Beber água quente, com ou sem limão, não cura o câncer

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Uma mensagem compartilhada nas redes sociais mais de 192 mil vezes em diferentes publicações desde 2018 afirma que beber água quente, com ou sem limão, ajuda na cura do câncer, entre outras doenças. Algumas publicações dizem que a água com limão é mil vezes mais poderosa que a quimioterapia. Entretanto, especialistas em saúde definem essa teoria como “absurda” e alertam sobre os seus riscos para os pacientes.

“A água quente de limão pode segurar a sua saúde e fazer você viver mais tempo! Água quente de limão mata células cancerosas. [...] A amargura na água quente de limão é a melhor substância para matar células cancerosas. [...] A água quente de limão pode controlar o crescimento do tumor do câncer”, dizem as publicações (1), que, juntas, somam mais de 169 mil compartilhamentos somente em 2019.

A postagem ainda afirma que uma “pesquisa da Universidade de medicina de Maryland diz são as 1000 tempos melhor do que a quimioterapia [sic].

Outra publicação, de novembro de 2018, compartilhada 23 mil vezes, indica que “o suco de limão quente tem um efeito sobre os tumores e as bolsas cancerosas... é a cura para todos os tipos de câncer . O tratamento com este extrato só destruirá as células malignas e não afetará as células saudáveis [sic].

Estas afirmações também circularam em espanhol, com postagens desde 2013, inglês e francês.

A Associação Espanhola Contra o Câncer (AECC) informou em um e-mail à AFP que não existe nenhuma evidência científica que sustente que a água quente com limão possa curar o câncer, nem que tenha mil ou 10 mil vezes mais potência do que a quimioterapia, como afirmavam postagens em português e em espanhol.

“A acidez do limão não é nenhuma substância, é uma propriedade organoléptica e, por isso, não tem nenhuma propriedade anticancerígena”, explicou o Departamento de Comunicação da AECC, que continuou: “Tampouco é correto [afirmar] que é mais potente que a quimioterapia”.

“Não existem estudos científicos clínicos controlados [com pacientes] que sustentem estas afirmações”, enfatizou a assessoria de imprensa da AECC. A associação já alertou que a água com limão por si só não cura o câncer. O mesmo foi dito pela plataforma sanitária espanhola Salud Sin Bulos (“Saúde Sem Boatos”, em tradução livre).

Na seção de combate à desinformação no site do Ministério da Saúde do Brasil também há explicações a respeito destas mensagens. Segundo o texto, “não existe um alimento específico ou milagroso para a prevenção e/ou cura do câncer. Não existem evidências científicas dos estudos apresentados na mensagem, e não é possível falar em ‘cura do câncer’ de forma geral e definitiva, existem mais de 100 variações da doença. O que previne o câncer é praticar uma alimentação saudável , manter o peso corporal adequado e praticar atividade física”.

O médico Guillermo de Velasco, secretário científico da Sociedade Espanhola de Oncologia Médica (SEOM) e colaborador da plataforma Salud sin Bulos, disse à AFP sobre o tema: “Não existe um único alimento que possa ser utilizado para curar o câncer”, embora recorde que a alimentação “é importante” diante da doença. “O corpo humano é complexo e o câncer ainda mais, por isso as respostas simples geralmente não existem, como a de que uma combinação como o limão e a água quente podem determinar o desenvolvimento ou a cura”.

O especialista francês Bruno Falissard, diretor do Centro de Pesquisa em Epidemiologia e Saúde da População da França (CESP, na sigla em francês) e professor da Universidade Paris-Saclay, por sua vez, falou à AFP em termos semelhantes aos da AECC.

“Não existem estudos científicos sobre as vantagens da água quente” para curar doenças e “a lógica por trás desta ideia de terapia com água quente é absurda”. “A água é fundamental para a vida, mas é claro que não tem o poder de curar doenças”, declarou o especialista francês. “Não importa se a água está quente ou fria. Não é cura nem é nocivo”, disse por telefone à AFP.

Falissard se pergunta o motivo pelo qual as pessoas acreditam em algo, a priori, tão absurdo: “As pessoas estão diante de uma medicina eficaz, mas desumanizada, que se apoia em um discurso rígido, científico, quando as pessoas têm a necessidade de mais espiritualidade. [...] Quanto mais louco é, mais queremos acreditar”.

Afirmações com nomes próprios

Algumas postagens citam o “Dr Gupta”, sem dar mais dados, e somam ao seu nome o do “Dr Guruprasad Reddy” e o do “Dr Ricardo Reddy”. Em ambos os casos, os nomes são acompanhados pelas palavras “Universidade Estatal de Osh Moscou”. A busca por estes termos no Google levou somente à Universidade Estadual de Osh, no Quirguistão, onde não aparecem resultados de acadêmicos para nenhum dos três nomes mencionados.

Buscando no Google por “Guruprasad Reddy + cancer” chega-se às verificações de outras equipes, como AfricaCheck. Este é semelhante ao caso da busca por “Ricardo Reddy + cancer”.

Captura de tela feita em 4 de dezembro de 2019 no Facebook mostra publicação viralizada

Publicações que o mencionam incluem, além disso, a fotografia de um homem usando um uniforme verde, semelhante ao usado pelos médicos. Uma busca reversa pela imagem leva a resultados deste tipo de publicações.

Outro nome mencionado nas postagens é Tcheo Horin, indicado como diretor-geral do Hospital do Exército de Pequim. Uma busca pelos termos no Google leva a sugestões como “tchen horin existe” e “tchen horin o diretor geral do hospital do exército em pequim”. No entanto, apenas aparecem sites que desmentiram o boato, até mesmo em outros idiomas. O nome do suposto médico, inclusive, aparece escrito de diferentes maneiras, como “Chen Horin” e “Tchen Horin”.

Em resumo, não existem evidências científicas, segundo especialista espanhóis e franceses, além do Ministério da Saúde do Brasil, que demonstrem a cura ou a melhora de um câncer ao tomar água quente, com ou sem limão, nem que esta fruta seja mais potente que a quimioterapia.

O AFP Checamos já verificou outras alegações ligadas a questões de saúde e câncer (1, 2, 3, 4 e 5).

AFP Brasil