Presidente Jair Bolsonaro usa máscara durante coletiva de imprensa sobre o novo coronavírus no Palácio do Planalto, em Brasília, em 20 de março de 2020 (AFP / Sergio Lima)

Ao anunciar contágio por COVID-19, Bolsonaro cita dados imprecisos e remédios sem comprovação contra a doença

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O presidente Jair Bolsonaro anunciou nesta terça-feira que testou positivo para o novo coronavírus, informando que iniciou um tratamento com hidroxicloroquina e azitromicina. Também mencionou que muitos pacientes infectados pela COVID-19 estão tendo resultados positivos com a ivermectina, que o vírus “se dá melhor” em climas mais frios e que jovens infectados pela doença podem ficar “tranquilos”. Abaixo, o que se sabe até agora sobre estas afirmações.

Hidroxicloroquina

“Dado os sintomas, a equipe médica resolveu aplicar a hidroxicloroquina”, afirmou o presidente neste 7 de julho, ao anunciar que havia testado positivo para a COVID-19.

Medicamento indicado para casos de malária e lúpus, a hidroxicloroquina foi um dos primeiros remédios considerados para um possível tratamento contra o novo coronavírus.

Em março deste ano, estudos preliminares realizados na China e na França indicaram que o remédio ajudou algumas pessoas infectadas com a COVID-19. Logo, o uso do medicamento passou a ser defendido por políticos como o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e do Brasil, Jair Bolsonaro.

Em maio, Trump, chegou a afirmar que estava tomando a hidroxicloroquina apesar de ter testado negativo para o coronavírus. “Ouvi um monte de boas histórias”, disse, na época. No Brasil, o debate sobre a recomendação do medicamento levou à saída de dois ministros da Saúde - pasta que continua sem dirigente em meio à pandemia.


No início de junho deste ano, no entanto, um teste clínico realizado com 821 pessoas nos Estados Unidos e no Canadá indicou que tomar hidroxicloroquina não impede a infecção por COVID-19. O estudo, liderado pela Universidade de Minnesota, administrou o medicamento, ou um placebo, a adultos que estiveram em contato com pacientes de COVID-19 por mais de 10 minutos, verificando, em seguida, quantas dessas pessoas contraíram o novo coronavírus.

“Este estudo randomizado não demonstrou nenhum benefício significativo da hidroxicloroquina como tratamento profilático após a exposição à COVID-19”, afirmaram os autores do estudo. 

Comprimidos de hidroxicloroquina em uma farmácia em Provo, Utah, nos Estados Unidos, em 20 de maio de 2020

Alguns dias depois, a agência de Medicamentos de Alimentos dos Estados Unidos (FDA) revogou a autorização de uso de emergência (EUA, na sigla em inglês) que permitia a administração da hidroxicloroquina a pacientes com COVID-19 no país.

“Com base em sua análise contínua dos EUA de dados científicos emergentes, a FDA determinou que é improvável que a cloroquina e a hidroxicloroquina sejam eficazes no tratamento contra a COVID-19”, afirmou a agência, no último dia 15 de junho.

De maneira semelhante, em 17 de junho, a OMS suspendeu as pesquisas que estava realizado para avaliar a eficácia da hidroxicloroquina contra a COVID-19, afirmando que os dados de seus próprios estudos e do Recovery trial - amplo ensaio clínico realizado no Reino Unido - indicaram que a hidroxicloroquina “não resulta em uma redução na mortalidade de pacientes hospitalizados de COVID-19”.

Azitromicina

Após declarar que sua equipe médica decidiu utilizar a hidroxicloroquina, um repórter questionou o presidente se o remédio estava sendo aplicado em conjunto com a azitromicina. A resposta foi positiva.

Apesar da fala de Bolsonaro, a combinação de hidroxicloroquina com azitromicina segue sem ser indicada por instituições de saúde nacionais e internacionais.

Em um documento de 18 de maio contendo diretrizes para o tratamento farmacológico da COVID-19, e que contou com a participação da Associação de Medicina Intensiva Brasileira, da Sociedade Brasileira de Infectologia e da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, é assinalado: “Sugerimos não utilizar a combinação de hidroxicloroquina ou cloroquina e azitromicina de rotina no tratamento da COVID-19 (recomendação fraca, nível de evidência muito baixo)”.

