Uma lista sobre quem é considerado não vacinado na Alemanha contém dados falsos ou imprecisos

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Uma lista de critérios supostamente utilizados para definir se pacientes foram ou não vacinados contra a covid-19 na Alemanha foi compartilhada mais de mil vezes em redes sociais desde meados de janeiro de 2022. Segundo as publicações, essas definições servem para aumentar artificialmente a estatística de pessoas não vacinadas entre os internados no país. No entanto, autoridades de saúde, associações hospitalares e hospitais alemães disseram à AFP que seguem as diretrizes oficiais do governo - que diferem em parte do viralizado. Além disso, muitos dos critérios citados nas publicações não são levados em conta nas estatísticas oficiais de pacientes internados na Alemanha.

“Burocratas alemães anunciaram que 2/3 dos hospitalizados são de ‘não vacinados’. Entendam a classificação!”, começam as publicações, compartilhadas mais de 1.800 vezes no Facebook (1, 2, 3) e Twitter.

“Status vacinal desconhecido = não vacinado; 1 dose = não vacinado; 2 doses com data inferior a 14 dias = não vacinado; 2 doses com sintomas = não vacinado; 2 doses com vacinação cruzada = não vacinado; 2 doses há mais de seis meses (talvez 4, 5 ou 12 meses) = não vacinado; Vacinado com preparados não autorizados pela União Europeia ( por ex. Sinovac, Sputnik) = não vacinado; Curado há mais de 6 meses = não vacinado”, listam as publicações.

Captura de tela feita em 17 de janeiro de 2022 de uma publicação no Twitter ( . / )

As autoridades alemãs têm, de fato, divulgado que grande parte dos pacientes com covid-19 que precisaram ser internados em Unidades de Terapia Intensiva (UTI) do país não haviam se vacinado contra a doença. A lista viralizada fez com que alguns usuários duvidassem desses números.

“Eu já tinha desconfiado dessa conversa de ‘a maioria dos leitos de UTI estavam sendo ocupados por não vacinados’”, comentou um usuário em uma das publicações no Facebook. “Ah mas não tem ninguém vacinado na uti , aham çey!”, escreveu outro.

A lista compartilhada nas redes é, contudo, enganosa.

Quem é considerado vacinado na Alemanha?

A definição de quem é considerado vacinado na Alemanha é regulada pela Portaria de Exceções a Medidas de Proteção contra a covid-19, publicada no site do Ministério da Justiça alemão.

Em resumo, qualquer pessoa que tenha sido vacinada com um imunizante aprovado na União Europeia e tenha recebido a última dose há pelo menos 14 dias está totalmente vacinada. Dependendo da vacina, mais de uma dose pode ser necessária. A vacinação cruzada com diferentes imunizantes também é possível.

Além disso, as pessoas são consideradas totalmente vacinadas se tiverem contraído a covid-19 (mediante confirmação com teste PCR) ou tiverem um teste de anticorpos positivo, e tiverem recebido uma dose de alguma das vacinas.

O Instituto Robert Koch (RKI), agência do governo alemão responsável pelo controle e prevenção de doenças, e o Instituto Paul Ehrlich (PEI), responsável por pesquisas sobre vacinas, também listam esses mesmos critérios.

Contactados pela AFP em novembro de 2021, diversos hospitais alemães confirmaram seguir essas definições ao relatar os casos de covid-19. A informação foi reiterada pelo Hospital Universitário Gießen e Marburg (UKGM), pelas Clínicas Helios, pela Sociedade Hospitalar Alemã (DKG) e pela Associação Federal de Clínicas Privadas Alemãs (BDPK).

Como são formadas as estatísticas?

O número de casos, incluindo o status de vacinação dos pacientes, são reunidos e publicados pelo Instituto Robert Koch. Susanne Glasmacher, porta-voz do RKI, explicou em um e-mail à AFP em 1º de dezembro de 2021 que os próprios hospitais registram os pacientes e encaminham esses dados às autoridades de saúde locais que, por sua vez, encaminham os formulários ao RKI.

O RKI, em seguida, divide esses dados em quatro categorias: “totalmente vacinado”, “vacinação incompleta”, “não vacinado” ou “status de vacinação desconhecido”. Essas informações são posteriormente divulgadas em relatórios semanais.

A seguir, a AFP explica por que vários itens da lista viralizada são incorretos ou irrelevantes para as estatísticas reunidas pelo RKI.

“1 dose = não vacinado”: Enganoso

As pessoas que receberam apenas uma dose realmente são consideradas não vacinadas, a menos que tenham sido imunizadas com a vacina Janssen, da Johnson & Johnson. Nesse caso, apenas uma dose é necessária para a imunização básica, de acordo com o Comitê Permanente de Vacinação (Stiko). O Stiko recomenda a aplicação de uma segunda dose de uma vacina de mRNA para otimizar a proteção dessas pessoas, mas isso não é necessário para obter um certificado de vacinação.

