Não, consumir pepino, coco ou água gelada durante a menstruação não provoca “câncer de útero” nem “esterilidade”

Uma lista com diversas atividades que mulheres não devem fazer durante o período menstrual para supostamente evitar sofrer de “esterilidade” ou de “câncer de útero” foi compartilhada mais de 500 mil vezes em múltiplas publicações em português desde dezembro de 2018. No entanto, segundo especialistas em ginecologia consultados pela AFP, nenhum dos pontos indicados é verdadeiro.

“Mulheres tenham cuidado!!! Se uma mulher está vendo [sic] seu período menstrual, por favor, não faça essas 4 coisas”, assim começa uma lista de diversas atividades  que, supostamente, as mulheres não deveriam fazer enquanto menstruam, compartilhada mais de 380 mil vezes desde 17 de dezembro de 2018.

O mesmo texto, acompanhado de diferentes fotografias e ilustrações, aparece em diversas outras postagens no Facebook (1, 2, 3), assim como em múltiplos idiomas, como em espanhol, inglês, francês e indonésio.

A postagem mais antiga localizada pela equipe de checagem da AFP foi feita em maio de 2013 em indonésio, embora conte com apenas três dos pontos da lista que circula atualmente. Somados todos os idiomas, as publicações foram compartilhadas mais de um milhão de vezes. 

Capturas de tela feitas em 1º de outubro de 2019 mostram publicações viralizadas no Facebook

Algumas das postagens nesses idiomas (1, 2, 3) creditam a informação ao “Instituto de Extensão do Câncer na Indonésia”. A AFP encontrou registros da suposta instituição em duas páginas no Facebook, cujas últimas publicações datam de 12 de novembro de 2015 e 20 de junho de 2017.

A equipe de checagem da AFP consultou dois especialistas em ginecologia. Ambos negaram de maneira enfática que qualquer uma das supostas recomendações, caso ignoradas por mulheres durante seu período menstrual, possam provocar “câncer de útero” ou “esterilidade”.

As “recomendações”

1- Falso: “Não beba água gelada, água com gás ou coma coco durante a menstruação”

“Não, uma coisa não tem a ver com a outra. Ingerir ou não isso não altera o ciclo hormonal, nem torna [o organismo] predisposto a alguma causa de enfermidade referente ao sistema reprodutivo feminino”, disse em entrevista a ginecologista Anaïs Reyes Navarro, integrante da plataforma internacional de médicos especialistas Doctoralia.

O especialista em reprodução Kiyoshi Macotela Nakagaki também explica que “não há relação entre a ingestão de coco e de água gelada com esses tipos de enfermidades: nem a infertilidade, nem o câncer”.

2- Falso: “Não aplique xampu na cabeça porque os poros da cabeça estão abertos durante a menstruação e podem causar dor de cabeça”

De acordo com Reyes Navarro, a dor de cabeça durante a menstruação só pode ser associada à chamada síndrome pré-menstrual, “um conjunto de sintomas que se apresentam durante a menstruação associados a variação nos níveis de hormônios”. Além da dor de cabeça, em alguns casos há sensibilidade nos seios, mudanças de humor e cólicas.

Consultado sobre a mesma recomendação, Macotela Nakagaki respondeu: “Não tenho comentários, parece uma piada”.

3- Falso: “Não coma pepino durante a menstruação porque a seiva presente no pepino pode bloquear a menstruação (perda de sangue) na parede uterina e pode causar esterilidade”

“Também não tem nada a ver”, afirmou Reyes Navarro sobre o suposto efeito da seiva do pepino na parede uterina.

Já Macotela Nakagaki afirmou que muitas causas podem levar à infertilidade, “mas comer pepino não é uma delas”.

4- Impreciso: “Seu corpo não deve ser atingido por objetos duros, especialmente o abdômen, pois pode causar vômitos e o útero pode ser ferido. E essas são as origens do câncer de útero, químicos e esterilidade”

Macotela Nakagaki explicou que o útero não se encontra no abdômen, mas na cavidade pélvica (mais abaixo) e que, para causar infertilidade, o golpe recebido pela mulher por um acidente, por exemplo, teria que ser forte o suficiente para provocar uma fratura óssea.

