Um técnico trabalha em um laboratório na Universidade Tsinghua, em Pequim, em 9 de dezembro de 2021 ( AFP / Noel Celis)

Checamos a alegação de que os testes PCR visam sequenciar o DNA de pacientes com covid-19

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Um tuíte em que os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos indicam que testes PCR podem ser utilizados para análise sequencial genômica foi compartilhado por centenas de usuários que asseguram que isso significa que o exame visa “roubar o DNA” dos indivíduos. O órgão norte-americano estava se referindo, no entanto, ao sequenciamento do código genético do coronavírus, que tem como objetivo detectar novas mutações. O sequenciamento de dados genéticos dos pacientes seria possível, mas, segundo especialistas, seria improvável obter material genético suficiente e as condições não seriam ideais”.

“Vou postar novamente, pq até agora não acreditei no que li. CDC - APÓS DOIS ANOS DE PANDEMIA - informa que 10% dos cotonetes utilizados para teste PCR foram enviados para LABORATÓRIOS, sendo feitas análises de SEQUENCIAMENTOS GENÉTICOS. ‘Teoria da conspiração’ hAHAHHAHA”, assinala uma das postagens compartilhadas no Twitter (1, 2) e no Facebook, reproduzindo a captura de tela de uma publicação feita em 16 de fevereiro pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos.

O tuíte dos CDC diz, em tradução livre para o português: “Lembra dos testes swab nasal para #COVID19 que você fez? O que aconteceu com o swab? Se ele foi processado como um teste PCR, existe uma chance de 10% de ele ter ido para um laboratório para uma análise sequencial genômica”.

Combinação de capturas de tela feita em 17 de fevereiro de 2022 de publicações no Twitter ( . / )

A mensagem não se referia, contudo, a um sequenciamento genético do DNA dos pacientes.

Sequenciamento do vírus, para monitoramento

Ao final do tuíte dos CDC, há um link para um vídeo publicado no YouTube intitulado “Como os swabs detectam novas cepas da covid-19”. Com pouco mais de seis minutos, a gravação explica como os testes PCR são úteis para “analisar a composição genética dos vírus” a partir do seu sequenciamento genômico.

Ao se replicarem, os vírus, como o SARS-CoV-2, causador da covid-19, sofrem mutações, e essas mudanças se dão no código genético. Assim, “os laboratórios analisam continuamente o genoma do SARS-CoV-2 para acompanhar as variantes que representam ameaças à saúde pública”, aponta o vídeo compartilhado pelo CDC.

Paola Resende, pesquisadora no Laboratório de Vírus Respiratórios e do Sarampo, que integra a Rede Genômica da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), explicou ao Checamos que “com o código genético do coronavírus [coletado na amostra usada para o PCR do paciente], é possível avaliar as diferenças que estão presentes nesse código em comparação com a sequência original de Wuhan, que é nossa cepa referência”.

“Então, comparamos as diferenças genéticas que há entre esse vírus que foi sequenciado em Wuhan e o vírus que foi detectado no paciente. A partir dessas alterações genéticas, conseguimos definir a qual linhagem aquele vírus pertence”, acrescentou.

A pesquisadora lembrou que o sequenciamento genômico foi fundamental quando os primeiros casos de pneumonia foram detectados em Wuhan, na China, no final de 2019.  

“O sequenciamento genômico é essencial para conhecer o vírus [com o qual] a gente está lidando. Quando os primeiros casos de pneumonia começaram a surgir em Wuhan, no final de dezembro de 2019, rapidamente os cientistas tentaram decodificar, entender qual era o genoma daquele vírus”, disse Resende. “Foi a partir desses genomas decifrados que se desenvolveram os testes de diagnóstico para o coronavírus. Isso foi realizado rapidamente, distribuído por todo o mundo e possibilitou a detecção por PCR em tempo real”, acrescentou.  

A pesquisadora também apontou outras utilidades essenciais desse sequenciamento: 

“Por que a importância do sequenciamento genômico? Para facilitar a produção e atualização dos kits de diagnóstico. Para verificar a eficácia das vacinas, [verificar] se há muitas alterações em relação àquela cepa para qual a vacina foi inicialmente produzida, se houve alterações em sítios importantes que poderiam levar a escapes [vacinais]. É importante para a vigilância [da circulação do vírus] na população. Para entender se, quando ocorre um aumento do número de casos, isso está relacionado ao surgimento de uma nova variante ou não”.

É possível fazer o sequenciamento genômico de um indivíduo através do teste PCR?

Nas publicações viralizadas, os usuários demonstram a preocupação de que seus dados genéticos possam ser “roubados” a partir das amostras coletadas para o exame de PCR.

Luciana Costa, diretora adjunta do Instituto de Microbiologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, afirmou à AFP que, embora seja possível obter informações genéticas de pessoas que realizam o exame PCR, isso não é provável.

“Quando se coleta o swab nasal, oral ou nasofaríngeo, além das secreções normais que ali estão (muco nasal, secreção nasal, saliva), células da mucosa e do epitélio nasal /oral também vêm junto, por causa da fricção que se faz do algodão no interior do nariz ou da boca. Como nossas células carregam em seu núcleo o nosso DNA (ou seja, toda a informação genética que nos constitui), a partir desse material é, sim, possível fazer o sequenciamento do material genético da pessoa”, disse Costa.

Essa possibilidade, afirma, existe com qualquer exame que seja feito com base em material humano ⎼ como fezes, urina, secreções ⎼ bem preservado.

No entanto, Costa esclareceu que, para isso, é preciso que haja “um interesse específico em se fazer o sequenciamento”, a fim de que se implementem as condições necessárias para a preservação adequada do material, como, por exemplo, a sua manutenção em baixa temperatura:

“Mas esse material não é preservado. Na verdade, os exames são feitos, e o material é desprezado [pelos laboratórios], acabando com a possibilidade de fazer o sequenciamento”, completou.

“Não recuperamos genoma humano no sequenciamento genético viral”, afirmou Paola Resende à AFP. “Capturamos somente leituras [dos genomas] que são associadas ao coronavírus”, acrescentou a pesquisadora.

Segundo Costa, mesmo que o sequenciamento humano fosse feito, isso não resultaria na captura de informações sensíveis.

“De qualquer forma, ter as informações genéticas da pessoa teria como única utilização relevante saber se a pessoa teria o potencial de desenvolvimento de algumas doenças conhecidas. Para além disso, até o momento, de acordo com o conhecimento científico desenvolvido nesta área, nenhuma outra informação sensível pode ser extraída dali.”

Esta verificação foi realizada com base em informações científicas e oficiais sobre o novo coronavírus disponíveis na data desta publicação.

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