A imagem de aglomeração na praia de Ipanema foi registrada no último domingo, 30 de agosto

Copyright © AFP 2017-2020. Todos os direitos reservados.

Várias publicações compartilhadas centenas de vezes nas redes sociais replicando um tuíte do jornalista Guilherme Fiuza afirmam que uma fotografia da praia de Ipanema lotada não teria sido registrada em meio à pandemia de covid-19, mas que ela seria antiga. Essa afirmação, entretanto, é falsa: a imagem foi feita, de fato, em 30 de agosto, quando o Rio de Janeiro registrava mais de 223 mil casos e 16 mil mortes pelo novo coronavírus.

“O Brasil não tem imprensa. Em seu lugar, atuam organizações criminosas lutando para devolver o Executivo a bandidos”, indica a legenda de uma das postagens, que circula desde o último dia 31 de agosto e foi compartilhada mais de 680 vezes no Facebook (1, 2).

A maior parte das publicações, que também circularam no Instagram (1, 2) e registraram mais de 6 mil curtidas, usam a captura de tela de um tuíte feito pelo jornalista Guilherme Fiuza, que diz: “O Estado de S. Paulo publicou foto ANTIGA da praia de Ipanema lotada como se fosse ontem. Os cariocas foram à praia mas o jornal foi buscar no arquivo uma aglomeração muito maior (esse mar de barracas grudadas NÃO EXISTIU) p/ilustrar sua fake news viral”.

Captura de tela feita em 2 de setembro de 2020 de uma publicação no Instagram

O vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos/RJ), filho do presidente Jair Bolsonaro, chegou a comentar a postagem de Fiuza.

Uma busca reversa pela fotografia viralizada no Google Imagens não mostra, contudo, publicações anteriores ao dia 30 de agosto.

Neste dia, o jornal Estado de S. Paulo publicou em seu site a matéria intitulada “Praias do Rio ficam cheias neste domingo mesmo com proibição por causa da covid-19”, ilustrada com duas fotografias tiradas por Wilton Junior: a que mostra as barracas e viralizou nas redes, e uma segunda, de duas jovens utilizando máscaras de proteção. 

Com a repercussão da imagem e da afirmação de que ela seria antiga, o Estadão chegou a publicar um texto no dia seguinte, afirmando ter sido “atacado com fake news”.

Nesse artigo, o fotógrafo Wilton Junior contou que chegou à praia e começou a fotografar por volta de 14h30 usando uma lente teleobjetiva. “A foto foi feita no Arpoador, ali na entrada de Ipanema. A praia estava muito cheia e com muito guarda sol, coisa que a gente não via há muito tempo”. Depois seguiu para o Leblon, que estava mais vazio, mas com pessoas na areia.

O Estadão também chegou a responder o tuíte de Guilherme Fiuza, já apagado.

Posteriormente, Fiuza escreveu em sua conta no Twitter: “O @Estadao afirma q não usou foto de arquivo da praia de Ipanema. Todas as fontes q consultei me afirmaram não ter havido essa aglomeração de barracas, mas na série de Wilton Junior aparecem pessoas de máscara e posso ter sido induzido a erro. Se isso aconteceu, o leviano fui eu”.

No site do Estadão há uma galeria de fotos da praia de Ipanema no último domingo. Uma comparação entre os elementos vistos na imagem viralizada e na foto que mostra em primeiro plano duas jovens usando máscara, permite constatar de que se trata do atual momento pandêmico.

Comparação dos elementos nas fotos tiradas por Wilton Junior para o Estadão feita em 2 de setembro de 2020

Por meio da ferramenta InVID-WeVerify* foi possível chegar aos metadados da fotografia e confirmar o horário e a data, bem como outros detalhes de câmera e modelo. De fato, a imagem foi registrada em 30 de agosto, às 14h39, horário próximo ao indicado por Wilton Junior em seu depoimento. 

No domingo, o Rio de Janeiro teve um dia de calor e muitos veículos de comunicação (1, 2, 3) divulgaram imagens das praias lotadas. Na atual etapa de flexibilização devido à pandemia de covid-19, o banho de mar é permitido, mas permanecer na areia, não. A cidade entra neste mês de setembro em sua 6ª fase.

Em 30 de agosto, o estado do Rio de Janeiro registrava mais de 223 mil casos confirmados de novo coronavírus e 16 mil óbitos em decorrência da covid-19. No Brasil, o número de casos superava os 3,8 milhões, com 120 mil falecimentos, segundo dados do Ministério da Saúde.

Em resumo, é falso que a fotografia tirada pelo fotógrafo Wilton Junior para o Estadão e replicada pelo jornal em matérias mencionando a aglomeração na praia de Ipanema em meio à pandemia de covid-19 seja antiga. A imagem foi registrada em 30 de agosto de 2020, como foi possível confirmar pelos metadados por meio da ferramenta InVID-WeVerify.

Esta mesma desinformação foi checada por Aos Fatos, Agência Lupa e Fato ou Fake.

*Uma vez instalada a extensão InVid-WeVerify no navegador Chrome, clica-se com o botão direito sobre a imagem e o menu que aparece oferece a possibilidade de pesquisa da mesma em vários buscadores.

AFP Brasil
CORONAVÍRUS