“Mesmo no caso de um traumatismo muito forte no útero, isso não provocaria infertilidade na mulher ao menos que ela sofresse um acidente tão extremo que provocasse um sangramento e que fosse necessário remover o útero. Somente assim a mulher se tornaria infértil devido a um acidente que tivesse impacto nessa parte de seu corpo”, acrescentou.

Reyes Navarro também afirmou, em ligação telefônica: “O útero está rodeado pelos intestinos, por gordura, músculos, pele. A única forma que pode afetá-lo é por um esfaqueamento profundo, então haveria uma ferida”.

Beber água gelada provoca câncer?

“Pesquisas mostram que beber gelo durante a menstruação pode fazer com que o sangue menstrual permaneça na parede uterina, após 5-10 anos pode causar câncer de útero ou tumor [sic], garante o texto viral.

Para o ginecologista Macotela Nakagaki, essa afirmação “não tem fundamento científico (...) Não há nada que a mulher possa fazer, ou deixar de fazer para danificar a parede uterina”.

“Aparentemente essa publicação busca promover a desinformação e que as mulheres não realizem práticas indispensáveis como o papanicolau, porque a mulher pode dizer ‘já não tomo gelo e já não tomo água fria, então não corro risco e não preciso fazer o papanicolau”, disse Macotela Nakagaki.

É falso”, afirma também Reyes Navarro. A médica explica que o endométrio é um tecido criado dentro do útero todos os meses e que, quando não há gravidez, é descartado pela menstruação.

A especialista reconhece que “existe a crença” de que - frente a ausência da menstruação - “o sangue permanece dentro do útero”. Entretanto, isso tampouco acontece porque a falta de sangramento pode derivar de um problema no desenvolvimento do endométrio.

“Câncer de útero” e “esterilidade”

Reyes Navarro disse ainda que é impreciso utilizar a palavra esterilidade para se referir a impossibilidade de uma mulher ficar grávida, já que esta alude a algo que está limpo, livre de bactérias.

“A expressão correta é infertilidade, que significa que, durante um ano, o mesmo casal, com vida sexual regular, manteve relações sem proteção e não conseguiu engravidar”.

De acordo com o Instituto de Saúde Infantil dos Estados Unidos, a infertilidade feminina pode ser atribuída, entre outras causas, a falhas na ovulação, problemas no ciclo menstrual, anomalias físicas e no sistema reprodutivo, infecções, enfermidades autoimunes e câncer.

O Departamento sobre Saúde da Mulher do mesmo país indica que “os fatores que aumentam o risco de infertilidade da mulher” são a idade, fumar, ingerir muito álcool, o estresse, treinamento atlético excessivo, sobrepeso e ter doenças de transmissão sexual.

Tanto Reyes Navarro como Macotela Nakagaki confirmaram à AFP que é impreciso falar em “câncer de útero”. Nessa área do aparelho reprodutor feminino geralmente ocorrem dois tipos diferentes de câncer: o de endométrio e o de colo do útero, que podem afetar pacientes de diferentes idades.

Embora as causas do câncer de endométrio sejam desconhecidas, entre os fatores de risco estão a obesidade e o desequilíbrio hormonal, de acordo com a Sociedade Americana de Câncer.

Macotela Nakagaki pontuou que a maioria das mulheres que sofre de câncer de endométrio tem mais de 40 anos e já iniciou a menopausa. Entre os sintomas estão uma dor forte na parte pélvica e um sangramento “anormal”.

A Associação Espanhola contra o câncer afirma que o câncer de colo do útero, ou câncer cervical, é o segundo mais frequente nas mulheres a nível mundial, depois do câncer de mama.

A Organização Panamericana da Saúde indica que o Vírus do Papiloma Humano (HPV) é a principal causa do câncer de colo do útero. O papanicolau é o exame que as mulheres devem realizar regularmente para saber, entre outras coisas, se são ou não portadoras do vírus.

Em resumo, todos os pontos incluídos na lista de recomendações do que uma mulher não deve fazer durante o período menstrual para evitar ter câncer ou se tornar infértil são falsos.