As afirmações falsas do doutor Petrella em um vídeo sobre a covid-19

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Em um vídeo que circula nas redes sociais desde o último mês de agosto, um médico italiano, identificado como doutor Roberto Petrella, diz que a vacinação enfraquece o sistema imunológico das pessoas e que “covid-19” é o nome de um plano de redução populacional. A maior parte das afirmações contidas no vídeo são, contudo, falsas ou infundadas.

“Relato do médico italiano sobre o ChinaVírus dizendo a verdade por trás dessa pandemia farsante e o controle populacional executado através da vacinação geral”, diz uma das publicações, compartilhadas mais de 9.500 vezes no Facebook (1, 2, 3, 4), ao menos desde 30 de agosto de 2020.

As mensagens, que também circularam no Twitter, YouTube, e foram enviadas ao WhatsApp do AFP Checamos, acompanham um vídeo de pouco mais de seis minutos, no qual um homem vestido de jaleco branco e que se identifica como “doutor Roberto Petrella” fala sobre o novo coronavírus.

Na gravação, ele afirma que a covid-19 é um “programa de extermínio em massa” com o objetivo de “despovoamento massivo de 80% da população” do mundo. O homem também adverte contra a vacinação para prevenir a doença, afirmando que o imunobiológico deixará todos doentes e, eventualmente, levará à morte.

Segundo afirma no vídeo, nenhum exame pode pode detectar com precisão o novo coronavírus e existe um plano, na França, para declarar que 90% das pessoas testadas deram positivo para a covid-19.

Captura de tela feita em 8 de setembro de 2020 de uma publicação no Facebook

O mesmo vídeo circulou em espanhol, sérvio, polonês, árabe e holandês.

Uma busca pelo nome de Roberto Petrella no Google leva a diferentes artigos da mídia italiana (1, 2) que o identificam como um ginecologista aposentado, conhecido por sua oposição à vacina contra o Vírus do Papiloma Humano (HPV, na sigla em inglês).

A equipe de checagem da AFP constatou que ao menos cinco das afirmações do vídeo de Petrella são falsas ou carecem de provas.

1. Covid-19 é o nome de um plano para reduzir a população: Falso 

Uma manifestante utiliza máscara com os dizeres: “Não dê uma oportunidade a Gates [em referência a Bill Gates]”, em Berlim, em 16 de maio de 2020

No início do vídeo, Petrella assegura que covid-19 significa “certificado de identificação de vacinação com a inteligência artificial” e que o número 19 representa o “o ano em que ele foi criado”. Também afirma que a covid-19 “não é o nome do vírus”, mas de um “plano internacional de controle e de redução da população”.

No entanto, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, explicou em uma coletiva de imprensa em 12 de fevereiro de 2020, quando foi anunciado o nome da doença, a origem do termo covid-19: “‘CO’, C-O, significa corona, ‘VI’, significa vírus, ‘D’ é doença, então ‘COVID’”.

Segundo a OMS, a covid-19 é uma nova doença vinculada à mesma família de vírus da Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS, na sigla em inglês) e de alguns tipos de resfriados comuns. A enfermidade foi identificada no final de 2019 na cidade chinesa de Wuhan e o vírus que a causa foi chamado de SARS-CoV-2.

Diferentes teorias sobre “planos internacionais de controle” por meio da implantação de microchips com vacinas e sobre projetos “para reduzir a população” circulam há muito tempo nas redes sociais, mas ganharam força com o início da pandemia do novo coronavírus.

Ambos os “planos” são atribuídos com frequência ao empresário e filantropo Bill Gates. Um porta-voz da Fundação Bill e Melinda Gates já disse à AFP que as afirmações sobre o controle da população mediante à implantação de microchips são falsas.

Além disso, durante uma coletiva de imprensa em junho de 2020, Gates disse a jornalistas: “Eu nunca estive envolvido em nada ligado a microchips”.

Já o suposto plano de Gates para reduzir a população mundial surgiu da má interpretação de um discurso sobre a redução das emissões de carbono feito pelo empresário em 2010.