Em sua consideração, “o painel de recomendações entendeu que as evidências disponíveis não sugerem benefício clinicamente significativo do tratamento com HCQ [hidroxicloroquina] ou com CQ [cloroquina] em associação com a AZ [azitromicina]. Houve entendimento de que o risco de eventos adversos cardiovasculares é moderado [...] sendo potencializado com a associação de HCQ/CQ com AZ, necessitando maiores cuidados”.

Ivermectina

Durante a entrevista, Bolsonaro também mencionou a ivermectina, que tem sido amplamente divulgada nas redes sociais como um dos possíveis tratamentos à COVID-19. “Eu sei que não tem uma comprovação científica ainda, mas, a eficácia da hidroxicloroquina, bem como ivermectina, entre outros, têm aparecido e muita gente tem dito que após ter ministrado esses medicamentos passou a se sentir muito bem”.

A ivermectina, de fato, ainda não teve a sua eficácia comprovada no tratamento da COVID-19. Até este momento, o medicamento tem sido usado para tratar algumas infecções parasitárias em humanos e também em animais, mas sob outra fórmula. 

Mulher passa por mural pintado pelo grupo de artistas Wachata em Dar es Salaam, Tanzânia, em 26 de maio de 2020

Em 8 de abril, o site Science Direct publicou um estudo garantindo que a ivermectina pode inibir, in vitro, a replicação do novo coronavírus em 48 horas. Isso quer dizer que os testes não foram realizados dentro de um organismo vivo, mas com instrumentos de laboratório.

No último dia 22 de junho, no entanto, a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) divulgou uma nota, destacando que esta pesquisa não passou por uma revisão de outros cientistas, nem foi publicada formalmente.

Diante disso, e após uma revisão de outros experimentos sobre o efeito da ivermectina contra a COVID-19, a OPAS concluiu que os estudos apresentam “um alto risco de parcialidade, pouca certeza de evidência e que a evidência existente é insuficiente para chegar a uma conclusão de seus benefícios e danos”.

A OMS também optou por retirar a ivermectina do estudo que patrocina para encontrar um tratamento eficaz para a COVID-19 e permanece com a indicação de que ainda não há medicamento que cure, previna ou trate a doença.

A FDA segue igualmente sem indicar a ivermectina: “Enquanto existem usos aprovados para a ivermectina em pessoas e animais, ela não foi autorizada para a prevenção ou tratamento da COVID-19”.

A agência norte-americana também menciona o estudo in vitro, mas assinala que este tipo de análise em laboratório é usado no estágio inicial do desenvolvimento de remédios e que “testes adicionais são necessários para determinar se a ivermectina pode ser apropriada para prevenir ou tratar” a doença causada pelo novo coronavírus.

Coronavírus “se dá melhor” no frio?

Mulheres praticam yoga usando máscaras na praia de La Barceloneta, em Barcelona, em 24 de maio de 2020

Questionado na mesma coletiva de imprensa sobre as medidas de isolamento adotadas amplamente no país, Bolsonaro afirmou que não teria agido dessa forma, já que o Brasil conta com diferentes climas e que o novo coronavírus “se dá melhor em climas mais frios”.

No entanto, ainda não se sabe se a temperatura influencia a propagação da COVID-19, como explicam os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC).

De maneira semelhante, a OMS informa em seu site que é possível contrair o novo coronavírus “independentemente do quão ensolarado ou quente seja o clima”. Até este 7 de julho, o Brasil registrava mais de 1,6 milhão de casos confirmados da doença e mais de 66 mil mortes, segundo o Ministério da Saúde.

Jovens podem “ficar tranquilos”?

O presidente Bolsonaro também afirmou que, para pessoas com menos de 40 anos e sem doenças prévias, “a chance é próxima a zero a ter consequências maiores da contaminação” pelo novo coronavírus. “Os mais jovens tomem cuidado, mas se forem acometidos com o vírus, fiquem tranquilos”, disse.

Embora a letalidade entre os mais jovens seja muito baixa, estes também podem contrair a doença e falecer. Este foi o caso de Julie A., que tinha 16 anos e nenhum problema de saúde prévio. Mas segundo relatou sua mãe à AFP, o que começou como uma tosse evoluiu rapidamente para uma insuficiência respiratória, fazendo com que ela tivesse que ser entubada e, posteriormente, levou-a à morte.

No Rio de Janeiro, um adolescente de 12 anos também faleceu em decorrência da COVID-19. Em Indianapolis, Estados Unidos, o mesmo ocorreu com um jovem de 16 anos, assim como com um menino de 13 anos em Londres.

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