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Ministro sul-africano criticou restrições de viagens, não negou existência da variante ômicron

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Dois dias após ser anunciada a detecção de uma nova variante da covid-19 na África do Sul, em 25 de novembro de 2021, usuários passaram a compartilhar um vídeo em que o ministro da Saúde do país, Joe Phaahla, supostamente nega a existência da mutação. Isso é falso. Na gravação, Phaahla apenas afirma que ainda não há confirmação de que a variante, denominada ômicron, seja resistente às vacinas e que, por isso, considera inadequadas as restrições de viagem impostas à África do Sul. Ao contrário do alegado nas redes, o ministro tem falado abertamente sobre a presença da mutação no país.

“URGENTE: O Ministro da Saúde da África do Sul diz que o governo do Reino Unido, Europa e a mídia estão mentindo sobre a super variante Nu/Omicron. Não caiam na narrativa da mídia! Não há variante”, começa o texto compartilhado mais de 500 vezes no Facebook (1, 2, 3), Instagram e Twitter.

As publicações continuam, assegurando: “Se trata de uma reação do corpo humano com as proteínas spike contidas nas vacinas, não há vírus!”.

Captura de tela feita em 30 de novembro de 2021 de uma publicação no Facebook ( . / )

As publicações são embasadas em um vídeo em que o ministro da Saúde sul-africano dá uma declaração, em inglês, sobre a variante anunciada no último dia 25 de novembro. Desde então, casos da mutação foram detectados em diversos países, inclusive no Brasil.

Ao contrário do alegado nas redes, no entanto, em nenhum momento da gravação Joe Phaahla rejeita a existência da variante.

Reação “injustificada”

Uma busca no Google por uma captura de tela do vídeo que acompanha as publicações mostra que o trecho foi retirado de uma coletiva de imprensa realizada pelo Departamento de Saúde da África do Sul no último dia 26 de novembro.

Como amplamente noticiado pela mídia (1, 2, 3), a coletiva teve como objetivo responder às medidas implementadas por diversos governos assim que foi anunciada a detecção da nova variante, não rejeitar a sua existência.

Visando evitar a disseminação, países como Reino Unido, Itália, Alemanha, França e o Brasil fecharam as fronteiras aéreas para viajantes provenientes de países africanos. Para o ministro da Saúde sul-africano, não era o momento para tomar essa decisão, já que ainda se sabe pouco sobre a nova variante.

No vídeo compartilhado nas redes, Phaahla é ouvido dizendo:

“O anúncio sobre essa variante e o risco que os cientistas estavam mostrando era apenas para sinalizar que isso precisa ser acompanhado, mas não há indicação, nesse estágio, de que as doenças graves que podem ser provocadas por essa variante em particular não possam ser prevenidas pela vacina”.

Em outro trecho da mesma coletiva, o ministro acrescentou: “Nós acreditamos que algumas reações foram, na verdade, injustificadas. Estou me referindo, especificamente, à reação de países da Europa, do Reino Unido, de outros países (...). É, na verdade, a abordagem incorreta, é mal direcionada, vai contra as normas aconselhadas pela OMS. Sentimos que algumas lideranças estão procurando bodes expiatórios para lidar com o que é um problema global”.

Em nenhuma reportagem sobre a coletiva, é mencionado que o ministro da Saúde sul-africano teria negado a existência da variante ômicron ou afirmado que a Europa e o Reino Unido estão “mentindo” sobre a sua detecção. Uma busca por palavras-chave no Google tampouco localiza qualquer registro de que a autoridade sul-africana tenha dado tal declaração.

À AFP, o porta-voz do Departamento de Saúde da África do Sul, Foster Mohale, rejeitou a alegação: “Essa notícia é puramente falsa, o ministro não disse essas palavras”.

Variante de séria preocupação

De fato, Joe Phaahla tem falado abertamente sobre a detecção da mutação no país. Em 25 de novembro, por exemplo, se juntou a cientistas da Rede para Vigilância Genômica na África do Sul para divulgar a notícia.

“Nós temos nos comunicado com nossos cientistas para ter mais informações sobre o que está provocando um aumento de casos. Inicialmente, parecia ser [o resultado] de surtos de aglomerações, mas a partir de ontem veio a indicação, de nossos colegas cientistas, que de fato eles estavam observando o que parecia ser uma nova variante”, disse o ministro.

“Como nós sempre dissemos, nós não temos controle. (...) E agora está aqui uma variante de séria preocupação que está causando esse aumento nos números”, acrescentou.

O Departamento de Saúde da África do Sul também tem se pronunciado frequentemente sobre a nova variante em suas redes sociais (1, 2). “A ômicron tem mais de 30 mutações em sua proteína spike. Isso é mais que o dobro do que a delta, colocando em dúvida se infecções prévias ainda fornecem alguma imunidade”,publicou a pasta em sua página no Facebook no último dia 29 de outubro.

No Twitter, o Departamento de Saúde também divulgou recomendações para se proteger da variante.

Reação à vacina

As publicações viralizadas também alegam que a variante ômicron seria uma reação do corpo humano à vacinação contra a covid-19. À AFP, o médico infectologista pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Antônio Flores, baseado na África do Sul, explicou por que isso não é verdade.

“A circulação do vírus leva ao surgimento de variantes. É esperado que os vírus adquiram mutações durante sua replicação. Quanto mais chances há para que o vírus se transmita, maior é a chance de que ele mute”, disse Flores.

Já as vacinas “reduzem a transmissão do vírus e por consequência têm papel na redução do risco de surgimento de variantes”, explicou.

( AFP / John SAEKI, Giulio FURTADO)

Em verificação anterior da AFP sobre outras variantes do SARS-CoV-2, a virologista argentina Carolina Torres deu explicação semelhante: “Os vírus incorporam mutações porque é uma característica intrínseca de sua biologia (...). Isso acontece em cada ciclo de multiplicação do vírus, dentro de cada célula, em cada pessoa que tem uma infecção”.

De acordo com a especialista, com os mais de 200 milhões de casos de infecção pelo SARS-CoV-2 no mundo, “o estranho seria não observar mudanças no vírus”. E enfatizou: “As variantes de SARS-CoV-2 não têm nada a ver com a vacinação”.

Conteúdo semelhante foi verificado pelo site Aos Fatos.

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