“O mundo tem atualmente 6,8 bilhões de pessoas. E está a caminho de chegar a 9 bilhões. Agora, se fizermos um grande trabalho em novas vacinas, cuidados de saúde e serviços de saúde reprodutivos, poderíamos diminuir essa cifra, talvez, 10% ou 15%”, disse. Gates estava se referindo a reduzir o crescimento da população mundial em “10% ou 15%” para reduzir as emissões de carbono, não a reduzir a população real.

2. A vacinação enfraquece o sistema imunológico e leva à morte: Falso

Petrella também afirma as vacinas anteriores enfraqueceram o “terreno imunológico” e que a vacina contra a covid-19 tem como objetivo o “despovoamento massivo de 80% da população”. “Uma vez vacinados todos ficarão gravemente doentes e enfraquecidos” e “certamente” serão “conduzidos à morte”.

O médico Srdja Jankovic, imunologista do principal hospital infantil de Belgrado e integrante do comitê do governo sérvio para gestão da pandemia, disse à AFP que “não há como a vacinação ‘enfraquecer’ um sistema imunológico”.

“Se vacinar contra uma doença praticamente não afeta a resistência a outra. A vacinação protege os seres humanos e sua saúde de doenças muito perigosas”, explicou, por e-mail.

Questionada se as vacinas podem prejudicar o sistema imunológico, Maja Stanojevic, virologista do Instituto de Microbiologia e Imunologia de Belgrado e consultora da Organização Mundial da Saúde, respondeu: “Não, ponto final”.

Stanojevic acrescentou que “não há procedimento médico sem risco” e que sempre existe “certo risco de consequências não desejadas para qualquer vacina, mas considerando o nível geral da população e o número de pessoas vacinadas, esse risco é significativamente pequeno”.

Vacina da farmacêutica Sinovac Biotech na Feira Internacional de Comércio de Serviços da China (CIFTIS) em Pequim, em 6 de setembro de 2020

Segundo a OMS, “as vacinas são muito seguras, apesar das implicações contrárias em muitas publicações antivacinas. A maioria dos efeitos adversos das vacinas são pequenos e temporários, como uma dor no braço ou uma febre leve”.

O epidemiologista Predrag Djuric também explicou à equipe de checagem da AFP que “as vacinas funcionam criando imunidade contra determinada doença, não debilitando a imunidade atual” de uma pessoa. “Não há dúvidas de que a vacinação salvou milhões de vidas até agora e que representa uma das medidas mais efetivas e seguras”, acrescentou.

“Falando sobre possíveis vacinas contra a covid-19, quase todas as vacinas que estão atualmente em processo de testes seguem procedimentos e protocolos estabelecidos, que são transparentes e estão disponíveis para o público”, disse Djuric por e-mail.

Cientistas de todo o mundo estão competindo para criar uma vacina contra a covid-19. Segundo a OMS, 33 vacinas estão sendo testadas em humanos.

“As afirmações de que ‘eles’ querem produzir vacinas para causar a morte de bilhões de pessoas não merecem, na verdade, um comentário sério. Qualquer teoria ou suposição deve se basear na evidência existente e no conhecimento acumulado adquirido através de um método científico, do qual carecem as teorias conspiratórias”, concluiu Djuric.

“As consequências mortais da vacinação na população em geral estão completamente descartadas”, disse Jankovic.

3. As pessoas não vacinadas não poderão viajar ou até sair de casa: Sem provas

No vídeo, o ex-ginecologista prevê, também, que “a maioria das pessoas não vacinadas deixará de existir para a sociedade”. “Você não poderá viajar sem vacina não poderá ir ao cinema e no futuro não poderá nem sair de casa. Isso já está acontecendo em algumas cidades chinesas”, assegura.

No entanto, esse cenário não poderia estar acontecendo atualmente em cidades chinesas uma vez que nenhuma vacina foi aprovada pela comunidade internacional até agora para prevenir a covid-19.