Christine Bode, porta-voz do Hospital Universitário Gießen e Marburg GmbH (UKGM), confirmou à AFP o caso especial da Janssen: aqueles que receberam uma única dose da Janssen são registrados como “vacinados”, afirmou.

“2 doses com data inferior a 14 dias = não vacinado”: Irrelevante para estatísticas

As clínicas registram as pessoas que receberam duas doses há menos de 14 dias como “não vacinadas”, mas incluem informações adicionais aos formulários enviados ao RKI, explicaram porta-vozes da Helios e do UKGM. “Para aqueles que não foram totalmente vacinados, inserimos a dose da vacina indicada e listamos a pessoa como ‘não vacinada’”, explicou a porta-voz da Helios, Franziska Vallentin.

Versões deste formulário de notificação padrão estão disponíveis online e foram verificadas pela AFP junto ao Departamento de Saúde de Pankow, em Berlim (semelhante aqui e aqui). A partir desses dados, é o RKI quem classifica oficialmente o status vacinal do paciente.

De acordo com a porta-voz do RKI Marieke Degen, as pessoas que receberam duas doses de vacinas aprovadas na UE mas que foram registradas como “não vacinadas” são irrelevantes para as estatísticas compartilhadas nos relatórios semanais.

“Os casos que são vacinados, mas que não atendem à definição de vacinação básica (por exemplo, apenas uma dose da vacina Moderna ou menos de 14 dias desde a vacinação) são classificados como vacinação incompleta e não são mais considerados nas análises”, explicou Degen em e-mail enviado à AFP em 27 de dezembro.

O relatório semanal de 23 de dezembro de 2021, por exemplo, afirma: “Os casos que não puderam ser atribuídos à ‘vacinação básica’, ‘vacinação de reforço’ ou ‘não vacinado’ com as informações disponíveis foram completamente excluídos das análises. As informações sobre o status de vacinação podem, portanto, estar incompletas aqui ou uma imunização básica incompleta foi dada”.

Homem passa por centro de vacinação em Munique, Alemanha, em 11 de novembro de 2021 ( AFP / CHRISTOF STACHE)

“2 doses com vacinação cruzada = não vacinado”: Falso

A lista compartilhada nas redes também afirma que pessoas vacinadas com imunizantes de fabricantes diferentes são classificadas como “não vacinadas”. Isso é falso. Se ambas as vacinas forem aprovadas na União Europeia, explica o RKI, essas pessoas serão consideradas “vacinadas”.

O chamado “esquema de vacinação heterólogo” é aceito, como confirma um documento do RKI e também a porta-voz do instituto, a pedido da AFP. O UKGM, as Clínicas Helios e a Sociedade Hospitalar Alemã também informaram em 30 de novembro que seguem essas diretrizes do RKI.

“Status vacinal desconhecido = não vacinado”: Irrelevante para as estatísticas

Segundo Vallentin, porta-voz das Clínicas Helios, às vezes os pacientes não querem ou não podem comunicar seu status vacinal. “Nesses casos, isolamos os pacientes e tentamos esclarecer o status vacinal. Se isso não for possível, a pessoa é considerada como ‘status vacinal desconhecido’. Mas são exceções”, disse.

À AFP, o RKI explicou que não foram incluídos nas estatísticas esses casos de status vacinal desconhecido ou os em que a pessoa foi vacinada de forma incompleta. De acordo com o instituto, esses casos são raros e não distorceriam as estatísticas.

No entanto, nem sempre foi tão fácil assim. De acordo com o centro de pesquisa Correctiv, havia lacunas nos dados do RKI até o final de setembro de 2021 no que diz respeito à classificação de pacientes com status vacinal desconhecido, o que foi reportado por diversos meios de comunicação (1, 2).

Isso se devia a estruturas de relatório complicadas, falta de pessoal e falta de digitalização, mas também à falta de respostas de pacientes com covid-19 sobre seu status de vacinação. De acordo com o Correctiv, o status de vacinação de um quinto dos infectados pelo coronavírus era desconhecido para o RKI até o final de setembro, o que levou à categorização “não vacinado” no relatório semanal do RKI.

Mas, após objeções iniciais, isso foi alterado, assegurou um porta-voz do RKI à AFP em 13 de janeiro de 2022. Esses casos já foram excluídos das estatísticas. O Correctiv questionou diversas autoridades alemãs e incluiu as respostas em seu texto.

“2 doses há mais de seis meses = não vacinado”: Falso

A mensagem que circula em redes sociais também afirma que o status de vacinação de pessoas totalmente vacinadas expira após seis meses e que, a partir desse momento, elas seriam registradas como “não vacinadas” caso contraíssem covid-19.

