A Associação Médica Americana não passou a recomendar a hidroxicloroquina contra a covid-19

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Publicações assegurando que uma prestigiosa associação médica norte-americana voltou atrás e passou a recomendar o uso da hidroxicloroquina para tratar a covid-19 foram compartilhadas mais de 25 mil vezes em redes sociais desde o último dia 17 de dezembro. Mas, embora a Associação Médica Americana tenha debatido o tema, a moção proposta não foi adotada.

“Associação Médica Americana declara que retira as restrições contra Hidroxicloroquina e admite seus benefícios, liberando para uso em tratamentos precoces visto a quantidade de artigos científicos citando seus resultados positivos na dose correta”, escreveu a imunologista Nise Yamaguchi, no Twitter, compartilhando um artigo publicado em 17 de dezembro.

A alegação difundida pela médica - que foi afastada do Hospital Albert Einstein em julho deste ano - foi replicada em múltiplas publicações no Facebook (1, 2, 3), Twitter (1, 2, 3) e Instagram. “Imaginem quantas vidas não teriam sido salvas com o tratamento com a hidroxicloroquina?”, questionou o deputado estadual Coronel Sandro (PSL), no Facebook.

Captura de tela feita em 22 de dezembro de 2020 de uma publicação no Twitter

O conteúdo também foi publicado no Twitter pelo infectologista francês Didier Raoult, em mensagem posteriormente deletada.

Raoult, diretor do instituto médico IHU Méditerranée, em Marselha, na França, conduz ensaios clínicos sobre esse tratamento de baixo custo e frequentemente utilizado contra a malária, afirmando que o medicamento também seria eficaz contra a covid-19.

No entanto, inúmeros pesquisadores e a Organização Mundial da Saúde (OMS) têm criticado seus estudos, por considerar que eles não foram conduzidos de acordo com os protocolos científicos padrão.

Outros estudos, como o francês Hycovid ou o Solidarity, conduzido pela OMS, concluíram: a hidroxicloroquina não é eficaz contra a covid-19.

Essa também foi a conclusão do amplo ensaio clínico britânico Recovery, que mostrou no início de junho que a hidroxicloroquina não reduz a mortalidade. Os resultados detalhados foram publicados em 8 de outubro no New England Journal of Medicine.

Essa saga foi marcada por um escândalo acadêmico: no início de junho, a prestigiosa revista científica The Lancet precisou retirar um estudo crítico sobre a hidroxicloroquina devido a fortes suspeitas de fraude. A polêmica reforçou a opinião dos ferozes defensores do tratamento.

Contactado por e-mail em 17 de dezembro sobre o tuíte do professor Raoult, o IHU Méditerranée não retornou até a publicação deste artigo.

Uma moção debatida, mas não adotada

A Associação Médica Americana (AMA) havia pedido, em março de 2020, “extrema prudência” quanto à prescrição da hidroxicloroquina, lembrando que “nenhum medicamento foi aprovado pela FDA [agência norte-americana de medicamentos] para tratar pacientes com covid-19.

O texto compartilhado pela médica Nise Yamaguchi, assim como o tuíte de Didier Raoult, citam um documento de 30 de outubro da AMA, sobre a moção 509, que propunha rever o posicionamento da organização sobre a hidroxicloroquina.

Como relatou o veículo científico norte-americano MedPageToday, em 16 de novembro, essa moção provocou um acirrado debate dentro da AMA, entre médicos que queriam a aprovação da resolução e aqueles que se opunham ao documento.

Ao final da discussão, a associação decidiu não adotar a moção, como pode ser lido neste documento da AMA de novembro:

Captura de tela feita em 17 de dezembro de 2020 de documento da Associação Médica Americana (AMA)

Em tuíte publicado em 16 de dezembro, a AMA reiterou que seu posicionamento sobre a prescrição da hidroxicloroquina “permanece inalterado” desde março.

Após ter emitido uma autorização emergencial para a prescrição de hidroxicloroquina contra a covid-19 no início da pandemia, a Agência Norte-americana de Medicamentos (FDA) voltou atrás em meados de junho, afirmando não ser mais “razoável” acreditar que os benefícios conhecidos e potenciais deste medicamento excediam os riscos.

Mais de 319 mil pessoas faleceram de covid-19 nos Estados Unidos, o equivalente à população da cidade de Cincinnati, em Ohio. O país é o primeiro em número de vítimas em todo o mundo, seguido pelo Brasil, com mais de 187 mil mortes.

Aqui, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) tampouco recomenda o “uso indiscriminado” do medicamento “sem a confirmação de que realmente funciona”.

Em resumo, é falso que a Associação Médica Americana (AMA) revogou restrições contra a prescrição da hidroxicloroquina e passou a recomendar o uso do medicamento no tratamento da covid-19. O tema foi debatido dentro da organização, mas a moção não foi adotada.

Tradução e adaptação
AFP Brasil
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