Apesar disso, uma reportagem da BBC assegura que, segundo um alto funcionário de saúde da China, este país tem testado vacinas secretamente em trabalhadores chave desde julho.

Segundo o artigo, “Zheng Zhongwei, da Comissão Nacional de Saúde, disse à televisão estatal que os poderes de emergência que permitem o uso de vacinas em desenvolvimento ainda não aprovadas permitiram que funcionários da fronteira e de outras áreas recebessem uma vacina”.

Para deter a propagação da doença, a China optou por medidas severas como o isolamento total de Wuhan em janeiro e a imposição de uma quarentena em várias zonas de Pequim em junho. Estas medidas foram suspensas depois que autoridades afirmaram que a pandemia estava controlada no país.

Em 3 de setembro, o aeroporto de Pequim retomou os voos internacionais, marcando os esforços do país para mudar sua imagem.

4. Os testes não são confiáveis e não detectam o novo coronavírus: Falso 

Um funcionário de saúde realiza um teste de covid-19 em uma zona residencial em Chennai, na Índia, em 7 de setembro de 2020

“Nenhum dos testes é capaz de detectar com precisão o vírus SARS-CoV-2”, disse Petrella.

“Essa afirmação é absolutamente falsa”, afirmou à AFP Oliver Stojkovic, geneticista e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Belgrado.

“Todos os testes de PCR utilizados para detectar o SARS-CoV-2 são confiáveis e precisos já que, em 11 de janeiro, foi identificada a informação genética completa do vírus, o RNA [Ácido Ribonucleico, que é o único material genético de alguns vírus], explicou.

“Este método detecta especificamente o RNA do novo coronavírus, especificamente para o SARS-CoV-2. Não detecta a presença de material genético de outros vírus”, indicou Stojkovic.

Nesta outra verificação, o doutor em Medicina, especialista em saúde pública, e professor da Escola Andaluza de Saúde Pública (EASP) Joan Carles March afirmou à AFP que a OMS disse que “embora um teste de PCR não possa captar a presença do vírus em sua totalidade, ou determinar 100% que uma pessoa tem o vírus, é o método mais responsivo que temos para detectar que o vírus esteve ali”.

De maneira semelhante, a doutora em Neurociência e Ciências Endócrinas-Metabólicas da Universidade de Pisa Magdalena Montt Guevara afirmou à AFP que o teste é “extremamente responsivo, com quantificação confiável de baixos níveis de vírus e alta precisão e reprodutibilidade em uma ampla faixa dinâmica” e que é a técnica que tem “a mais alta sensibilidade, reprodutibilidade e simplicidade”.

O teste de PCR (reação em cadeia da polimerase), realizado por meio da coleta de secreção nasal nasal, é utilizado para detectar o novo coronavírus e não deve ser confundido com a análise sanguínea que identifica a presença de anticorpos uma vez que a pessoa teve o vírus e se curou.

Os testes de PCR “detectam o material genético do SARS-CoV-2 para determinar se uma pessoa está infectada naquele momento. As autoridades chinesas forneceram a sequência genômica completa do vírus no início de janeiro, o que permitiu que muitos laboratórios elaborassem exames de PCR que agora são utilizados para detectar casos em todo o mundo”, indicou a OMS em junho.

5. Testes em massa em escolas na França: Falso

Na gravação, Petrella especula que há um objetivo de declarar que “cerca de 90%” das pessoas que fizeram os testes testaram positivo, insistindo que “é por isso que iniciaram o processo de teste com crianças do mundo todo”. “No dia 11 de maio [...] na França testes em massa estavam sendo impostos em todas as escolas. Foram cerca de 700 mil testes por semana”, assegura.

Uma busca no Google não localiza, contudo, notícias sobre testes em massa realizados em estudantes na França após a reabertura das escolas 11 de maio.

Pelo contrário, em suas orientações publicadas em 24 de abril, o Conselho Científico do Ministério da Saúde francês não recomenda a realização de testes em massa com os estudantes porque os exames “afetariam mais de 14 milhões de pessoas e teriam que ser realizados com regularidade (a cada 5-7 dias) para detectar casos e prevenir de maneira eficaz a circulação do vírus”.

