estas “não possuem qualquer relação com o suposto ‘chupa-cabra’. Trata-se somente de registros de log de uma urna – o conjunto de registros cronológicos de todas as operações realizadas numa urna. O log é um instrumento de auditoria e não era difícil conseguir uma cópia”.

O TSE informou que, nas eleições passadas, os logs das urnas eram fornecidos às “entidades legitimadas” a participar dos procedimentos de fiscalização, como partidos políticos, MPE, Polícia Federal, Congresso Nacional, entre outros.

Para as eleições gerais de 2022 “o TSE publicará os logs de todas as urnas na internet”, esclareceu.

Conteúdo semelhante já foi checado pelas equipes da Agência Lupa, do Estadão Verifica e do Fato ou Fake.

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