Uma criança espera para receber uma dose da vacina Pfizer-BioNTech contra a covid-19 em 24 de novembro de 2021 em Montreal, Canadá ( AFP / Andrej Ivanov)

A campanha sobre AVC na França não tem a ver com a vacinação de crianças contra a covid-19

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Um pôster de prevenção sobre os primeiros sinais de acidente vascular cerebral (AVC) em crianças veiculado na França foi compartilhado por dezenas de usuários nas redes sociais desde, pelo menos, 5 de dezembro de 2021 no Brasil como se pertencesse a uma iniciativa para alertar sobre os efeitos adversos da vacinação contra a covid-19. Mas essa campanha sobre AVC, que não diz respeito apenas às crianças, não é relacionada à covid-19 e às vacinas, disse à AFP a organização que a planejou, France AVC.

“Enquanto isso, no metrô de Paris... o novo normal! Advertência no metrô de Paris sobre AVC em crianças. Uma novidade da Era Pós Vcinas Covi d : ACIDENTE VASCULAR CEREBRAL”, dizem as publicações, compartilhadas no Facebook (1, 2, 3) e no Twitter (1, 2). Sobre a imagem, é possível ler o nome de um canal no Telegram, onde também circulou a mensagem.

Um conteúdo similar, mostrando um ou mais cartazes da campanha, circulou em francês.

Captura de tela feita em 15 de dezembro de 2021 de uma publicação no Facebook ( . / )

As postagens começaram a viralizar dias antes do início da vacinação das crianças contra a covid-19 em vários países da Europa, em 15 de dezembro. Na França, a imunização foi liberada para crianças de 5 a 11 anos “com risco” de desenvolver formas graves da doença ou de ter parentes vulneráveis. No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou a aplicação da vacina Pfizer contra a covid-19 em crianças com mais de 12 desde 11 de julho de 2021.

Em 16 de dezembro de 2021, a Anvisa liberou a utilização de vacinas da Pfizer contra a covid-19 em crianças a partir de 5 anos no Brasil, mas ainda não há previsão para o início da aplicação nessa faixa-etária. Até o momento, o imunizante era aplicado em pessoas de até 12 anos.

De onde veio o pôster?

Os pôsteres são autênticos. A AFP entrou em contato com as três organizações cujos logotipos aparecem na parte inferior do pôster. A France AVC disse estar por trás dos quatro cartazes compartilhados nas redes sociais, e informou que eles fazem parte de uma campanha recente com o objetivo de alertar para o risco de acidente vascular cerebral.

Um AVC ocorre quando o fluxo sanguíneo para ou através do cérebro é interrompido por um vaso sanguíneo bloqueado (AVC isquêmico, mais comum) ou por um vaso sanguíneo rompido (AVC hemorrágico).

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É possível prevenir e reduzir os riscos de AVC. No entanto, de acordo com a Sociedade Brasileira de Doenças Cardiovasculares, se ele ocorrer, o diagnóstico precoce e o tratamento rápido podem reduzir ou até evitar esses sintomas.

“É importante informar a população regularmente, a fim de reconhecer os sinais de alerta do AVC”, disse a France AVC à AFP em 9 de dezembro.

Por esse motivo, o France AVC Endowment Fund realiza campanhas de prevenção para alertar sobre os sinais de alerta de AVC “há anos”.

Os cartazes que circularam nas redes sociais foram colocados nas estações de várias grandes cidades francesas: de 24 a 30 de novembro em Ile-de-France (a região onde fica Paris), de 22 de novembro a 1º de dezembro em Marselha, de 6 a 12 de dezembro em Lyon, e em breve, de 20 de dezembro a 26 de dezembro, em Lille. “Esperamos que em 2022 possamos acrescentar em outras estações”, detalhou a associação.

Os AVCs em crianças

Embora os cartazes sejam recentes, eles “não têm relação com a vacinação contra a covid-19, nem com a vacinação de crianças. São completamente independentes da atual condição da covid-19 e da vacina”, indicou a France AVC.

A organização explicou ainda que mudou o estilo de seus pôsteres este ano e incluiu a foto de uma criança.

“Até recentemente e há muitos anos, nossos cartazes eram sempre os mesmos: os do ‘boneco branco’ com a ligação para o [número de emergência] 15”, diz a entidade.

“Queríamos renovar nossa identidade visual, para gerar um ‘choque’ no público, que já poderia estar acostumado a ver sempre a imagem antiga. A ideia foi, também, a de mostrar que o AVC não atinge apenas as pessoas mais velhas. Embora sejam a maioria, nós temos cada vez mais jovens ativos, mulheres, homens, adolescentes e crianças, até mesmo bebês antes de seu nascimento”, acrescentou.