De acordo com a página de informações do Centro Federal de Educação em Saúde da Alemanha (BZgA), isso é falso. Em texto publicado em dezembro de 2021, o órgão assegurou: “O status de proteção vacinal completa que foi alcançado até agora de acordo com os regulamentos nacionais ainda é válido. O período de validade dos certificados de vacinação europeus (UE) não é afetado pela aplicação de uma vacinação de reforço”.

Cabe aos estados membros da União Europeia definir a vacinação de reforço como um pré-requisito para a proteção vacinal completa. Até agora, porém, este não foi o caso da Alemanha.

Tanto as clínicas Helios quanto o UKGM negaram o procedimento descrito nas publicações que circulam no Facebook.

“Vacinado com preparados não autorizados pela UE = não vacinado”: Irrelevante para estatísticas

As publicações também afirmam que pacientes que foram vacinados com imunizantes como a CoronaVac, da Sinovac Biotech, ou a russa Sputnik V - que não são aprovadas para uso na União Europeia - não recebem um certificado de vacinação na Alemanha e são registrados como “não vacinados” pelas clínicas.

Isso é verdade, como explicou a porta-voz das Clínicas Helios. “A Sputnik não é autorizada conosco”. No entanto, essa vacinação é inserida como informação adicional nos formulários de registro.

A porta-voz do RKI detalhou: “A questão de quais certificados são reconhecidos é regulada pela política”. De acordo com o site do RKI, as pessoas que foram vacinadas com a Sputnik V, com a CoronaVac, ou outros imunizantes não aprovados na UE, devem ser vacinadas novamente na Alemanha para receber o certificado de vacinação.

No entanto, segundo a porta-voz do RKI, os vacinados com esses imunizantes também não são levados em conta nas análises e estatísticas divulgadas semanalmente.

Homem é vacinado contra a covid-19 em Berlim, em 17 de julho de 2021 ( AFP / PAUL ZINKEN)

“Curado há mais de seis meses = não vacinado”: Irrelevante para estatísticas

A lista compartilhada também assegura que pessoas que contraíram a covid-19 e se recuperaram há mais de seis meses seriam consideradas como “não vacinadas”. Vallentin, das Clínicas Helios confirmou à AFP: “Até seis meses, aqueles que se recuperaram são considerados como vacinados. Qualquer coisa acima disso é considerado como não vacinado”. A mesma informação foi reiterada pela porta-voz do UKGM.

Mas, nos formulários de notificação também há um campo para casos como esses, em que pode ser especificado o status sorológico do paciente (IgG), ou seja, a presença de anticorpos de uma infecção anterior por covid-19.

De acordo com a porta-voz do RKI, esses casos também não são incluídos nas estatísticas. Por exemplo, no relatório semanal de 23 de dezembro, o órgão afirmou: “Os casos que não puderam ser atribuídos a ‘vacinação básica’, ‘vacinação de reforço’ ou ‘não vacinado’ com as informações disponíveis foram completamente excluídos das análises. As informações sobre o status de vacinação podem, portanto, estar incompletas aqui ou uma imunização básica incompleta foi dada”.

“2 doses com sintomas = não vacinado”: Falso

Por fim, as publicações afirmam que se uma pessoa tiver recebido as duas doses de algum dos imunizantes contra a covid-19 e desenvolver sintomas da doença, ela também será considerada como “não vacinada” na Alemanha. Isso é falso.

Como detalha o RKI em seu site, esses casos são conhecidos como “falta de cobertura da vacina” e são monitorados nos relatórios semanais.

“Um caso de falta de cobertura da vacinação ocorre quando uma infecção por SARS-CoV-2 confirmada por PCR com sintomas é detectada em uma pessoa totalmente vacinada. Para os fins desta definição, uma pessoa é considerada totalmente vacinada quando 14 dias se passaram desde a última dose necessária de vacina”, resume o órgão.

“Portanto, haveria um caso de falta de cobertura, por exemplo, se uma pessoa que recebeu sua segunda vacinação há alguns meses agora se infectar com SARS-CoV-2 (teste PCR positivo) e desenvolver dor de garganta e febre, por exemplo”, acrescenta o órgão.

Outras estatísticas confirmam os números do RKI

As informações da rede Helios, que inclui 52 clínicas na Alemanha, são equivalentes aos números do RKI. A Helios publica seus dados online de maneira independente do Instituto Robert Koch e de seus relatórios. Os números da Helios mostram uma proporção semelhante de pessoas vacinadas entre os internados em unidades de terapia intensiva quando comparados com os do RKI (20,7% na faixa etária de 18 a 59 anos e 38,9% acima de 60 anos, em 23 de dezembro de 2021).

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