Não, esta foto não mostra um toureiro tendo uma crise de remorso

Uma foto que circula na internet há anos alega mostrar o toureiro Álvaro Múnera arrependido durante uma tourada no fim de sua carreira. A foto está fora de contexto e o ‘matador’ mostrado é outro.

“Esta foto incrível marca o fim da carreira do toureiro Alvaro Múnera. Ele entrou em colapso no meio de uma luta quando chegou a hora de matar o touro. Ele passou a se tornar um adversário ávido de touradas”, diz a descrição das postagens nas redes sociais que há anos viralizam.

O toureiro espanhol Enrique Ponce faz um desplante ante um touro de Tornay no dia 17 de maio de 1997, nas arenas de Nimes, durante a Feira de Pentecote. (AFP / Anne-christine Poujoulat))

A informação, também publicada em inglês, italiano, chinês, francês e espanhol, é ilustrada por um toureiro sentado durante uma corrida, com a cabeça baixa, em frente a um touro que parece não atacar-lhe.

Outras publicações, que se fizeram extremamente virais, afirmam que o animal apiedou-se do toureiro. “O touro, como que sentindo o sofrimento do toureiro, foi solidário e ficou ao lado dele, sem recorrer a qualquer tipo de violência”, afirmam.

Primeiramente, o momento captado pela foto trata de uma manobra comum na tauromaquia chamada “Desplante”. Próximo do fim das disputas, os matadores podem realizar ações arriscadas como maneira de adornar sua performance, destacando sua coragem, como tocar os chifres, sentar sobre o touro, ajoelhar ou sentar-se na frente da besta. O que vemos na foto é um matador realizando este tipo de recurso.

O toureiro mostrado na foto não é, tampouco, Álvaro Múnera, famoso profissional da tauromaquia de origem colombiano. Ele se tornou um ativista antitouradas depois que, em 1984, sofreu um acidente durante uma corrida, na Espanha, que o deixou paraplégico. O toureiro da foto é Francisco Javier Sánchez Vara, um espanhol. Ainda que meios de comunicação locais tenham indicado sua identidade na imagem, a equipe de checagem da AFP no Brasil e no Canadá confirmou a informação com Verónica Dominguez, fotógrafa de touradas há mais de 20 anos, e que trabalha no Sindicato dos Toureiros espanhol.

Ela, que, em suas palavras, é “a primeira fotógrafa de touradas espanhola”, declarou à AFP: “Sanchez Vara, sem nenhuma dúvida (...) Nós fotógrafos reconhecemos a silhueta, o cabelo, o gesto dos toureiros sem ver seus rostos”.

O matador espanhol Javier Sanchez Vara faz um passo de muleta em um touro Cebada Gago durante a segunda corrida das festas de São Firmino, no dia 8 de julho de 2008 em Pamplona, no norte da Espanha. (AFP / A. Arrizurieta)

Finalmente, várias postagens utilizam uma citação, atribuída a Álvaro Múnera, como evidência da falsa história: “Múnera explica este momento: ‘E, de repente, eu olhei para o touro. Ele tinha essa inocência que todos os animais têm em seus olhos, e ele olhou para mim como me contestasse. Era como um grito de justiça, no fundo, dentro de mim. Eu o descreveria como sendo uma oração - espero que tenha me perdoado. Eu me senti a pior merda na Terra’."

No entanto, mais uma vez a versão é falsa. A citação é uma adaptação de um trecho da coluna publicada pelo escritor espanhol Antonio Gala no El País em 1995.

Captura de tela de um fac-símile do artigo "La Raza Inhumana" publicado por Antonio Gala no El País em 1995, feita 12 de dezembro de 2018

Contatado pela AFP, Múnera declarou: 

Em resumo, ainda que se trate de uma foto verdadeira, a mesma não mostra um toureiro arrependido nem um touro com pena do matador. O texto que ilustra estas versões não é do toureiro Álvaro Múnera e o homem da foto é, na verdade, o espanhol Sánchez Vara.

A equipe de checagem da AFP na França também já desmentiu histórias ligadas à tauromaquia.

EDIT 14/12/2018: Adicionada declaração de Álvaro Múnera.