O Ministério da Saúde francês estima que entre 500 e 1.000 bebês, crianças e adolescentes são vítimas de AVC no país a cada ano, com sinais de alerta semelhantes aos de adultos: paralisia de um lado do corpo, convulsões, deformação do rosto ou problemas na fala.

Ao contrário do risco de acidente vascular cerebral em adultos, favorecido pelo tabagismo, hipertensão, colesterol, consumo excessivo de álcool ou obesidade, a maioria dos AVCs pediátricos ocorre repentinamente em crianças saudáveis e apenas metade deles tem uma causa identificada (malformação congênita, patologia cardíaca etc.).

Um em cada dez adultos que vivem com os efeitos do AVC o teve quando criança.

Stéphane Chabrier, coordenador de pesquisa do Centro Nacional de Referência para o AVC infantil, que não participou da campanha de pôsteres veiculadas nas redes sociais, insistiu à AFP em 13 de dezembro sobre o fato de que “o AVC em crianças existia antes da pandemia”.

Mas “os AVCs em crianças muitas vezes são negligenciados, justamente porque são muito poucos”, lamentou à AFP François Braun, presidente do Samu urgences de France (SUdF), parceira da France AVC na campanha de prevenção.

“Quando pensamos em vítimas de AVC, sempre imaginamos pessoas idosas. É por isso que, pela primeira vez, queríamos destacar uma criança em um pôster para que as pessoas entendessem que devemos ligar imediatamente para o [número de emergência] 15 quando virem um desses sinais em uma criança, porque assim como os adultos, temos apenas quatro horas para tentar desobstruir a artéria responsável pelo AVC”, disse.

Vários cartazes para alertar sobre o risco de acidente vascular cerebral em crianças já haviam circulado nos últimos anos, como o da Sociedade Neurovascular Francesa, em 2018, ou o do Ministério da Saúde, em 2019.

 

 

Quase 70% das crianças guardam sequelas, como deficiência física ou deterioração das capacidades intelectuais após um AVC, assinalado em 2019 por Adrien Taquet, por ocasião do dia mundial dedicado a esta doença.

“Não vimos aumento no número de AVCs”

Por unanimidade, os especialistas ouvidos pela AFP asseguram que ainda não observaram aumento do número de AVCs desde o lançamento da campanha de vacinação contra a covid-19, em adultos, que estavam sendo vacinados na França desde dezembro de 2020, e em adolescentes de 12 a 17 anos, que tiveram a oportunidade desde junho de 2021.

Embora mais de 106 milhões de doses de vacinas contra covid-19 tenham sido administradas na França a 52 milhões de pessoas, "não vimos um aumento no número de AVCs desde o lançamento da campanha de vacinação", disse o presidente do SUdF.

No Brasil, até 14 de dezembro de 2021, foram aplicadas mais de 320 milhões de doses de vacinas contra a covid-19 de acordo com dados do Our World in Data, da Universidade de Oxford e baseada em dados oficiais, e pouco mais de 164 milhões de pessoas haviam sido vacinadas. Ao todo, foram notificados 231 casos suspeitos de AVC após a vacinação no país, de acordo com os dados do dia 16 de dezembro de 2021 do painel de farmacovigilância da Anvisa.

Na França, “houve de fato um efeito de notificação exagerada de AVC, mas no momento do primeiro confinamento [antes do lançamento da vacinação], porque muitas patologias crônicas foram supercompensadas, pois os pacientes estavam atrasando seus cuidados, afirmou a SUdF.

A Agência Nacional de Segurança de Medicamentos francesa (ANSM) estimou em maio de 2021 que “os dados coletados desde o início da campanha de vacinação não fornecem, pelas características dos casos analisados e do conhecimento atual, qualquer elemento que sugira um papel da vacina na ocorrência de AVC isquêmico”, ecoando as conclusões de um relatório publicado em março.

Procurada em 10 de dezembro sobre o assunto, a ANSM não respondeu até o momento da publicação desta verificação.

“Não observamos efeitos adversos como o AVC em adolescentes vacinados contra a covid-19”, pontua Chabrier, do Centro Nacional de Referência para o AVC na infância.

De acordo com o neuropediatra, nenhum dado até agora apoia a tese de que a vacinação contra covid-19 ou a própria doença da covid-19 aumentaria o risco de AVC em crianças. “Embora os neurologistas de adultos tenham reconhecido derrames pós-covid com bastante rapidez e os pediatras também tenham visto certas patologias pós-covid surgirem, [como a] SIM-P [síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica], por exemplo, falamos com nossos colegas internacionais e eles têm a mesma experiência: nós não vimos um aumento incomum na incidência que poderia estar relacionado ao SARS-CoV-2”.

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