Em sua página com informações sobre o novo coronavírus, o governo francês não menciona a realização de testes em massa, nem em escolas nem para o público em geral.

Além disso, no último dia 6 de maio, o jornal local Lyon Capitale informou que 45 diretores de estabelecimentos de ensino do departamento de Ródano pediram às autoridades que não abrissem as escolas porque as “condições de saúde” não estavam sendo cumpridas. Entre elas, afirmaram que não estavam “planejados testes sistemáticos para os funcionários ou para os estudantes”.

Petrella também disse que a Espanha, a Argentina e outros países latinos são os “principais países de test drivers”, embora não existam evidências de que isso seja verdade.

Segundo dados do portal Worldometers, em 4 de setembro de 2020, os Estados Unidos, a Rússia e o Reino Unido eram os países com a maior proporção de exames realizados, com cerca de 240 mil pessoas testadas a cada milhão de habitantes.

A Espanha possui uma média de 182.161 pessoas por milhão, a Argentina 25.912, o México 10.103, o Brasil 66.602, enquanto o Uruguai testa 166.117 pessoas por milhão, segundo os dados da mesma plataforma.

O protagonista do vídeo viral também especula que depois que as crianças forem submetidas a um exame de covid-19, “toda a família e todos os contatos imediatos serão forçados a passar por uma triagem”. Isso é enganoso.

Se uma pessoa, inclusive uma criança, testa positivo para a covid-19, alguns países como os Estados Unidos recomendam que aqueles que tiveram contato com ela se isolem para evitar a propagação do vírus. Outros requerem um auto-isolamento sob a supervisão de um profissional de saúde, como a Sérvia.

6. Ter o vírus não significa que você está doente: Verdadeiro

Um homem alimenta pássaros em um parque em Ancara, em 7 de setembro de 2020

Essa é a única afirmação verdadeira de Petrella, dentre as que podem ser verificadas.

Algumas pessoas podem se infectar com o novo coronavírus, mas não apresentar sintomas, indicam os especialistas. Por isso, é difícil determinar quantas pessoas são assintomáticas, já que elas se sentem bem e não costumam fazer os testes.

“As estimativas de casos assintomáticos confirmados [pessoas infectadas que nunca desenvolvem os sintomas] variam de 40% e 45%”, disse o epidemiologista George Rutherford da Universidade da Califórnia em San Francisco (UCSF), segundo um artigo do MedicalXpress.

No entanto, esse número pode ser maior. “Durante testes em massa recentes em Mission District, San Francisco, onde cerca de 3 mil pessoas foram convidadas, doentes ou não, a Dra. Carina Márquez da UCSF e sua equipe se surpreenderam ao descobrir que 53% das pessoas que testaram positivo não tinham febre, nem tosse, dores musculares ou fadiga intensa. Respiravam normalmente. Mantinham o olfato e o paladar perfeitos”, acrescenta, no artigo.

Não desenvolver os sintomas não significa, contudo, que uma pessoa não possa transmitir a doença. Como indicou à AFP nesta verificação, o epidemiologista e professor do Instituto de Saúde Pública da Universidade Javeriana, na Colômbia, Jorge Rodríguez, quase todos os vírus possuem casos de pacientes que não apresentam sintomas mas que podem “potencialmente transmití-lo a outras pessoas”.

Segundo a OMS, “algumas pessoas sem sintomas podem transmitir o vírus”, embora “ainda não se saiba com que frequência isso ocorre”.

Em resumo, a maior parte das afirmações feitas pelo ex-ginecologista italiano Roberto Petrella em um vídeo viral, entre as quais a de que a vacinação enfraquece o sistema imunológico das pessoas ou que “covid-19” é o nome de um plano de redução populacional, são falsas ou infundadas.

 
Katarina Subasic
Tradução e adaptação
AFP Brasil
CORONAVÍRUS